"Às vezes uns pensamentos me diziam que não, mas na hora seu sorriso me dizia sim"
Permaneci imóvel por uns instantes, ouvindo o som da respiração do Neymar. Estava cada vez mais difícil encontrá-lo em um momento calmo, aproveitei aquele momento ao máximo, agradecendo por ele estar, aparentemente, em sua melhor forma enquanto estávamos a sós. Desde que a Seleção conta agora com apenas seis garotas, ele está mais ansioso que no começo, quando as trinta e cinco chegaram de uma vez. Imaginei que talvez ele tivesse pensado que teria mais tempo para fazer suas escolhas. E devo reconhecer, apesar de me sentir culpada, que era por minha causa que ele tinha esse desejo. Neymar Júnior, craque de Barcelona e do Brasil, gostava de mim. Ele me falou na semana passada que se eu dissesse, sem nenhuma ressalva, que me importava com ele assim como ele se preocupava comigo, toda essa história de competição estaria acabada. Eu até considerava essa ideia, ficava imaginando como seria pertencer a ele. Mas o problema é: Neymar não me pertencia, pra começo de conversa. Havia mais outras cinco meninas comigo – meninas com quem ele saía e cochichava coisas – e eu não sabia o que pensar disso. E também havia o fato de que aceitar o Neymar significava ter que aceitar toda essa vida, uma ideia que eu tendia a ignorar, até por não saber ao certo como isso me afetaria...
Neymar: Sabe quando foi a última vez que olhei de verdade pras estrelas? - Estávamos deitados sobre uma toalha no terraço. Aconcheguei-me mais pro lado dele, tentando me manter aquecida na noite fria de Barça.
Juliana: Não faço ideia.
Neymar: O Davi disse que gostava, então li sobre astronomia há alguns meses. Quando vemos as estrelas mais de perto, percebemos que na verdade elas têm cores diferentes.
Juliana: Calma lá, a última vez que você olhou pras estrelas foi pra estudá-las? E a diversão? - ele riu.
Neymar: Diversão... vou ter treinos intensivos e um grande campeonato pela frente, ah e ainda tem as reuniões orçamentais, coisa que eu sou péssimo!
Juliana: E no que mais você é péssimo?
Neymar: Por que quer saber isso?
Juliana: Porque ainda sei pouco sobre você. E você parece ser bom em tudo, seria ótimo ter uma prova do contrário.
Neymar: Você sabe que não sou.
Juliana: Mas tá quase lá. - Nossos corpos se tocavam de leve. Joelhos, braços, dedos. Ele balançou a cabeça com um sorriso nos lábios.
Neymar: Ok, ok. Não consigo planejar coisas, sou péssimo nisso! E acho que seria um cozinheiro horrível. Nunca cozinhei, logo...
Juliana: Nunca?
Neymar: Talvez você já tenha notado a multidão de pessoas que trabalham para manter a sua barriga cheia de bolos e doces... Por acaso, são eles que me alimentam também. - Achei graça. Em casa, eu ajudava a preparar praticamente todas as refeições.
Juliana: Mais. No que mais você é ruim? - Ele me abraçou forte, e pude ver um segredo brilhar em seus olhos.
Neymar: Descobri uma coisa recentemente...
Juliana: Conte.
Neymar: Descobri que sou um completo fracasso em ficar longe de você. Um problema muito grave, aliás. - Sorri.
Juliana: Você já tentou? - ele fingiu pensar.
Neymar: Bem, não. E não espere que eu vá começar. - Rimos baixo, abraçados. Era tão fácil, nesses momentos, me imaginar assim pelo resto da vida. O barulho de passos anunciava a chegada de alguém. Embora nossa situação fosse completamente aceitável, fiquei um pouco encabulada e me sentei rapidamente. Ele fez o mesmo assim que o Jota contornou a cerca pra chegar até nós.
Jota: Desculpa atrapalhar, mas tem um fotógrafo no condomínio, se não quiserem invasão de privacidade, é melhor entrarem.
