quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Capítulo 8: "Eu gosto de você, achei que já tivesse notado..."





"Comecei a perceber que isso realmente poderia ser possível"





O Neymar disse que me veria no jantar, mas não apareceu. Até então dona Nadine foi a única que estava  nos acompanhando na refeição. Corri os olhos pela sala de jantar em busca de um assento vazio, pois imaginei que talvez ele estaria em um encontro, no entanto, todos estavam ocupados. Gastei a tarde toda repassando todas as minhas palavras, não era à toa que eu não tinha amigos, era óbvio que eu não sabia cultivá-los. Foi então que o Neymar e seu pai adentraram a sala. Ele estava bagunçado e ainda sim ficava charmoso. Ambos conversavam animadamente, o Neymar gesticulava como se quisesse dar destaque à suas palavras e seu pai concordava mecanicamente com a cabeça, parecendo farto do assunto.
Neymar: Boa Noite, garotas! Queria falar um negócio com vocês. Sei que todas receberam a promessa de que seriam compensadas por participar da seleção, contudo, decidi fazer uma nova repartição nessas verbas. Vou reduzir em 50% a proposta inicial. - Alguns queixos caíram de espanto. O dinheiro era parte do acordo, Celeste por exemplo, parecia prestes a soltar fogo pelas ventas. Peço qualquer desculpas e amanhã no programa explicarei tudo certinho. Acrescento que essa situação é inegociável, aquelas que tiverem problemas com o novo acordo e não quiserem mais participar da Seleção podem sair após o jantar. - depois de falar se sentou e continuou conversando com seu pai, que parecia mais interessado na comida do que nas palavras do filho. Fiquei um pouco pensativa da minha família receber mais dinheiro, mais ao menos ainda receberíamos alguma coisa. Tentei me concentrar na comida, mas passei a maior parte do tempo imaginando o que tudo aquilo significava, e não estava só. Vozes cochichavam por toda sala.
Tina: O que será que ele quer com isso? - perguntou em voz baixa.
Kriss: Acho que é um teste, aposto que tem gente aqui só por causa do dinheiro. - Enquanto escutava a conversa das duas, vi Larissa dar um cutucão em Olívia e apontar a cabeça na minha direção. Virei o rosto pra que não soubessem que tinha visto. As garotas continuaram a levantar hipóteses e eu a observar o Neymar. Queria chamar sua atenção para que visse que eu estava mexendo a orelha, mas ele não olhou pra onde eu estava.

