"Não tinha dúvidas de que Celeste estava sobrando, por mim eu mesma chutava ela de volta pro Brasil"
Não contei a ninguém o que aconteceu entre nós, nem mesmo a Lucy. Era um segredo maravilhoso que eu podia relembrar no meio das aulas chatas de Silvia ou de um dia longo no Salão das garotas. E pra ser honesta, eu só pensava nos beijos, no estranho e no doce. Sabia que não me apaixonaria pelo Neymar da noite pro dia, meu coração não ia deixar. Mas de repente me vi em uma situação em que talvez eu quisesse me apaixonar por ele, então pensei na possibilidade em silêncio, sozinha, embora tenha sentido mais de uma vez a tentação de revelar meu segredo, mais precisamente três dias depois, quando Olívia anunciou no Salão das garotas que o Neymar tinha a beijado. Não pude acreditar na dor que senti, quando dei por mim, estava encarando Olívia, perguntando a mim mesma o que ela tinha de tão especial.
Marlee: Conta tudo! - A maior parte das garotas também ficou curiosa, mas Marlee era a mais empolgada. No pouco tempo passado desde seu último encontro com o Neymar, seu interesse no progresso das outras cresceu, eu nem desconfiava do que estava por trás da mudança, tampouco tinha coragem de perguntar. Olívia nem precisou de incentivo para começar a falar, ela se sentou em um dos sofás e se abanou com uma revista. Fiquei com vontade de dizer que um beijo não lhe dava vantagem nenhuma.
Talita: Você acha que ela foi a única que ele beijou?
Kriss: Ele não deve beijar qualquer uma. Alguma coisa ela fez, certeza - lamentou.
Talita: E se ele beijou metade desta sala e todas guardam segredo? Talvez seja parte da sua estratégia.
Juliana: Acho que nem todas guardariam segredo por estratégia - rebati. Talvez só sejam reservadas.
Kriss: E se essa história da Olívia for apenas um jogo? Todas neste salão estão preocupadas agora, e ninguém vai ter coragem de perguntar pro Neymar se ele a beijou mesmo. Não tem como descobrir se ela está mentindo.
Juliana: Você acha que Olívia faria isso?
Talita: Se estiver fazendo, eu queria ter pensado nisso primeiro.
Kriss: Isso é muito mais complicado do que pensei que seria.
Juliana: Nem me fale - resmunguei.
Kriss: Gosto de quase todas as meninas nesta sala, mas quando ouço falar que Neymar fez algo diferente com alguma delas, só penso em dar um jeito de ser melhor que ela. Não gosto de ver vocês como concorrentes.
Talita: É o que eu comentava com Tina um dia desses. Sei que ela é um pouco tímida, mas é muito simpática. Não posso ficar brava com ela só por que teve mais encontros com ele do que eu.
Juliana: Marlee e eu conversamos sobre isso o tempo todo, sobre como vemos ótimas qualidades uma na outra. - Nós nos entreolhamos. Algo parecia ter mudado, do nada, eu já não tinha inveja de Olívia ou raiva de Celeste. Todas estávamos no mesmo barco, em lugares diferentes, e talvez por motivos diferentes, mas pelo menos estávamos nisso juntas.
Juliana: Talvez dona Nadine esteja certa, o mais importante é ser você mesma. Prefiro que o Neymar me mande embora por ser eu mesma do que me manter aqui por ser outra pessoa.
Kriss: Isso é verdade. No fim das contas, trinta e quatro garotas vão embora. E se eu fosse a última a ficar, gostaria de contar com o apoio das outras. Por isso, temos que nos ajudar desde já. - Concordei com a cabeça. Ela tinha razão, e eu sabia que poderia ajudar. Foi então que Elisa apareceu no salão, seguida por Zoe e Érica. Elisa geralmente era devagar e calma, nunca levantava a voz. Naquele dia, porém, ela veio na nossa direção e berrou:
Elisa: Olhem esses pentes! - gritou, apontando pros dois belos enfeites de cabelo cobertos pelo que parecia ser milhas de dólares em pedrinhas brilhantes. Foi Neymar quem me deu, não são lindos? - Suas palavras provocaram nova onda de agitação e decepção. Minha confiança recém-conquistada desapareceu. Tentei não parecer decepcionada. Afinal, eu também recebi presentes, e também fui beijada. Mas à medida que chegavam mais garotas e as histórias eram recontadas uma vontade de me esconder crescia dentro de mim. Talvez esse fosse um bom dia para ficar no quarto com Lucy. Pensei em deixar o salão quando Silvia entrou, com um ar cansado e animado ao mesmo tempo.