Neymar: Tudo bem, pelo contrato eles podem ficar aqui pelo condomínio né? - suspirou. Valeu Jota, já vamos entrar. - assenti pro Jota em agradecimento e ele saiu. Outro defeito meu: estou perdendo a paciência com essas invasões!
Neymar se levantou e me ofereceu a mão. Levantei também e reparei na frustração em seus olhos. Desde o começo da seleção fui incluída nesse mundo dele, provei um pouco de como é essa vida. Mesmo com minha experiência mínima, eu podia compreender seu cansaço. Ele recolheu a toalha e começou a sacudi-la. Era claro que ele não estava feliz com aquele fim antecipado da noite.
Juliana: Ei - o fiz me olhar. Eu me diverti. - Ele concordou com a cabeça. É sério - continuei, me aproximando, ele segurou a toalha com uma das mãos e passou o braço livre em volta da minha cintura. Devíamos fazer isso outras vezes. Você podia me dizer quais são as cores de cada estrela, porque eu realmente não consigo ver diferença de uma pra outra. - ele sorriu, triste.
Neymar: Gostaria que as coisas fossem mais fáceis às vezes. Normais. - Virei pra ele e o abracei. A toalha caiu e ele retribuiu o gesto.
Juliana: Odeio ter que lhe contar isso, estrelinha, mas mesmo sem os fotógrafos você está bem longe de ser normal. - Sua expressão ficou mais relaxada, mas ainda séria.
Neymar: Você iria gostar mais de mim se eu fosse normal?
Juliana: Sei que é difícil pra você acreditar, mas eu realmente gosto de você do jeito que você é. Só preciso de mais...
Neymar: Tempo. Eu sei. E tô pronto pra dar o tempo necessário a você. Só gostaria de ter certeza de que você vai mesmo querer estar do meu lado quando esse tempo acabar. - Desviei o olhar. Aquilo eu não podia prometer. Toda hora, eu olhava pro meu coração e me questionava sobre ele, mas ainda não podia.
Juliana: Neymar - sussurrei, após notar que ele estava se sentindo rejeitado por eu não ter respondido. Não posso dizer isso. Mas o que posso dizer é que quero estar com você. Quero saber se há possibilidade de... de... - gaguejei, sem saber ao certo como me expressar.
Neymar: Nós? - Sorri, feliz por ver como tinha sido fácil pra ele me entender.
Juliana: Sim. Quero saber se há a possibilidade de existir um “nós”. - Ele ajeitou meus cabelos pra trás dos ombros.
Neymar: Penso que as chances são bem altas.
Juliana: Também penso. Só... tempo, tudo bem? - ele assentiu. Parecia mais feliz, era assim que eu queria terminar nossa noite, com esperança. Bem, talvez com algo mais. Mordi os lábios e me virei pra ele com olhos desejosos. Sem hesitar nem um segundo, ele se inclinou e me beijou. Foi um gostoso, doce devido a maciez de sua boca. Ele encerrou me selando e eu parecia flutuar.
Neymar: Vamos - disse em tom de brincadeira, enquanto me puxava pra dentro da mansão. Assim que Neymar me deixou nas escadas, o cansaço tomou conta de mim. Eu praticamente me arrastava até o segundo andar e quando cheguei no meu quarto, ó fiz trocar de roupa e capotar.
-
Nadine: Não, não - riu. Tive apenas uma madrinha, apesar de a mãe do Neymar ter sugerido que eu tivesse mais. Só queria minha melhor amiga. Estiquei o pescoço pra olhar pra Marlee e fiquei feliz de ver que ela também me olhava. Antes de chegar na mansão, eu tinha pra mim que em uma competição com um prêmio tão grande não haveria como alguma das meninas ser simpática. Marlee me acolheu logo que nos conhecemos, desde então, sempre estamos juntas. Nunca brigamos, a não ser aquelas nossas pequenas discussões. Semanas atrás, quando ela comentou que talvez não quisesse ficar com o Neymar, e eu a pressionei pra explicar melhor aquilo, ela se fechou totalmente. Não estava brava comigo, isso eu sabia, mas aqueles dias de silêncio me deixaram bem solitária.