Lucy e eu estávamos sozinhas no "meu" quarto. Hoje eu encararia Gavril e seu programa, isso sem falar nas outras meninas que estariam presentes o tempo todo, analisando o desempenho uma das outras e fazendo suas críticas mentais. Dizer que eu estava nervosa, era um eufemismo grosseiro, eu tremia enquanto Lucy listava algumas possíveis perguntas que o público talvez quisesse saber.  "O que você acha da mansão?  Qual foi a coisa mais romântica que o Neymar fez?  Você sente falta da família? Vocês já se beijaram?"
Lancei um olhar torto pra Lucy, quando ela fez essa última pergunta, era óbvio que essa do beijo era só curiosidade , seu sorriso provava.
Juliana: Não, por favor! - Repliquei, tentando soar irritada, mas ia parecer estranho ficar brava por isso. Então, dei um sorrisinho amarelo, que provocou sua risada. Ah, por que... por que você não vai limpar alguma coisa?  - ela caiu na gargalhada.
Lucy: Negativo, preparei uma coisa pra você - a mesma foi pro closet e voltou de lá com um cabide coberto por uma capa.
Juliana: O que é isso?
Lucy: Um vestido pro programa de hoje, pedi pra mandarem fazer o mais rápido possível.
Juliana: Outro vestido? Mas já não tem um bocado ali? - apontei pra onde ela tinha saído com ele. - ela me deu uma leve encarada, muito suspeita por sinal. o que você fez?
Lucy: Conversei com as outras ajudantes, Ju. Ouvi muitas coisas... Sei que Janaína e você foram as únicas a saírem mais de duas vezes com ele. e pelo que pudemos perceber, talvez haja uma ligação entre vocês.
Juliana: como assim?
Lucy: Pelo que ouvi, ela foi mandada embora porque fez comentários maldosos sobre você. O seu Neymar não concordou e a dispensou no ato.
Juliana: o quê? - levei a mão na boca na tentativa de esconder meu espanto.
Lucy: Tenho certeza que é a favorita dele, quase todo mundo diz isso. - falou em suspiros de alegria, foi aí então que me lembrei de como a conversa havia começado.
Juliana: E o que tudo isso tem a ver com meu vestido? - ela abriu o zíper daquela enorme capa e dentro tinha um vestido vermelho que cintilava à luz fraca do pôr do sol vindo da janela. Nossa, Lucy... você se superou!
Lucy: Obrigada, mas o crédito é todo das costureiras!
Juliana: É lindo, só que ainda não entendi o que tem a ver com a nossa conversa.
Lucy: Como eu disse, muita gente pensa que você é a favorita dele, por que ele lhe faz elogios e prefere sua companhia do que às outras... parece que as outras garotas também notaram.
Juliana: O que você quer dizer?
Lucy: Na oficina lá embaixo onde se tem o espaço pra lhes ajudar com as roupas, todas as empregadas tem acesso, a maioria vai lá. Todas as garotas pediram um vestido azul às suas ajudantes pra esta noite. Elas acham que é por sua causa, você usa essa cor quase sempre, estão tentando imitá-la. Talita e Natalie, não vão usar nenhuma joia hoje, como você. Além disso, a maioria começou a pedir roupas mais simples, como você prefere. Então pensei no vestido vermelho pra que você se destaque, se ele gosta mesmo de você, tenho que te manter em primeiro plano. Você seria uma ótima ganhadora - sorriu. Comecei a pensar num jeito de escapar, odiava ser o centro das atenções.
Juliana: Mas e se as outras tiverem razão? e se ele gosta de mim justamente porque não gosto de aparecer e aí você me veste com uma roupa assim e põe tudo a perder?
Lucy: Toda garota precisa brilhar de vez em quando. Além do mais, duvido que ele não vá adorar. - Não queria explicar que todos os nossos bilhetes e encontros eram de amizade, não podia contar à ela. Ia deixá-la triste e eu tinha que manter as aparências se quisesse ficar. E eu queria, precisava ficar.
Juliana: Tudo bem, vamos tentar. - cedi com um suspiro e ela pulou de alegria. Meia hora depois, eu estava pronta.
O estúdio tinha uma decoração diferente para o especial de hoje. Nossos assentos estavam do mesmo lado que da última vez, porém no centro foram colocadas duas cadeiras altas. Tinha um microfone em uma delas, que usaríamos pra falar com Gavril, meu estômago embrulhava só de imaginar. De fato o estúdio estava lotada de vestidos de todas as tonalidades possíveis de azul. Uns mais perto do verde, outros de violeta, mas ficou claro que havia um padrão. Fiquei desconfortável na hora, percebi de cara o olhar de Celeste e decidi ficar longe dela até a hora de sentar. Kriss e Natalie passaram por mim e eu tinha acabado de conferir a maquiagem pela última vez, ambas pareciam um pouco descontentes, embora às vezes não fosse fácil saber o que se passa na cabeça de Natalie. Kriss pelo menos também se separava da multidão. Seu vestido azul, tinha manchas brancas, como se finas camadas de gelo escorressem por seu corpo.
Kriss: Você está arrasadora, Juliana. - seu tom foi mais de acusação do que de elogio.
Juliana: Obrigada, seu vestido é lindo!
Kriss: É, também gostei.
Natalie: Que tecido é esse? Com certeza vai brilhar na luz. - disse passando a mão em uma das alças do meu vestido.
Juliana: Não faço ideia, não costumava ter coisas legais assim - comentei com ar de desdém.
Celeste: Juliana! - quando dei por mim ela já estava em pé ao meu lado, com um sorriso.
Juliana: Celeste.
Celeste: Você poderia vir comigo um segundo? Preciso de ajuda. - sem esperar pela resposta, ela me arrastou pra longe de Kriss e Natalie, me levando pra parte de trás da cortina azul que servia de pano de fundo do programa. Tire o vestido! - ordenou, começando a descer o zíper do seu.
Juliana: O que?
Celeste: eu quero seu vestido, tira agora! Argh, fecho maldito - resmungou ainda tentando se livrar da roupa.
Juliana: Não vou tirar meu vestido, eu hein - retruquei. Comecei a me afastar, mas não fui muito longe, ela cravou as unhas no meu braço e me puxou pra trás. Ai! - pelo jeito a marca da unha ia ficar, mas felizmente nada de sangue.
Celeste: Calada, tira o vestido. Agora! - permaneci calada com cara de bunda pra ela, nem um pouco a fim de cooperar. Minha vontade era de descer a mão naquela fuça, mas não ia cair no seu jogo. Ela ia ter que aprender que não era o centro de Barcelona. Posso tirar pra você se quiser - propôs friamente.