Silvia: Garotas! Estão todas aqui? - Respondemos que sim em coro. Graças aos céus! Sei que a notícia vem em cima da hora, mas acabamos de saber que a família do Neymar vem nos visitar daqui a dois dias. Teremos uma casa bastante cheia e pouquíssimo tempo para nos preparar. Por isso, desmarquem tudo o que planejavam fazer à tarde. As aulas começam imediatamente após o almoço. - falou e saiu.
Sabia que viria muita gente, afinal era a família de ambos, Seu Neymar e dona Nadine, e qualquer pessoa que visse o cenário acharia que os empregados da mansão tiveram semanas pra planejar tudo. Tendas foram armadas no jardim e mesas de comida e bebidas foram espalhadas pelo gramado. Uma das tendas abrigava lugares pra família. Todos estavam confortavelmente sentados sob a tenda, com exceção do Neymar, ocupado em passear com seus parentes e as Selecionadas. Ele pareceu encantado em rever seus primos, mesmo os mais novos, que brincavam de puxar sua camisa e sair correndo. Ele estava com uma de suas muitas câmeras a tiracolo e corria atrás das crianças tirando fotos. Praticamente todas as Selecionadas observavam a cena embasbacadas
Letícia: Juliana? Vem conhecer a amiga da Nadine. - fui até as mesmas.
Juliana: Muito prazer, Juliana!
Adele: Meu nome é Adele, sou uma das amigas mais velhas da Nadine. - Ela estendeu a mão, e soluçou durante o cumprimento. Falava com um leve sotaque, e por algum motivo me senti confortável com ela, como se estivesse em casa.
Juliana: De onde você é? Adorei seu sotaque!
Adele: Sou do interior do Rio, quase saindo estado já - riu. Cresci na menor casa do lugar e olhe pra nós agora, que mudança! - ri.
Juliana: Moro no Rio também, na Tijuca. Meus pais me levaram pro interior uma vez e eu adorei.
Adele: Ah, não, não, filha - disse, sacudindo a mão. Letícia parecia segurar a risada. Era óbvio que ela achava Adele uma piada. As praias interior são lixo se comparadas às do litoral! - Concordei, com um sorriso. Logo mais, dona Nadine a chamou e ela foi até a mesma. Letícia caiu na risada.
Letícia: Ela não é hilária?
Juliana: Parece simpática.
Letícia: Exagerou na dose, com certeza! Se eu vencer, com certeza vou pagar aulas de etiqueta pra minha família não pagar um mico desses! Não vou deixar que me envergonhem.
Juliana: O que ela fez de tão vergonhoso?
Letícia: Daqui a pouco ela vai estar bêbada.A família toda do Neymar está aqui, deviam ter trancado ela em algum lugar. - Decidi que aquilo já era o bastante e fui pegar um pouco de bebida. Com o copo na mão, corri os olhos pelo lugar e, sinceramente, não encontrei nenhum canto onde quisesse ficar. A festa estava linda e parecia muito interessante, mas eu já estava irritada. Pensei nas palavras de Letícia, se eu acabasse por viver nesse luxo, será que minha família mudaria? Observei as crianças, que corriam por toda parte, as pessoas em grupinhos, botando a conversa em dia. Será que eu não ia querer que Lucas continuasse a ser ele mesmo? Que seus filhos se divertissem independentemente de seu bom comportamento? Quanto ganhar essa competição me afetaria? Será que o Neymar queria que eu mudasse? Era por isso que ele tinha beijado outras garotas? Por que havia algo de errado comigo? O resto da Seleção seria assim tão entediante?
Neymar: Sorria! - Virei pra trás e ele tirou uma foto minha. Quase caí para trás com a surpresa, essa foto inesperada acabou o que tinha sobrado da minha paciência. Saí andando!
Neymar: O que foi? - perguntou baixando a câmera. Dei de ombros. O que aconteceu?
Juliana: Só não tô afim de ser parte da Seleção hoje.
Neymar: Quer conversar? Posso mexer na minha orelha agora. - Respirei fundo e tentei botar um sorriso educado no rosto.
Juliana: Não, só preciso pensar.
Neymar: Ju, eu fiz algo de errado? - Hesitei. Devia perguntar sobre o beijo que ele tinha dado em Olívia? Ou confessar como ficava nervosa ao lado das outras garotas agora que nossa relação tinha mudado? Ou contar como não queria mudar nem mudar minha família para fazer parte daquilo? Eu estava prestes a jogar tudo na cara dele quando ouvi uma voz aguda.