Kriss: Quero quatro madrinhas. Quer dizer, se Neymar me escolher e tiver um super casamento.
Celeste: Bom, eu não quero madrinhas. Elas só servem pra desviar a atenção dos outros. E como tudo vai ser televisionado, quero todos os olhares voltados pra mim. - Aquilo me subiu o sangue. Eram raras as vezes que conseguíamos conversar direito com a Nadine e lá estava Celeste: a praga que arruinava o momento.
Elisa: Eu gostaria de incorporar algumas tradições da minha família ao casamento. As garotas usam vermelho na cerimônia, e o noivo precisa levar presentes pros amigos da noiva como agradecimento por deixarem ela se casar com ele.
Kriss: Me lembre de ir no seu casamento. Adoro presentes! - riu
Marlee: Eu também!
Nadine: Juliana? Você está tão calada... O que quer pra seu casamento? - Eu tava completamente despreparada pra responder, minhas bochechas coraram. Nunca tinha pensando muito em nenhum tipo de casamento na vida, a não ser na felicidade de um como o dos meus pais.
Juliana: Bem, só pensei no momento em que meu pai me entrega ao noivo. Sabe, quando ele toma sua mão e põe na mão do seu futuro marido? É a única parte na qual eu sempre quis passar de verdade. - Por mais embaraçoso que aquilo pudesse parecer, era a verdade.
Celeste: Mas todo mundo faz isso, não é nem original. - reclamou. Deveria ter ficado com raiva depois dessa provocação, mas dei de ombros.
Juliana: Quero ter certeza de que meu pai aprova totalmente a minha escolha no único momento realmente importante da minha vida.
Natalie: Que bonito! - Comentou tomando seu chá e olhando distraída pela janela. Dona Nadine soltou uma leve risada.
Nadine: Tenho certeza de que aprovará. Não importa quem seja. - Essa última frase foi dita repentinamente, como se ela tivesse percebido no meio da fala a sua sugestão de que Neymar seria o escolhido. Fiquei pensando se ela achava isso, se ele contava a ela sobre nós. Logo depois, o assunto do casamento morreu, e ela nos deixou pra fazer uns trabalhos. Celeste estacionou em frente àquele televisor enorme e as outras garotas começaram a jogar cartas.
Marlee: Foi divertido, acho que nunca tinha visto ela falar tanto, pelo menos comigo.
Juliana: Acho que ela está começando a se empolgar. - Eu não tinha comentado com ninguém o que a amiga da Nadine aquele dia, ela tinha previsto que a mesma seria mais carinhosa conosco assim que o grupo diminuísse, e acertou.
Marlee: Agora, você tem que me contar: você não tem mesmo nenhum outro plano para o seu casamento ou apenas não queria revelar?
Juliana: Não tenho mesmo. É difícil pra mim planejar um casamento tão grande, sabe? - Marlee balançou a cabeça.
Marlee: Chega de estresse, você não precisa se preocupar com isso ainda. - fomos interrompidas pelo berro da escandalosa.
Celeste: Vai! - gritou, batendo o controle remoto no sofá antes de apontá-lo pra a TV de novo. Argh!
Juliana: É impressão minha ou ela está piorando? - cochichei com Marlee. Observamos Celeste bater no controle remoto diversas vezes até desistir e mudar de canal manualmente. Comecei a achar que, se eu tivesse nascido no mundo dela, aí sim teria com que me preocupar.
Marlee: Acho que é estresse. Você notou como Natalie tem estado, sei lá... mais distante? - Fiz que sim com a cabeça, e olhamos para as três meninas jogando cartas. Kriss sorria ao embaralhar as cartas, enquanto Natalie examinava as pontas de seu cabelo e de vez em quando arrancava um fio. Ela tinha um ar distraído.
Juliana: Acho que todas nós estamos sentindo isso. Ficou mais difícil relaxar e curtir a mansão agora que o grupo é tão pequeno. - Celeste resmungou algo e nos viramos para olhá-la, mas logo voltamos à posição inicial quando ela nos pegou espiando.