Juliana: Não tenho medo de você, Celeste. - cruzei os braços.  Esse vestido foi feito pra mim e vou ficar com ele. Da próxima vez que for escolher sua roupa, tente se parecer consigo mesma, ao invés de me copiar. Opa... Mas acho que se fizer isso, talvez o Neymar descubra que você é uma chata e te mande pra casa né? - sem hesitar um segundo, ela levantou o braço, puxou a alça do meu vestido e foi embora. Bufei de raiva, mas fiquei atordoada demais para ir além disso. Olhei para baixo e deparei com aquele pedaço de tecido descosturado pendendo de forma patética do meu busto. Ouvi o chamado de Silvia para todas irem a seus lugares e saí por trás da cortina, caminhando o mais corajosamente que podia.
Marlee tinha guardado um lugar para mim ao seu lado. Notei sua cara de espanto quando me viu.
Marlee: O que aconteceu com o vestido? - sussurrou.
Juliana: Celeste!
Érica e Samantha, sentadas à nossa frente, viraram para trás. 
Érica: Ela rasgou seu vestido?
Juliana: Sim!  
Érica: Você tem que contar tudo pro Neymar, essa menina é um pesadelo! 
Juliana: Eu sei - concordei com um suspiro. Vou contar da próxima vez que o vir. 
Marlee: Juliana, levante o braço. - Com as mãos de uma profissional, ela enfiou minha alça descosturada no busto do vestido, enquanto Érica arrancava algumas linhas soltas. Não dava nem para notar que algo tinha acontecido, já as marcas de unha pelo menos estavam no braço esquerdo, escondidas da câmera.
Era quase hora de começar. Gavril revia suas fichas, enquanto aguardava dona Nadine se sentar. Neymar parecia estar disposto e calmo.
Neymar: Boa noite, garotas! - Um coro de “Boa noite” foi sua resposta. Como sabem, farei um breve anúncio e depois chamarei Gavril. Será uma boa mudança: é sempre ele que me chama! - Neymar riu, e todas fizemos o mesmo.  Sei que algumas de vocês talvez estejam um pouco nervosas, mas não tem motivo. Por favor, sejam vocês mesmas, as pessoas querem conhecê-las. - Nossos olhares se cruzaram algumas vezes enquanto ele falava, mas não foi suficiente para adivinhar seus pensamentos. Ele não pareceu ter notado o vestido, Lucy ficaria desapontada. Ele caminhou até o palanque, desejando-nos sorte.
Eu sabia que algo ia acontecer. Tinha certeza de que seu anúncio estava relacionado com o que ele nos falara durante o jantar da noite anterior, mas eu ainda não conseguia adivinhar do que se tratava especificamente. O pequeno mistério dele me distraiu um pouco; já não estava mais tão nervosa. Na verdade, quando tocou a musiquinha introdutória ao programa  sentia-me bastante bem.
Neymar: Boa noite!  Sei que esta é uma noite empolgante para todos nós, vocês finalmente conhecerão melhor as vinte e cinco mulheres que ainda participam da Seleção. Não sei expressar o quanto tô animado por isso. Tenho certeza que adorarão suas qualidades. Mas antes disso, gostaria de anunciar um novo projeto em que tô trabalhando e que tem muita importância pra mim. O contato com essas mulheres, me expôs a algumas realidades até então, distante de mim. Um mundo que raramente posso ver, devido a agenda sempre apertada. Me contaram sobre a bondade incrível e também a escuridão que existe por aí. Por meio de minhas conversas com essas mulheres, abracei ainda mais a importância das massas além da minha realidade e pretendo fazer algo quanto a isso. - O quê?, perguntei a mim mesma. Precisaremos de pelo menos três meses para nos preparar adequadamente, mas por volta do Ano-Novo todas as cidades do estado de São Paulo e Rio de Janeiro oferecerão assistência alimentar aos necessitados em centros comunitários. Qualquer um poderá ir a um deles no fim da tarde para se servir de uma refeição nutritiva e gratuita. Nosso desejo é expandir pra mais estados, mas vale ressaltar que essas mulheres que vemos aqui sacrificaram parcialmente o dinheiro que ganham da seleção a fim de ajudar a custear esse importante projeto. E, embora essa assistência talvez não possa se prolongar para sempre, vamos mantê-la o máximo que pudermos. - Tentei engolir a gratidão e a admiração que sentia, mas derramei algumas lágrimas. Ainda estava consciente o bastante para quase ficar preocupada com a maquiagem borrada, mas queria tanto apreciar aquele momento que aquilo já não era uma prioridade. Quem puder contribuir com doações pra esses centros, ficarei imensamente agradecido.  Somos abençoados, então se podemos, vamos ajudar. Terei mais informações conforme o projeto avançar. Queria agradecer a atenção de todos. Mas agora passemos ao verdadeiro motivo de todos estarem em frente à TV hoje, o microfone é todo seu Gavril! - O lugar foi tomado por palmas ensurdecedoras vindas de todos, sua mãe estava radiante de orgulho.
Gavril: Obrigado, Neymar! Muito bom! Se essa história de jogador não der mais certo, você pode pensar em um emprego na televisão. - Neymar foi para seu lugar gargalhando. As câmeras focavam Gavril agora, mas continuei observando ele e seus pais.  
Gavril: Meu povo, esta noite veremos cada uma dessas jovens por dentro. Sabemos que estão mortos de vontade de conhecê-las e de saber como está seu relacionamento com o Neymar. Por isso, esta noite... vamos apenas perguntar! Comecemos pela jovem Celeste Neves, de Brasília! - Celeste levantou de seu assento na fileira do alto e desceu sinuosamente as escadas. Antes de se sentar para a entrevista, beijou as bochechas de Gavril. Sua entrevista era previsível, como a de Bárbara. . Ambas tentaram parecer sedutoras, inclinando-se para a frente várias vezes para que as câmeras filmassem o decote. Elas eram muito falsas. Eu podia ver seus rostos nos monitores, e a cada resposta elas olhavam para o Neymar e piscavam. Teve momentos que Bárbara tentou lamber os lábios de um jeito atraente, Marlee e eu trocamos olhares e tivemos que desviar o rosto para não rir. Outras tiveram mais compostura. A voz de Tina era muito discreta, e ela parecia encolher à medida que a entrevista avançava, mas eu sabia que ela era meiga e esperava que Neymar não a riscasse de sua lista apenas por não falar bem em público. Érica se manteve formal, como Marlee. A principal diferença entre as duas era que a voz de Marlee estava tão carregada de entusiasmo que ficada mais aguda a cada fala. Gavril fazia uma série de perguntas, mas duas pareciam fixas: “O que você acha do Neymar?” e “Você é a garota que gritou com ele?”. Eu não estava muito ansiosa para revelar pra todo mundo que tinha dado uma bronca no grande craque do Brasil e de Barcelona. Ainda bem que – até onde todos sabiam – eu só tinha feito isso uma vez. Todas pareciam orgulhosas por não terem sido a garota que tinha gritado com ele. E todas achavam que ele era simpático. Usavam quase sempre a mesma palavra: simpático. Celeste disse que ele era bonito. Bárbara comentou que tinha um poder silencioso, o que me pareceu assustador. Gavril perguntou a algumas garotas se o jogador já as beijou, e a resposta era invariavelmente um “não” de bochechas coradas. Depois da terceira ou quarta negativa, ele se voltou pro Neymar e disparou, parecendo chocado:
Gavril:  Mas você ainda não beijou nenhuma delas?
Neymar: Eu sou difícil - gargalhou. 
Tava distraída, mas logo despertei quando Gavril me chamou. As outras garotas aplaudiram quando me levantei, como tinha sido com todas, dei um sorriso nervoso para Marlee. Concentrei-me em meus pés enquanto caminhava, mas assim que me sentei, notei que era fácil olhar pro Neymar por cima do ombro de Gavril, ele deu uma piscadinha quando peguei o microfone. Senti-me mais calma no ato, eu não tinha que vencer ninguém. Apertei a mão de Gavril e sentei-me à sua frente
Gavril: Juliana Magaldi, nome interessante o seu... Tem alguma história por trás dele? - Suspirei aliviada. Essa era fácil.
Juliana: Sim, eu chutava muito durante a gravidez. Minha mãe disse que carregava uma lutadora na barriga e por isso me batizou com esse nome. Ele significava jovem, e ela disse que eu seria uma repleta de coragem. É estranho, mas devo reconhecer que ela acertou: nós duas vivemos brigando. - ele riu
Gavril: Parece que ela é uma mulher enérgica.
Juliana: Ela é. Herdei boa parte de minha teimosia dela.
Gavril: Então você é teimosa? Um pouco geniosa? - Vi o Neymar cobrir a boca com as mãos, morrendo de rir.
Juliana: Às vezes.
Gavril: Então por acaso você seria a garota que gritou com ele? - respirei fundo.
Juliana: Sim, fui eu, e minha mãe deve estar infartando neste exato momento.
Neymar: Manda ela contar a história toda! - gritou pra Gavril.
Gavril: Ah! Qual é a história toda? - Tentei olhar feio pro Neymar, mas a situação era tão ridícula que não funcionou.
Juliana: Senti um pouco de... claustrofobia na primeira noite e fiquei desesperada para sair. A porta tava travada e eu não consegui abrir, tava a ponto de desmaiar quando ele chegou e abriu pra mim.
Gavril: Humm... - grunhiu, inclinando a cabeça um pouco pro lado.
Juliana: Depois ele ainda me seguiu para ver se estava tudo bem comigo... Mas eu estava tão nervosa que quando ele abriu a boca eu basicamente o acusei de ser vaidoso e superficial. - Gavril gargalhou ao ouvir isso, olhei pro jogador e o vi sacudir de tanto dar risada. Mas o mais vergonhoso era que o seu pai e a sua mãe também tavam rindo. Não me virei para olhar as garotas, mas ouvia as risadinhas de algumas. Certo! Talvez agora elas parassem de me ver como uma ameaça, eu era apenas uma pessoa que o Neymar achava divertida.
Gavril:  E ele te desculpou?
Juliana: Por incrível que pareça - respondi dando de ombros.
Gavril: Bem, agora que os dois fizeram as pazes, que tipo de programa têm feito juntos?
Juliana: Geralmente a gente anda pelo jardim ou saí pela cidade, ele sabe que gosto de passear ao ar livre. E nós conversamos. - Minha resposta parecia patética diante do que as outras garotas falaram: Cinema, jantar, passeios à  cavalo, tudo muito impressionante se comparado à minha história. Mas foi então que entendi por que Neymar passou a semana anterior emendando um encontro com o outro. Elas precisavam ter o que contar para Gavril. Ainda estranhava que ele não tivesse comentado nada comigo, mas pelo menos sabia o motivo da sua distância.
Gavril: Parece muito relaxante. Você diria que o jardim é sua parte favorita da casa?
Juliana:  Talvez - sorri.  Mas a comida é divina, então... - Gavril riu de novo.
Gavril: Então, acha que as outras meninas são superiores à você para te vencer?
Juliana: Não - a palavra saltou da minha boca automaticamente.
Gavril: Nossa, quanta convicção! Então você acha que vai vencer?
Juliana: Não, não - pensei um pouco. Não é isso. Não me julgo melhor que as outras meninas aqui. É só... Não acho que o Juninho faria isso, visse superioridade em seus critérios. - Ouvi uma exclamação de surpresa coletiva. Repeti a frase mentalmente, custei um pouco para descobrir meu erro: tratei o Neymar por Juninho. Uma coisa era chamar ele assim de portas fechadas, depois de muita exigência e com o mesmo argumento "Neymar é meu pai, po", mas outra coisa era tratar ele assim na frente de todo mundo. E eu tinha acabado de fazer isso ao vivo, diante de todo o país. Olhei pra ele pra conferir se ele tava irritado. Havia um sorriso calmo em seus lábios, então ele não estava bravo... mas continuei envergonhada. Fiquei vermelha de alto a baixo.
Gavril: Ah, parece que você realmente ficou íntima dele. Diga-me, o que você acha do Juninho? - Pensei em várias respostas enquanto aguardava minha vez de falar. Eu poderia caçoar de sua risada ou falar do apelido carinhoso que ele dava pra todas, parecia o único jeito de salvar a situação e voltar à comédia. Mas quando levantei  os olhos para escolher meus comentários, deparei com o rosto dele. Ele queria mesmo saber. E eu não podia tirar sarro, não quando tinha a chance de dizer o que realmente pensava agora que era meu amigo. Não podia fazer piada com a pessoa que me salvara de ter que fazer loucuras pra ajudar minha mãe, com a pessoa que enviava caixas de doce para minha família; que corria até mim preocupado com minha saúde quando eu o chamava. Um mês antes, eu tinha olhado para a TV e visto uma pessoa distante, comercial e entediante; uma pessoa que, eu pensava, ninguém poderia amar. E independente de qualquer situação, ele era digno de passar a vida ao lado de alguém que o amasse.
Juliana: Neymar Júnior é a síntese de todas as coisas boas, um pai  fenomenal. Ele deixa garotas agressivas permanecerem na seleção e presenteia com shorts jeans quando a mesma reclama do seu guarda-roupa, e principalmente não se zanga quando alguém que não o conhece o julga de uma maneira completamente errada. - Olhei bem nos olhos de Gavril, que sorriu. Atrás dele, Neymar parecia intrigado. Quem se casar com ele será uma mulher de sorte, e não importa o que me acontecer,sou agradecida por conhecê-lo. - Vi ele engolir em seco minhas palavras, impressionado, apenas baixei os olhos.
Gavril: Juliana Magaldi, muito obrigado - estendeu a mão. A próxima é a Amanda Reis. - Não ouvi nada do que as outras garotas disseram depois de mim, apesar de manter os olhos no palco, também não tinha coragem de olhar pro Neymar. Tudo o que fazia era repassar mentalmente as palavras ditas na entrevista, várias vezes.