Celeste: Neymar? - viramos na sua direção. Ela estava conversando com a avó dele. Claro que ela queria continuar o papo agarrada nele, por isso o chamou.
Juliana: Por que você não vai lá correndo? - ele olhou nos meus olhos, sua expressão me lembrou de que tudo fazia parte do trato, eu tinha a obrigação de compartilhá-lo com as outras. Cuidado com essa aí. - acenei com a cabeça e saí de cena. Avancei em direção a casa e no meio do caminho vi Marlee sentada sozinha. Eu não queria ficar com ela naquele momento, mas notei que ela estava imóvel em um banco perto do muro nos fundos, sob o sol escaldante. Seu companheiro mais próximo era o Gil que estava no celular uns metros adiante.
Juliana: Marlee, tá fazendo o que aí? Vai se queimar toda - ri
Marlee: Estou bem aqui - deu um sorriso amarelo.
Juliana: Não, é sério - enlacei meu braço no dela. É perigoso até tu passar mal, Precisa... - Marlee tirou sua mão da minha.
Marlee: Quero ficar aqui, Ju! Eu prefiro. - Seu rosto carregava uma tensão que ela tentava esconder. Tinha certeza de que não estava zangada comigo, mas havia algo estranho no ar.
Juliana: Tudo bem. Mas não demore pra ir pra sombra, depois a pela costuma arder. - Me afastei, acenei pro Cebola e continuei meu caminho. Fui direto pro salão das garotas. Não podia ficar fora por muito tempo, e pelo menos o salão estaria vazio. Só que quando entrei, encontrei Adele sentada à janela, assistindo o que acontecia do lado de fora. Ela virou quando entrei e deu um sorrisinho. Cheguei perto e sentei do seu lado.
Juliana: Escondida aqui? - Ela sorriu.
Adele: Mais ou menos. Queria conhecer vocês e ver minha amiga de novo, mas odeio quando essas coisas se tornam obrigações da mídia, fico tensa.
Juliana: Também não sou muito fã. Não consigo me imaginar fazendo coisas assim o tempo todo.
Adele: Aposto que não, você é do Rio, certo?
Juliana: É. Isso mesmo.
Adele: Eu me lembro do seu rosto. Você foi gentil no aeroporto, é o tipo de coisa que ela teria feito - apontou pra dona Nadine. Adele pegou a taça de vinho e virou-a em um gole só.
Juliana: Ela parece ser muito forte, mas gentil também.
Adele: Sim, mas é mais que isso, olha pra ela agora. - Observei-a , reparei como seus olhos treinados varriam o gramado, segui seu olhar, que se concentrava no Neymar. Ele conversava com sua avó, ao lado de Celeste, com um priminho pendurado em sua perna. Ele é um grande irmão mais velho. Nadine gosta disso, de gente! Você sabe o que a deixa feliz? Vocês. Sabe o que ela vê na competição? Uma filha. Ela sabe que, quando tudo acabar, terá mais alguém pra cota de filhos. - Olhei para Adele e depois para Nadine.
Juliana: Acha isso? Ela parece um pouco distante, nunca falei muito com ela.
Adele: Espere. Ela tem medo de se apegar agora e depois ter que ver vocês indo embora. Quando o grupo diminuir, você vai ver . - Comecei a pensar e tanta coisa se passou pela minha cabeça... Como as famílias eram iguais, independentemente da posição social . Como as mães carregavam suas preocupações, como eu realmente não odiava nenhuma das garotas ali, não importava quão erradas estivessem. E finalmente, como o Neymar tinha me prometido algo.
Juliana: Com licença, preciso falar com uma pessoa. - Adele secou sua taça e deu um tchauzinho contente. Corri casa afora até chegar aos jardins. Procurei ele por uns instantes e o encontrei brincando de pega-pega com um priminho, perto de um arbusto. Dei um sorriso e me aproximei devagar. Ele finalmente parou, agitando os braços em reconhecimento da sua derrota. Ainda rindo, ele virou para trás e se deparou comigo. Com o sorriso ainda aberto no rosto, nossos olhares se cruzaram, o sorriso se desfez. Ele examinava meu rosto em busca de um sinal do meu humor. Mordi os lábios e olhei para baixo, era evidente que a preocupação com meu destino enquanto participante da Seleção implicaria processar uma série de sentimentos para os quais não estava preparada. No entanto, eu os deixei vir. Precisava ter cuidado para não os descontar nos outros, especialmente nele. Pensei na Nadine, em como ela recebia ao mesmo tempo pessoas estranhas, chatas, membros da família e um bando de meninas barulhentas em sua casa . Tudo de uma vez. Ela ajudava o marido, os filhos e o seu trabalho. E por baixo dessa força estava uma mulher que lidava com suas próprias dores e que nunca deixou sua antiga condição ou suas aflições recentes impedi-la de fazer tudo o que fazia. Olhei pro Neymar sem levantar a cabeça e sorri. Devagar, ele sorriu de volta e cochichou algo com o garotinho, que imediatamente saiu correndo. Depois, mexeu na orelha. E eu fiz o mesmo.