Marlee: Licença, Ju. Vou no banheiro.
Juliana: Pensei na mesma coisa, tava segurando a um tempinho. Vamos? - Com um sorriso, ela balançou a cabeça pra negar.
Marlee: Vai na frente, vou terminar o chá primeiro.
Juliana: Tudo bem. Já volto. - Saí do salão das garotas, caminhando devagar por aquele corredor enorme. Eu duvidava que algum dia chegaria a me acostumar com o espetáculo que era aquela mansão. Estava tão distraída que trombei com alguém, era o Gil.
Juliana: Ops!
Gil: Desculpa, Juliana, tava distraído - riu
Juliana: Não - ri. Tá tudo bem. Eu devia olhar melhor por onde ando. - Me desculpei e segui pro banheiro. Voltei, contei a Marlee sobre a minha trombada vergonhosa com o Gil e ela soltou uma gargalhada. Passamos o resto da tarde sentadas perto das janelas, conversando sobre as nossas casas e as outras garotas. Era triste pensar no futuro. Cedo ou tarde, a Seleção chegaria ao fim, e embora eu soubesse que Marlee e eu continuaríamos próximas, sentiria falta de conversar com ela todos os dias. Ela foi a primeira amiga de verdade que fiz na vida e gostaria de tê-la sempre ao meu lado. Enquanto eu tentava curtir aquele momento, Marlee olhava pela janela com um ar sonhador. Tentei imaginar no que ela estaria pensando, mas estava tudo tão sereno que não quis perguntar.
As portas da minha sacada estavam abertas,
assim como a que dava pro corredor, de modo que meu quarto se enchia
da brisa que vinha dos jardins. Eu queria que aquele vento suave fosse
um consolo pro enorme trabalho que eu tinha a fazer, mas, em vez
disso, ele foi uma distração, porque me deixou com vontade de estar em
qualquer outro lugar que não na frente da escrivaninha. Suspirei e me larguei na cadeira, jogando a cabeça para trás.
Juliana: Lucy? Lucy: Oi, Ju. - Peço que descubra o significado deste relatório - estendi preguiçosamente o braço na direção daquelas estatísticas sobre a mesa. Era um teste pra todas as meninas da Elite, mas eu não conseguia me concentrar. Lucy riu, provavelmente tanto por causa do meu pedido ridículo quanto pelo fato de eu ter finalmente pedido algo. Sinto muito, Ju, mas isso ultrapassa meus limites - respondeu rindo. Apesar do meu pedido ter sido de brincadeira, assim como a resposta dela, notei um verdadeiro tom de desculpas em sua voz.
Juliana: Tudo bem, vou ter mesmo que fazer isso sozinha. Você é uma inutilzinha, amanhã vou pedir uma ajudante nova, desta vez é sério! - Ela caiu na gargalhada mais uma vez, e eu voltei a focar nos números. Comecei a desconfiar de que aquele relatório era falso, mas não tinha certeza. Reli os parágrafos e tabelas franzindo a testa e mordendo a tampa da caneta enquanto tentava me concentrar. Ouvi Lucy rir baixo e levantei os olhos pra ver o que a divertia. Segui seu olhar até a porta: lá estava Neymar , encostado no batente.
Neymar: Você me entregou! - ele reclamou com Lucy, que ainda ria. Afastei a cadeira com pressa e corri pros braços dele.
Juliana: Você leu meus pensamentos!
Neymar: Li?
Juliana: Por favor, diz que a gente vai sair... Só um pouquinho? - ele sorriu.
Neymar: Tenho vinte minutos e depois tenho que voltar. - O arrastei pelo corredor. Não tinha como negar que os jardins tinham se tornado o nosso cantinho. Íamos para lá quase sempre que podíamos estar a sós. O que é isso? - perguntou acariciando as pontas dos meus dedos enquanto a gente caminhava.
Juliana: Calos. São de apertar as cordas do violão e das faxinas também.
Neymar: Nunca tinha reparado nisso.