Às dez horas, ouvi as batidas, abri a porta com um só movimento, e ele fez cara feia.
Neymar: Seria muito bom você ter alguém aqui pra te ajudar.
Juliana: Neymar, desculpa! Não queria chamar você por Juninho na frente de todo mundo, Fui tão idiota, eu sei.
Neymar: Você acha que tô bravo por isso? - perguntou enquanto fechava a porta e entrava no quarto. Eu brigo com você pra me chamar assim o tempo todo, uma hora ia escapar. Gostaria que tivesse sido em um ambiente mais reservado - soltou um sorriso malicioso. Mas não vou pegar no seu pé por isso.
Juliana: Mesmo?
Neymar: Mesmo! 
Juliana: Ainda não acredito que você me fez contar aquela história! - dei um tapinha no seu braço.
Neymar: Ai - riu. Mas foi o melhor momento da noite! Minha mãe ficou impressionada.Você me chamou de superficial e ela até agora não se conforma. - Ótimo. Agora a mãe dele também me acha inadequada. Cruzamos o quarto e acabamos na sacada. Batia uma brisa leve e morna, a lua cheia brilhava sobre nós.
Juliana:  Bem, fico feliz que você esteja tão impressionado. - Com um pulo, ele se sentou no parapeito.
Neymar: Você é sempre impressionante, se acostume. - Ele estava meio estranho. Então... o que você disse...
Juliana: Que parte? Quando chamei você pelo nome, quando disse que brigava com minha mãe ou quando sugeri que a comida era minha motivação? - riu
Neymar: A parte sobre eu ser uma boa pessoa...
Juliana: Ah, o que tem?
Neymar: Admiro que você queira soar sincera, mas não precisava ir tão longe.
Juliana: Neymar não fiz aquilo pelo programa. Se você tivesse perguntado um mês atrás qual era minha opinião sincera sobre a sua pessoa, minha resposta teria sido bem diferente. Mas agora conheço você de verdade. Você é tudo o que eu disse, e mais. - Ele ficou em silêncio, mas tinha um pequeno sorriso no rosto.
Neymar: Obrigado.
Juliana:  Ao seu dispor. - ele limpou a garganta.
Neymar: Ele também será um homem de sorte - desceu do seu assento improvisado e veio pro meu lado da sacada.
Juliana: Hein?
Neymar: Seu futuro namorado. - tive que rir.
Juliana: Não tenho um.
Neymar: Impossível que não arranje depois de sua aparição na TV, devem estar apaixonados, embora eu ache que você é muita areia pro caminhãozinho de qualquer um deles. A propósito, se você não quiser que eu me apaixone, não pode ficar assim tão linda. A primeira coisa que vou fazer amanhã é mandar Lucy costurar uns sacos de batata para você usar.- gargalhou e eu dei uma cotovelada no braço dele.
Juliana: Cala a boca, Neymar. - ri
Neymar: Não é brincadeira, você é bonita demais pro seu próprio bem. Quando sair, vamos ter que mandar alguns seguranças pra te acompanhar. 
Juliana: Não posso fazer nada - suspirei. Não pedi para nascer perfeita  -me  abanei com as mãos pra mostrar que ser linda era muito cansativo.
Neymar:  É, não acho que seja possível evitar. - ri. Observei o jardim e percebi pelo canto do olho que o Neymar tinha o olhar fixo em mim, seu rosto estava pertíssimo do meu. Quando me virei para perguntar o que ele estava olhando, a surpresa: ele estava perto o suficiente para me beijar. E foi isso que ele fez, me beijou. Ah, e esse beijo... Estava desconcertada demais, mas não podia deixar de sentir o quanto era bom. Porém, uma faísca de lucidez apareceu e eu me afastei rapidamente, dando um passo para trás, ele se afastou também.
Neymar: Desculpa Ju - murmurou, seu  rosto tava vermelho.
Juliana: O que você tá fazendo?
Neymar: Grrh, Droga! Me desculpa
Juliana: Por que você fez isso?
Neymar:  É que... o que você disse no programa... E ontem você me procurou... Seu modo de agir... Pensei que seus sentimentos tinham mudado. E eu gosto de você, achei que já tivesse notado. - Sem que eu esperasse, um calor me subiu pelo corpo. Pensei no Neymar que eu conhecia agora, um homem cheio de qualidades; capaz de me ceder o prêmio de uma aposta que eu perdera; de me perdoar depois de eu ter machucado seu corpo e seu coração. Descobri que não me importava de ser beijada por ele. Aproximei-me dele e esfreguei a mão em sua testa.
Neymar: O que você está fazendo?
Juliana: Apagando essa lembrança, acho que podemos fazer melhor. - Abaixei a mão e me aconcheguei ao seu lado. Seu olhar permanecia voltado para o quarto. Ele não se moveu... Mas sorriu.
Neymar:  Juliana, acho que não podemos mudar a história - apesar dessas palavras, seu rosto deixava entrever uma esperança.
Juliana: Claro que podemos. Afinal, quem vai saber disso além de nós dois? - ele me encarou por um momento. Estava claro que ele se perguntava se aquilo tudo fazia sentido. Vi uma confiança cuidadosa tomar conta de sua expressão aos poucos, enquanto ele mantinha seus olhos nos meus, permanecemos assim por uns minutos até eu conseguir lembrar o que acabara de dizer
Juliana: Ninguém pede para nascer perfeito - sussurrei. Ele se aproximou, envolvendo minha cintura com seu braço e me puxando para si. Nossos narizes se tocaram, ele começou a acariciar meu rosto com os dedos de uma forma tão delicada que parecia temer que eu quebrasse.
Neymar:  É, não acho que seja possível evitar. - Com a mão aproximando levemente meu rosto do seu, ele inclinou a cabeça e me deu o mais tímido dos beijos. Algo em sua hesitação fez com que eu me sentisse linda. Sem precisar de palavras, pude compreender como ele estava se sentindo naquele momento, e com certeza eu não estava diferente.
Neymar: Melhorou? - Consegui apenas concordar com a cabeça. Ele parecia a ponto de dar piruetas, meu peito carregava um sentimento parecido. Tudo tão inesperado, tão rápido, tão estranho. Meu rosto deve ter denunciado minha confusão, pois o Neymar ficou sério.
Neymar: Posso dizer uma coisa? - assenti. Não sou burro o bastante para crer que você se apaixone por mim de um dia pro outro, sei que você acha que há mulheres aqui mais adequadas para mim, não quero me apressar e tentar ser feliz com qualquer uma. Eu só... só quero saber se é possível.. - Uma pergunta difícil de responder. Por acaso eu desejaria uma vida que nunca quis? Estaria disposta a vê-lo em encontros alegres com as outras apenas para se certificar de que não estava errado? A assumir a responsabilidade de me tornar sua mulher? Eu queria amá-lo?
Juliana: Sim, Neymar - sussurrei. É possível.