A família do Neymar ficou alguns dias conosco. Assim que
todos partiram, outra visitante chegou: a paz. Já fazia um mês que eu estava na mansão e me sentia completamente em casa. Meu corpo tinha se adaptado ao novo
clima. Estávamos quase no fim de
setembro e fazia um friozinho à noite. Os cantos daquele espaço gigantesco já não eram mistério. Os sons de
sapatos sobre o mármore, o latir do Poker, a cozinha cheia,
tudo isso já me era tão familiar quanto o motor da geladeira de casa ou a irritação diária do Lucas. As refeições
com a família santos e os momentos no salão das garotas já eram constantes na
minha rotina, mas os momentos entre uma atividade e outra pareciam sempre
novos. Precisava reconhecer: estava ficando
mal-acostumada. E até mesmo o salão
das garotas já tinha ficado mais animado com as duas visitas que a Nadine tinha nos feito. Ela ainda não havia conversado pra valer com ninguém, mas ficava sentava em uma cadeira confortável e observava
nossas leituras e conversas. No geral, a
animosidade tinha passado. Acostumamo-nos umas às outras. Finalmente pudemos
ver a revista com nossas fotos e comentários. Imaginem minha surpresa ao
descobrir que era uma das favoritas. Marlee ficou com o primeiro lugar, seguida
de perto por Kriss, Talita e Bárbara. Celeste deixou de falar com Bárbara por
dias ao saber disso, mas ninguém se importou muito. O que mais
parecia causar tensão eram as informações lançadas no ar. Quem quer que tivesse
estado mais recentemente com Neymar não podia deixar de contar, encantada, sobre
seu pequeno encontro. Pelo jeito como todas falavam, parecia que ele escolheria
seis ou sete mulheres. Mas nem tudo eram flores para todas. Marlee, por
exemplo, teve diversos encontros com ele, o que dava nos nervos das outras.
Contudo, ela nunca retornou tão radiante como no dia do primeiro encontro.
Marlee: Juliana, se eu contar, você precisa prometer que não vai abrir a boca para ninguém - falou enquanto caminhávamos pelo jardim. Eu sabia que se tratava de algo sério. Ela esperou até estarmos longe dos ouvidos atentos do salão das garotas.
Juliana: Claro,
Marlee. Está tudo bem? Marlee: Juliana, se eu contar, você precisa prometer que não vai abrir a boca para ninguém - falou enquanto caminhávamos pelo jardim. Eu sabia que se tratava de algo sério. Ela esperou até estarmos longe dos ouvidos atentos do salão das garotas.
Marlee: Sim, tudo bem. É que... Preciso da sua opinião sobre uma coisa. - O rosto de Marlee estava carregado de preocupação.
Juliana: O que há de errado? - Ela mordeu os lábios e me encarou.
Marlee: É o Neymar. Não sei se vai dar certo.
Juliana: Por que você acha isso?
Marlee: Bem, para começar, eu não... eu não sinto nada, sabe? Não tem química, não temos uma ligação.
Juliana: Neymar pode ser um pouco tímido. É só isso. Talvez você tenha que dar um tempo a ele.
Marlee: Não. O que quero dizer é que eu não gosto dele.
Juliana: Ah! Você tentou?
Marlee: Sim, e muito! Fico esperando o momento em que ele diga ou faça algo que me mostre que temos alguma coisa em comum, mas nunca acontece. Acho ele bonito, mas isso não basta para construir uma relação. Quer dizer, nem sei se ele sente atração por mim. Você tem alguma ideia do que ele, sei lá, do que ele gosta? - Pensei por uns instantes.
Juliana: Na verdade, não. Nunca falamos sobre as expectativas dele no quesito atributos físicos.
Marlee: Aí é que está! Nós nunca conversamos. Ele sempre fala com você, mas nós dois nunca temos o que conversar. Passamos muito tempo em silêncio, assistindo a algum filme ou jogando cartas.