Juliana: Eles são um problema pra você? - Dentre as seis garotas restantes, eu era a de condição mais baixa pelas entrevistas e duvidava que qualquer uma das outras tivesse mãos como as minhas. Ele levou minha mão até sua boca pra beijar as pontas pequenas e ásperas dos meus dedos.
Neymar: Pelo contrário, acho bonito. - Senti minhas bochechas corarem. Eu vi muito pelo mundo. Admito que agora melhor que antes, mas vi. E tenho à disposição a resposta pra milhares de perguntas. Mas esta mãozinha aqui? - olhou nos meus olhos. Esta mão produz sons que não se comparam a nada que eu já tenha ouvido. Às vezes, penso que a visão de você tocando violão foi apenas um sonho. Aquilo foi tão lindo. E os calos são a prova de que foi real. - Havia momentos em que ele falava comigo de uma maneira impressionante, romântica demais pra acreditar. E apesar de eu guardar aquelas palavras pra mim, nunca tinha certeza se podia confiar plenamente nelas. Como saber se ele não dizia o mesmo para as outras? Era hora de mudar de assunto.
Juliana: Você tem respostas pra milhares de perguntas, mesmo?
Neymar: Com certeza, pode perguntar. - riu
Juliana: Qualquer coisa?
Neymar: Qualquer coisa? - Pensei por uns instantes nas coisas que me deixavam mais curiosa na infância: por que os aviões voavam, como eram os Estados Unidos, como funcionavam os aparelhos de som que as pessoas criavam.
Juliana: O que é “Halloween”?
Neymar: Halloween? - ele começou a rir e eu fui juntinho. A verdade é que todos sabíamos das festas e do dia, mas o significado nunca teve importância pra mim, até agora.
Juliana: A estrelinha não parece tão seguro de si agora... - provoquei. - Ele me olhou com uma cara feia, mas estava claro que apenas fingia.
Neymar: Vem, a gente tem que andar logo - agarrou meu braço e começar a correr. Tropecei um pouco, mas não fiz feio e mantive o passo enquanto ele me levava de volta a mansão com um sorriso de orelha a orelha. Eu adorava quando ele liberava seu lado mais descontraído; muitas vezes, ele parecia sério demais. Consegui chegar até a metade da sala, e então meus pés me venceram.
Juliana: Neymar, para, para! - arfei. Eu não aguento mais!
Neymar: anda lesminha, você vai gostar! - Ele acabou desacelerando um pouco pra me acompanhar, mas era claro que estava louco para ir mais rápido. Seguimos em direção ao corredor, próximo da área onde filmavam uns vídeos pro programa, mas nos embrenhamos por uma escadaria antes de chegarmos até lá. Subimos e subimos, e eu já não conseguia conter minha curiosidade.
Juliana: Aonde vamos exatamente? - ele não me respondeu e logo chegamos, ele abriu a porta pra mim, e me conduziu pelo corredor até pararmos em frente a uma parede quase totalmente coberta com pinturas. Em seguida, passou a mão pela moldura do último quadro. Ouvi um clique e o quadro se abriu, meu queixo caiu. o Neymar só sorria. Por trás da pintura havia uma porta um pouco acima do nível do chão que possuía um pequeno teclado numérico, como de um telefone. Ele digitou uns números e ouvimos um leve bip, girou a maçaneta e olhou pra mim. Entrei primeiro e fiquei chocada. Aquele lugar era tipo uma espécie de refúgio, um cantinho dele. Meu coração se encheu de ternura ao saber que ele confiava em mim pra me levar ali. Tudo tinha seu jeito na decoração, mas por incrível que pareça, ali também tinha livros. A estrelinha do futebol gostava de ler hahaha. Olhei alguns livros, folheei as páginas. Dei meia-volta e ele tava digitando alguma coisa no computador.
Juliana: Tá fazendo o que?