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sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Capítulo 7: "Você só queria me ver?"

"Verdade e transparência, sinto que essas palavrinhas estavam começando a ganhar muito poder".




Amy: Ela deve ter feito algo péssimo – insistiu.

Kriss: Não foi isso que deu a entender – rebateu

Talita: o que ela disse mesmo? – perguntou puxando o braço dela.

Janaína foi mandada pra casa. Era crucial para nós entender a eliminação, porque tinha sido a primeira eliminação isolada que não foi motivada por descumprimentos de regras. Ela tinha feito algo errado e queríamos saber o quê. Kriss, cujo quarto ficava em frente ao de Janaína, tinha visto a garota entrar e fora a última pessoa com quem ela conversou antes de ir embora. Ela deu um suspiro e repetiu a história pela terceira vez.

Kriss: Ela e o Neymar saíram, mas vocês sabiam disso. – O encontro deles era mesmo de conhecimento comum. Depois da sessão de fotos do dia anterior, ela espalhou o convite pra quem quisesse ouvir.

Bárbara: Foi seu segundo encontro com ele. Ela foi a única a ter dois.

Juliana: Não, não foi – comentei.

Algumas cabeças se voltaram pra mim e confirmaram minha declaração. Era verdade, apesar de tudo. Janaína foi a única a ter dois, além de mim. Não que eu contasse.

Kriss: Ela voltou chorando. Perguntei o que tinha acontecido e ela respondeu que ia embora, que ele a mandou de volta pra casa. Estava tão transtornada que dei um abraço nela... Depois, perguntei o que tinha acontecido, e ela disse que não podia contar. Não entendo isso! Será que não temos autorização pra falar quando formos eliminadas?

Talita: Isso não estava nas regras, estava?

Amy: Ninguém falou nada à respeito – Apontou e muitas confirmaram.

Celeste: Mas o que ela disse então? – Kriss deu outro suspiro.

Kriss: Disse pra eu tomar cuidado com o que falo, depois entrou no quarto e bateu a porta.

O ambiente ficou em um silêncio reflexivo por alguns minutos.

Beatriz: ela deve ter insultado ele - sugeriu.

Celeste: Bem, se esse for o motivo da saída dela, é uma injustiça. O Neymar afirmou que alguém aqui nesse salão o insultou na primeira vez que se viram.

 As garotas começaram a olhar em volta na tentativa de identificar a culpada, talvez com o desejo de fazer com que ela - no caso eu – fosse embora. Lancei um olhar nervoso para Marlee e ela logo entrou em ação.

Marlee: será que ela falou de negócios ou algo assim?

Bárbara: Pelo amor de Deus, imagine a chatice que estava sendo o encontro então né? Por acaso alguém aqui falou de negócios com ele? – Ninguém respondeu. Claro que não! Neymar está em busca de um amor, não de uma assistente.

Kriss: Você não acha que está subestimando ele? Ele deve querer alguém com ideias e opiniões também. – Celeste se jogou pra trás e riu.

Celeste: Neymar pode muito bem administrar seus negócios sozinho. Teve treino pra entender disso. Além do mais, tem pessoas pra ajudá-lo a tomar decisões. Por que ia querer alguém pra lhe dizer o que fazer? Se eu fosse você, começaria a aprende como manter a boca fechada, pelo menos até que ele fique com você.

Bárbara: O que não vai acontecer – falou ficando do lado de Celeste.

Celeste: Exatamente! – assentiu sorrindo. Por que ele ia se importar com alguém com a renda inferior, sendo que pode ter uma melhor, como eu?

Talita: Ei! Ele não se importa com isso.

Celeste: Claro que se importa! Por que você acha que todas com renda baixa já foram embora?

Juliana: Presente! – ergui o braço. Se acha que entende ele, está muito errada.

Celeste: Ah, a menina que não sabe calar a boca! – Cerrei o punho imaginando se valeria a pena bater nela. Seria parte do seu plano? Mas antes que eu pudesse me mover, Silvia entrou na sala.

Silvia: Olá meninas! Meia horinha pra ligar pra suas famílias, corram já! – avisou e a tensão se desfez.

Fazia quase duas semanas que estávamos lá, então obviamente a saudade já estava grande. Corri para o quarto, a ponto de chegar ofegante nele. Peguei o telefone fixo ao lado da cama e liguei para meu irmão.