Juliana: Às vezes, nós também ficamos em silêncio. Só nos sentamos e não dizemos nada. Além disso, esse tipo de sentimento não nasce da noite para o dia. Talvez vocês dois devessem ter mais calma.
Marlee: É sério, Juliana, acho que a única razão para eu estar aqui é o povo gostar muito de mim. Acho que ele leva em consideração a opinião do público. Além disso tudo entre nós parece tão... tão vazio. - ela começou a chorar. Respirei fundo e lhe dei um abraço. Queria muito que ela ficasse, que estivesse sempre ao meu lado, mas se ela não amava ele...
Juliana: Marlee, se você não quer ficar com o Neymar, acho que deveria dizer isso a ele.
Marlee: Ah, não. Eu não poderia.
Juliana: Você tem que fazer isso. Ele não quer se casar com uma pessoa que não o ama, se não sente nada por ele, ele precisa saber. - ela balançou a cabeça.
Marlee: Não posso simplesmente pedir para sair! Preciso ficar. Não posso ir para casa... Não agora.
Juliana: Por que, Marlee? O que a prende aqui? - Por um instante, achei que ela precisasse ficar longe de alguém, e eu queria que ela se abrisse! Queria saber que não era a única que tinha ido parar ali em circunstâncias ridículas. Contudo, as lágrimas de Marlee pararam tão rapidamente como tinham começado. Ela fungou algumas vezes e se endireitou. Botou um sorriso forte no rosto.
Marlee: Quer saber? Aposto que você está certa - começou a se afastar. Tenho certeza de que só preciso esperar e as coisas vão avançar. Agora tenho que ir, Tina tá me esperando. - Não entendi nada, o que passou pela sua cabeça? No dia seguinte, ela me evitou e no outro também. Decidi me sentar no salão das garotas a uma distância segura e deixar bem claro que eu a notava sempre que passava por mim. Queria que soubesse que podia confiar em mim, não ia obrigá-la a falar. Foram necessários quatro dias para ela me dar um sorriso triste de quem sabia que alguma coisa não ia bem. Apenas acenei com a cabeça, aquilo parecia ser tudo o que eu tinha a dizer sobre o que se passava no coração dela. Naquele mesmo dia, enquanto eu estava sentada no salão das garotas, o Neymar me chamou. Seria mentira se dissesse que não fiquei toda contente.
Juliana: Neymar! - agarrei-o num abraço. Quando me afastei, ele se mostrou um pouco atrapalhado. Eu sabia por quê. No dia em que deixamos a recepção para sua família, entramos em casa pra conversar, confessei que tinha dificuldades para lidar com meus sentimentos. Pedi que fôssemos devagar até eu ter mais certeza. Ele concordou, mas notei que ficou magoado, ainda assim, não quebrou sua promessa. Ainda restavam vinte e duas garotas depois da partida de Camille, Micaela e Laila. Camille e Laila eram simplesmente incompatíveis com a Seleção e foram embora sem muito destaque. Já Micaela sentia tantas saudades de casa que abriu o berreiro durante o café da manhã, dois dias depois.
Neymar: Como você tá?
Juliana: Ótima, claro. Tá fazendo o que aqui? não deveria estar treinando?
Neymar: Tenho treino só à tarde hoje. O que quer fazer hoje?
Juliana: Qualquer coisa! Aqui nessa casa tem tudo e há tantos lugares que ainda não fomos, o cinema é um deles, por exemplo.
Neymar: Então vamos agora, de que tipo de filme você gosta?- fomos andando em direção ao mesmo.
Juliana: Na verdade, não sei. Não vejo muitos filmes, mas gosto de livros de ação. E de comédia e romance também!
Neymar: Um romance, então? - Ele levantou a sobrancelha como se tivesse segundas intenções. Não tinha como não rir. Viramos o corredor e continuamos conversando. Chegamos na sala de cinema, escolhemos um filme depois de muito debate e passamos as próximas horas só curtindo aquele momento. Apoiei minha cabeça no seu ombro e recebi um cafuné gostoso em troca. Todo esse afeto, essa troca de carinho me fizeram viajar pelo espaço. Pensei em tudo que vinha acontecendo e a rápida aproximação dele com as outras garotas. Pronto, só bastou isso pra eu começar a ser torturada pelo meu próprio cérebro. Será que eu devia ir embora? Tinha a chance de me livrar de toda contradição, mas isso significava deixar o Neymar também. Ele estava sendo meu melhor amigo, talvez até mais que isso. Eu não podia simplesmente ir embora. E tinha a minha família. Talvez os cheques tivessem um valor menor, mas pelo menos chegavam. Se eu desistisse, quem sabe quanto dinheiro minha fama daria à minha família? Tínhamos que poupar o máximo possível.
Neymar: Você não gostou do filme, gostou?
Juliana: Hein?
Neymar: O filme. Você não riu nem teve nenhuma reação.
Juliana: Ah. - Tentei me lembrar de qualquer informação, uma única cena que pudesse citar para dizer que tinha gostado. Nenhum registro. Acho que estou um pouco fora de órbita hoje. Desculpa ter estragado a tarde.
Neymar: Para com isso, só de estar com você já valeu à pena. Mas talvez você devesse tirar uma soneca antes do jantar, seu rosto parece um pouco pálido. - Concordei. Na verdade, considerava a hipótese de ir para o quarto e nunca mais sair.
No fim das contas, não optei por ficar escondida no quarto. Em vez disso, escolhi o Salão das garotas. Geralmente, eu passava o dia entrando e saindo de lá, em passeios com Marlee ou visitas às ajudantes no quarto. Mas passei a usar o Salão das garotas como uma caverna. Nenhum homem, nem mesmo os amigos do Neymar, era perfeito. Bem, funcionou perfeitamente por três dias. Com tantas garotas na mansão, era questão de tempo até uma delas fazer aniversário. E o de Kriss era na quinta-feira. Ela deve ter comentado o fato com o Neymar – que nunca deixava escapar a chance de presentear alguém – e o resultado foi uma festa obrigatória pra todas as Selecionadas. Assim, quinta-feira foi um dia de correria louca por parte das meninas, que entravam e saíam umas dos quartos das outras, perguntando o que vestir ou imaginando o tamanho da festa. Aparentemente, não era preciso levar presente, mas mesmo assim preparei algo para a aniversariante. No dia da festa, pus um dos meus vestidos favoritos e peguei um violão que pedi Lucy pra procurar se tinha em algum canto dessa casa. Não estava acreditando que ia fazer isso, mas era melhor ir logo, antes que perdesse a coragem. Caminhei na ponta dos pés até lá embaixo, olhando para os lados em cada corredor. Assim que cheguei, corri os olhos pelo lugar. Por sorte ainda não tinha muita gente presente. Deixei o violão num cantinho antes que pudessem ver e observei mais o lugar. O ambiente estava ricamente decorado. Vasos especiais portavam enormes arranjos com flores amarelas e brancas, que também enfeitavam os vasos espalhados pelo chão. Nem se quisesse, ia conseguir citar todos os detalhes. Em um dos cantos, um bolo gigante com as cores do salão esperava para ser cortado. Do lado, uma pequena mesa com alguns presentes para a aniversariante. Tinha uma banda no salão de festas ao lado que tornava inútil minha tentativa de presente para Kriss. Havia ainda um fotógrafo que circulava pelo salão captando momentos pro público. O clima era de descontração. Tina – que até então só havia conseguido se aproximar de Marlee – conversava com Érica e Jéssica; nunca a tinha visto tão animada. Marlee estava parada em frente a uma das janelas, não fazia a menor questão de sair de lá, mas parava qualquer um que se aproximasse para conversar. Todo mundo parecia feliz e amigável. As exceções eram Celeste e Bárbara . Elas geralmente eram inseparáveis, mas ocupavam extremos opostos do salão. Bárbara conversava com Samantha e Celeste estava sentada a uma das mesas, sozinha e agarrada a uma taça com um líquido vermelho. Eu com certeza tinha perdido alguma coisa entre o jantar da noite anterior e aquela tarde. Caminhei até Marlee.
Juliana: Oi. Que festa, não?
Marlee: Pois é - me abraçou. O Neymar vai chegar daqui a pouco pra prestigiar Kriss. Não é lindo? Aposto que ele vai trazer um presente também. - Marlee agia com o entusiasmo de sempre. Eu ainda me perguntava qual seria seu segredo, mas confiava o bastante nela para saber que tocaria no assunto quando precisasse desabafar. Ficamos de conversa fiada por alguns minutos até ouvir a exclamação coletiva na porta de entrada do salão. Nós nos viramos pra ver, e enquanto ela permaneceu calma, perdi totalmente o fôlego. Kriss tinha escolhido seu vestido de uma maneira incrivelmente estratégica. Lá estávamos nós, todas com roupas "simples"– vestidos curtos e bonitinhos – ao passo que ela entrava com um vestido longo de gala. Mas o comprimento era o de menos. O chamativo era a cor, um creme muito próximo do branco. Kriss parecia madura e nobre, digna mulher culta de um jogador. Apesar de eu não saber ao certo onde meu coração estava, senti uma pontada de inveja. Nenhuma de nós teria um momento parecido. Não importava quantas festas ou recepções surgissem dali para a frente: seria ridículo tentar imitar Kriss. Reparei que a mão de Celeste – a que não estava agarrada à taça – fechou-se, pronta para socar alguém.