Ligação ON:
 

 Lucas: Alô, Jú? 
Juliana: Oi meu amor, que saudades!
Lucas: Caralho pirralha, to sentindo tanto sua falta.
Juliana: Olha a boca menino - riu. Eu também, de todos vocês. Me fala como vocês estão?
Lucas: Todo mundo bem, tudo no certo. a mãe até foi no médico com papai.
Juliana: No médico? o que ela teve? ela piorou?
Lucas: ei, ei! calma maninha, ela tá bem, ótima aliás! Mamãe tem progredido muito nos exames, e quando te viu na televisão dava pra ver o orgulho saltando pra fora. Você é foda, todos nós reconhecemos seu sacrifício.
Juliana: sabe que fiz e faria tudo de novo por cada um de vocês né?
Lucas: Claro que sei. Conheço a irmã que tenho - rimos
Juliana: e os tios? estão bem? 
Lucas: tia Ieda é só o escândalo quando vê qualquer notícia que tenha favoritismo voltado pra você, morro de rir com ela. Mas fica tranquila que estão todos bem e torcendo muito. Não vejo a hora de chegar o programa sexta-feira.Vai ser bom te ver de novo! - foram os trinta minutos mais rápidos que tive, e só de pensar na despedida de sempre, meu coração já apertava.
Juliana: Não sabe o quanto esse apoio me faz bem, vocês são incríveis.
Lucas: Quando puder, pode me ligar a hora que quiser, de manhã, de noite, de madrugada... faço esse sacrifício por você. - riu. Amo você. Todos amamos.

Ligação OFF



Queria saber o que estava acontecendo, imaginava o que teria ocorrido de verdade com Janaína, além de estar curiosa pra saber se o Neymar tinha mais um encontro hoje de noite, queria muito vê-lo. Minha mente começou a girar em busca de uma maneira de falar com ele. Peguei um pedaço de papel e escrevi rapidamente.

“Jogador, mão na orelha quando puder.”

Saí do quarto e avistei o Gil lá embaixo.

Juliana: Ei!

Gil: Fala carioca, tudo bem? – sorriu e a essa hora suas covinhas já estavam pulando em seu rosto.

Juliana: Tudo sim e você?

Gil: Tranquilão pô – ri.

Juliana: Sabe do Neymar?

Gil: Tá no escritório com o cabeça.

Juliana: Ahh sim, pode entregar esse bilhete à ele pra mim? – ele fez uma cara maliciosa e eu ri.

Gil: Entrego sim. - Não tinha dúvidas que ele leria, mas meu enigma me deixava tranquila. Comecei a andar pela casa e ela era tão linda. O papel de parede, os espelhos, os vasos gigantes com flores frescas, carpetes luxuosos e macios, janelas brilhantes de tão limpas e quadros adoráveis, enfim, tudo impecável. Avancei um pouco mais pelo corredor e dei com um retrato dele e do filho na parede. Era gritante o quanto aquela criança havia crescido.

Neymar: Juliana? Tá tudo bem? O que houve de errado? – errado?

Juliana: Nada, estou bem. – ele soltou um suspiro de alívio que eu não tinha notado que estava segurando.

Neymar: Ainda bem, quando recebi o bilhete, pensei que tinha acontecido alguma coisa com sua família, ou estava doente, sei lá.

Juliana: Não, não. Desculpa ter te assustado, sabia que era uma ideia idiota. É que não tinha certeza se você estaria no jantar e quis te ver antes.

Neymar: Bem e para que? – perguntou com a testa franzida como se quisesse confirmar de que eu realmente estava bem.

Juliana: Só para ver você. – ele ficou parado e me olhou nos olhos, admirado.

Neymar: você só queria me ver?

Juliana: não fique tão chocado, amigos geralmente passam tempo juntos.

Neymar: Ah, você está chateada comigo porque estou cheio de compromissos essa semana né? Não era minha intenção deixar nossa amizade de lado, desculpa.

Juliana: Não to brava. Só estava me explicando, mas você parece ocupado, volte aos compromissos, a gente se vê quando estiver livre.