Marlee: Ela está linda mesmo!
Juliana: Mais do que linda.
A festa continuou, e Marlee e eu passamos a maior parte do tempo observando o movimento. Pra nossa surpresa – e desconfiança – Celeste grudou em Kriss e não parou de falar enquanto a aniversariante circulava pelo salão para agradecer a presença de todas, embora na verdade não tivéssemos escolha. Ela chegou ao fundo do salão, onde Marlee e eu estávamos, absorvendo a luz quentinha do sol que atravessava a janela. Marlee, com seu jeito de sempre, deu um abraço entusiasmado em Kriss.
Marlee: Feliz aniversário! - praticamente gritou.
Kriss: Obrigada! - respondeu da mesma maneira.
Marlee: Então, dezenove anos hoje, certo?
Kriss: Sim. Não consigo imaginar uma maneira melhor de comemorar. Estou tão feliz por estarem fotografando. Minha mãe vai adorar! Ainda que sejamos bem de vida, nunca tivemos dinheiro para fazer algo assim. É tudo tão lindo!
Celeste: É impressionante mesmo. No meu aniversário do ano passado, fiz uma festa do preto e branco. Um pouquinho só de cor e você não poderia nem passar na porta.
Marlee: Uau - Marlee falou em voz baixa diante daquele óbvio sinal de inveja entre mundinhos fechados.
Celeste: Foi fantástico. Chefs de cozinha, iluminação teatral e música! Anitta pegou um avião só para ir à festa. Vocês já devem ter ouvido falar dela. - Era impossível não saber quem era Anitta. Uma das maiores cantoras do Brasil, tem várias músicas de sucesso. Acho que Celeste esqueceu que meios de comunicação como TV e internet não eram restritos pra ela.
Kriss: Ela é minha cantora preferida!
Celeste: Bem, ela é uma amiga querida da minha família, por isso cantou na minha festa. Vocês sabem, não podíamos contratar um grupo mixuruca da Tijuca pra tirar toda vida do lugar. - Marlee me olhou rapidamente pelo canto do olho. Deu pra notar que ficou constrangida por mim. Ops! Esqueci. Sem ofensas. - falou olhando pra mim. Sua voz melosa era irritante. Mais uma vez eu me senti tentada a bater nela... Era melhor nem pensar muito no assunto.
Juliana: Não foi nada - respondi, mantendo as aparências o máximo que pude. E o que você faz exatamente em Brasília, Celeste? Quer dizer, nunca ouvi uma música sua na rede.
Celeste: Sou modelo - usou um tom de voz que dava a entender que eu já devia saber disso. Você nunca me viu em um anúncio?
Juliana: Nunca tive o prazer.
Celeste: Ah, você é doméstica, não pode mesmo priorizar a compra de revistas. - Aquilo doeu. Porque era verdade. Adorava espiar as revistas quando encontrava em alguma loja. Só que não havia o menor sentido em comprá-las. Kriss retomou seu papel de anfitriã e mudou de assunto.
Kriss: Sabe, Juliana, eu estava para perguntar quais eram seus hobbies nas horas vagas.
Juliana: Horas vagas não tinha faz tempo, mas quando era pequena, meu pai me ensinava alguns instrumentos, então em dúvidas é a música.
Kriss: Você devia tocar pra gente algum dia!
Juliana: Na verdade - suspirei. Trouxe um violão pra tocar pra você hoje. Achei que seria um bom presente, mas já tem uma banda, então acho que...
Marlee: Ah, não sua vaca! Não sabia desse seu lado, então faz o favor de tocar pra nós!
Kriss: Por favor, Juliana. É meu aniversário.
Juliana: Mas você já tem uma ban...
Marlee: Não, não, não, não, não! - Meus protestos não importavam. Kriss e Marlee já haviam pedido que a banda parasse e chamaram todas as garotas para o fundo do salão. Algumas levantaram e se sentaram no chão, ao passo que outras puxaram algumas cadeiras do canto. Kriss ficou em pé no meio do grupo, apertando as mãos de entusiasmo. Celeste permaneceu ao seu lado, com a taça de cristal na mão ainda pela metade. Assim que todas ficaram confortáveis, peguei o violão. A banda de jovens que tinha tocado se aproximou para me apoiar, e os poucos garçons que perambulavam pelo salão pararam. Respirei fundo e posicionei o instrumento próximo ao meu corpo.
Juliana: Pra você - falei com os olhos em Kriss. Escolhi Who you are da Jessie e por um momento não pensei em nada, não houve Celeste perversa, nem insegurança pelos corredores, nem sentimentos de cabeça pra baixo. Houve apenas uma nota perfeita se prolongando até a seguinte, como que receosa de se perder no tempo sem a outra. Mas elas não ficavam juntas, pairavam até as outras. E o presente que seria de Kriss tornou-se meu. Essa música significa muito, principalmente quando não me sinto eu mesma. Ela era capaz de responder totalmente toda minha insegurança em me tornar alguém irreconhecível nessa seleção. Eu podia ser uma doméstica, mas tinha valor. Toquei a música – tão familiar quanto a voz de meu pai ou o cheiro do meu quarto – por uns breves e belos instantes, pra depois chegar ao seu fim. Passei os dedos sobre as cordas pela última vez e terminei. Abri os olhos para verificar se Kriss tinha gostado do presente, mas nem vi seu rosto. Atrás do grupo de meninas estava o Neymar. Ele vestia uma camisa cinza e carregava uma caixa sob o braço. As garotas aplaudiam , mas não pude prestar atenção no som de suas palmas. Só conseguia focar nele, com uma expressão maravilhada, que logo se converteu em um sorriso. Um sorriso para mim e mais ninguém.
Juliana: Neymar - assenti para o mesmo como forma de cumprimento. - As outras garotas se levantaram pra falar com ele. Em meio a tudo isso, ouvi um grito chocado.
Celeste: Ah, não! Kriss, eu sinto muito! - Algumas meninas arregalaram os olhos na mesma direção. Quando Kriss se virou, percebi o motivo. A frente de seu belo vestido tinha sido manchada pela bebida de Celeste, ela parecia ter sido esfaqueada. Desculpa, virei muito rápido. Não tive a intenção, Kriss. Deixa eu te ajudar. - Um estranho talvez achasse que as palavras de Celeste soavam sinceras, mas eu podia enxergar por trás delas. Kriss levou as mãos à boca, começou a chorar e saiu em disparada pro seu quarto, pondo fim à festa. Neymar saiu atrás dela, embora eu quisesse muito que ele ficasse. Celeste se defendia para quem estivesse disposto a ouvir, dizendo que tudo não tinha passado de um acidente. Talita concordava, dizendo ter testemunhado a cena. Os olhares entediados e o sacudir de ombros da maioria, porém, mostravam que o apoio era inútil. Guardei discretamente meu violão e comecei a sair, quando Marlee me agarrou pelo braço.
Marlee: Alguém precisa fazer alguma coisa com ela. - Se Celeste podia levar alguém tão adorável como Anna à violência, ou achar aceitável tentar tomar meu vestido, ou ainda fazer uma pessoa bondosa como Marlee chegar à beira do ódio, significava que ela estava sobrando na Seleção. Eu tinha que livrar a mansão daquela menina.
Oizão meninas! Sim, eu estou viva o/
Muitas sabem da minha correria por estudar o dia todo e confesso que tá bem puxado. Tentei postar no feriado, mas realmente não rolou. Espero que gostem do capítulo, e se puder digam o que acharam, ficarei feliz em saber independente da opinião! Obrigada por apoiar o blog, vocês são demais! Beijinhos

Continua ♥ está perfeito ♥♥♥
ResponderExcluirADOREI
ResponderExcluirAmeei, continua
ResponderExcluirEstou amando esse blog ❤ continua logo
ResponderExcluirEstou amando esse blog ❤ continua logo
ResponderExcluirElaine, desculpa pela demora a comentar. Mas vim aqui dizer que sua fic continua me surpreendendo positivamente e ja espero por outro capitulo o mais rapido possivel kkkk, bj <3
ResponderExcluirEu queria ter palavras p te dizer sobre esse capítulo, mais infelizmente eu não tenho. Afinal, eu nunca sei oq dizer desse blog, que eu amo tanto.
ResponderExcluirPor mim você postaria TODOS os dias e eu agradeceria mil vezes à você, mas, sei que assim como eu e muitas outras pessoas você tem coisas pra fazer.
Mais gostaria mt de te pedir que tente postar duas vezes por semana. É uma tortura entrar aqui e não ver capítulo novo.
Seu blog é sensacional, viciante e se você fizesse dele um livro, eu com ctz compraria... Continua por favor, não demora não!!!