 Neymar: Na verdade você se importa se eu ficar mais um pouco? Tá rolando uma reunião de orçamentos lá no escritório e odeio esse tipo de coisa. - Sem esperar minha resposta ele me arrastou pro sofá mais próximo, embaixo de uma janela. Deixei escapar uma risadinha enquanto nos sentávamos. O que é tão engraçado?
Juliana: Você! É engraçado saber que fica incomodado com o trabalho. 
Neymar: Ah, Ju! Eles só andam em círculos às vezes. No instituto por exemplo, meu pai até consegue alcançar as expectativas, mas é difícil demais fazer os comitês seguirem algumas instruções. Minha mãe fica sempre no pé do meu pai para que ele dê mais dinheiro pra educação, porque acha que quanto mais tiver, menores as chances de surgirem criminosos, e eu concordo com ela. Mas meu pai nunca é forte o bastante pra equilibrar verbas de áreas que poderiam passar muito bem com menos recursos. Fico puto, mas minha opinião às vezes é facilmente desprezada. - O Neymar pôs os cotovelos nos joelhos e apoiou a cabeça nas mãos, parecia cansado. Eu estava vendo um pouco do mundo dele, que ficava além de toda imaginação. Como alguém poderia rejeitar a opinião dele, se o mesmo era o principal contribuinte para toda aquela vida?
Juliana: Sinto muito. Mas veja o lado positivo, você terá mais voz no futuro. - tentei encorajá-lo.
Neymar: Eu sei, digo isso a mim mesmo. Mas porque não mudar as coisas agora quando simplesmente podem?
Juliana: Bem, não fique tão desmotivado. Sua mãe tá no caminho certo, mas educação não vai resolver nada por si só. - Ele levantou a cabeça.
Neymar: O que você quer dizer? - Seu tom era quase de acusação, o que era justo. Ali estava a ideia que ele vinha defendendo e eu a destruí. Tentei temporizar.
Juliana: Bem, comparando a educação que seu âmbito tem, com as de moradores de favelas e periferias, as deles são uma lástima. Acho que incentivar e investir em mais instalações fariam um bem imenso. Mas e o que dizer dos pobres miseráveis? Não é dessa classe que todo mundo diz sair a maioria dos criminosos? A maioria não recebe nenhuma educação. Se resgatassem essas crianças pra receberem um pouco, um pouquinho que fossem, talvez ficariam mais motivados. - Fiz uma pausa e retomei. Além disso... Você já sentiu fome, Neymar? Não aquela fome antes do jantar, mas fome de verdade? Se aqui não tivesse absolutamente nenhuma comida, nada para seu pai e para sua mãe, e você soubesse que podia pegar um pouco das pessoas que comem mais em um dia do que você vai comer a vida inteira... O que faria se sua família estivesse contando com você? O que faria por alguém que ama?
Neymar: Juliana, não estou negando que a vida de algumas pessoas seja dura, mas roubar é...
Juliana: Feche os olhos, Neymar.
Neymar: o que?
Juliana: Feche os olhos. - Ele fez uma cara feia, mas obedeceu. Antes de começar, esperei até seus olhos estarem completamente fechados e seu rosto parecer mais leve. Em algum lugar desta mansão está a mulher que será a sua mulher. - notei que sua boca tremeu, esboçando um sorriso de esperança. Talvez você ainda não saiba quem ela é, mas pense nas garotas do concurso. Imagine aquela que mais gosta, imagine "sua gatinha". - A mão dele estava do lado da minha, e seus dedos resvalaram nos meus por um momento. Puxei a mão.
Neymar: Desculpe! - murmurou abrindo os olhos na minha direção.
Juliana: Fechados! - ele deu uma risadinha e voltou à posição de antes. Imagine que essa garota depende de você, e vocês vivem como se essa sua realidade nunca existisse. Como se tivesse caído de paraquedas no meio do país para bater de porta em porta em busca de alguém, e mesmo assim a encontrasse. Ela seria sua escolhida. - o sorriso esperançoso voltou a surgir e se alargou logo depois. Ela precisa que você cuide dela, que a proteja. E se chegasse o dia em que não houvesse absolutamente nada pra comer, a noite em que você não pudesse nem dormir porque o ronco do estômago dela não permitisse...
Neymar: Para! - ele levantou de uma só vez, deu alguns passos pelo corredor e estacou, com o rosto virado na direção oposta de onde eu estava. Fiquei chateada comigo mesma, não sabia que ele ficaria tão perturbado. 
Juliana: desculpe - disse em voz baixa. Ele acenou com a cabeça, mas continuou olhando para a parede. Depois, voltou-se na minha direção. Seus olhos tristes e cheios de dúvidas buscavam os meus.
Neymar: É mesmo assim?
Juliana: o quê?
Neymar: Lá fora... isso acontece? as pessoas sentem fome muitas vezes?
Juliana: Neymar, eu...
Neymar: conta a verdade. - os traços do seu rosto estavam firmes. 
Juliana: sim, acontece. Sei de famílias que abrem mão de seu prato de comida para dar aos filhos ou irmãos menores. Sei de um menino que foi espancado por roubar comida. Às vezes as pessoas cometem loucuras quando estão desesperadas, principalmente crianças.
Neymar: Um menino? Quantos anos?
Juliana: Nove. - disse sentindo calafrios , ainda podia me lembras do corpo quente do Pedrinho, após os golpes. O Neymar esticou o corpo, como se ele mesmo tivesse apanhado.
Neymar: E você? Já passou por isso? - baixei a cabeça, o que já era uma pista sobre os tempos difíceis lá em casa, mas não queria falar disso com ele. Como?
Juliana: falar disso só vai te deixar irritado. 
Neymar: Provavelmente. - disse com ar sério. Mas agora percebo o quanto desconheço a verdadeira realidade das minhas próprias crianças. Não vim de berço de ouro, claro, todos sabem disse. Mas minha situação de antes, não é nada comparada à isso que você me contou. - suspirei. Não queria vê-lo irritado, precisava mudar o rumo da conversa, deixá-la positiva.
Juliana: Apesar de toda a realidade, sei que os cheques que recebemos nas últimas semanas ajudaram muito. Minha família sabe muito bem lidar com dinheiro, tenho certeza que a situação de saúde da minha mãe já está encaminhada. Você tem feito muito por nós, Neymar. - tentei sorrir pra ele, mas sua expressão continuou a mesma.
Neymar: Caraca, quando disse que tava aqui só pela comida, então não tava brincando. - balançou a cabeça.
Juliana: É sério Neymar, eu tô bem. Eu... - não consegui terminar a frase, ele se inclinou e beijou minha testa.
Neymar: Vejo você no jantar.












Oi meninas! Capítulo anãozinho, só para amenizar o tempinho que fiquei sem postar. Fiquei sem internet aqui em casa por uns dias, então não deu pra atualizar o blog. Peço desculpas desde já!!! Obrigada por todos os comentários e incentivos dados à história, fico extremamente feliz que estejam gostando da adaptação o/
Sobre o problema de não conseguirem comentar em anônimo, eu já resolvi, mas se alguém ainda não estiver conseguindo, me avise que a gente tenta resolver. Já estou adiantando o próximo capítulo, mas resolvi liberar esse pedacinho logo porque estou na correria de semanas de prova e não vou confiar no meu (inexistente) tempo e acabar deixando vocês na mão. Continuem por aqui com a Ju nessa seleção, tenho certeza que ela adora o apoio de vocês, beijinhos!