Neymar: Pesquisando sobre o Halloween, você me provocou gatinha. - ri . O primeiro site definia o Halloween como uma festa celta para marcar o fim do verão. Pra não nos atrasar, nem me preocupei em mencionar que não fazia ideia do que era um celta. O site dizia que eles acreditavam que os espíritos entravam e saíam do mundo no Halloween, e as pessoas usavam máscaras pra afastar os espíritos maus. Mais tarde, ele teria se transformado num feriado laico, mais voltado pras crianças. Elas vestiam fantasias e circulavam pela cidade cantando a fim de ganhar doces. Daí surgiu a frase “gostosuras ou travessuras”, já que se não ganhassem gostosuras pregariam uma peça no dono da casa. A definição do segundo site era similar, só que mencionava abóboras e cristianismo. Fiquei feliz de ao menos saber essa coisa boba, mas fiquei mais feliz ainda por ele se importar com isso. Ele agora compartilhava comigo um espaço que era seu, não estava invadindo, não estava pedindo, eu era convidada ali. Ficamos conversando mais alguns minutos e ele teve que ir cuidar de seus compromissos. Passei o resto do dia na missão de ensinar Marlee a tocar violão, mas admito que o negócio não tava muito fácil.
Marlee: AAA! Sou um caso perdido!
Juliana: Não, não é. Você está indo bem - menti. Fazia mais de uma semana que eu tava tentando e realmente parecia que ela só piorava. A gente ainda não tinha passado da introdução! E quando ela tocou outra nota errada, não pude disfarçar minha careta.
Marlee: Ah, olha a sua cara! Sou péssima. Não faria diferença se eu tocasse com os cotovelos.
Juliana: Talvez devêssemos tentar. Quem sabe seus cotovelos não são mais precisos? - segurei a risada e ela suspirou.
Marlee: Desisto! Desculpa, Juliana, você tem sido tão paciente, mas eu não suporto me ouvir tocando. Soa como se o violão estivesse doente.
Juliana: Morrendo, eu diria. - Marlee caiu na gargalhada e eu fui no embalo. Quando aceitei o pedido dela, nem desconfiei que submeteria meus ouvidos a uma tortura tão dolorosa e hilária. Talvez você se saia melhor com outros instrumentos que tem por aqui - sugeri.
Marlee: Acho que não. Do jeito que sou azarada, acabaria destruindo eles. - ela levantou e caminhou em direção à mesinha onde os papéis que eu deveria ler estavam jogados de canto, ao lado de uma bandeja com biscoitos e suco que Lucy deixou para nós.
Juliana: Ah, tudo bem. São daqui da mansão mesmo. Você pode jogar na cabeça de Celeste se quiser.
Marlee: Não me tente - colocou suco pra gente. Vou sentir sua falta, Juliana. Não sei o que vou fazer quando não nos virmos mais todos os dias.
Juliana: Bem, Neymar é muito indeciso, então acho que você não precisa ficar preocupada com isso agora.
Marlee: Não sei. Ele ainda não me falou com todas as letras, mas sei que só estou aqui porque o público gosta de mim. Com a maioria das garotas fora, não vai demorar para as pessoas mudarem de opinião. E então ele vai me dispensar. - Escolhi com cuidado as palavras, porque queria que Marlee me explicasse por que via uma distância tão grande entre eles sem que ela se comparasse a mim.
Juliana: E pra você tudo bem? Quer dizer, ficar sem ele? - Ela deu de ombros.
Marlee: Ele não é a pessoa certa. Não me importo de sair da competição, mas também não quero partir. Além disso, não gostaria de acabar com um homem que é apaixonado por outra. - Quase caí dura.
Juliana: Mas quem ele... - Os olhos de Marlee brilhavam triunfantes. Seu sorriso por trás do copo dizia “peguei você”. E ela tinha me pegado mesmo. Por uma fração de segundo, me dei conta de que a ideia do Neymar se apaixonar por outra me deixava com um ciúme insuportável. E o instante seguinte, quando compreendi o que Marlee queria dizer, foi reconfortante. Eu tinha construído vários obstáculos entre mim e ele: caçoava dele e elogiava as outras garotas. Mas com uma única frase, Marlee passou por cima de tudo isso.
Marlee: Por que você ainda não acabou com isso, Juliana? Você sabe que ele te ama.
Juliana: Ele nunca disse isso.
Marlee: Claro que não - afirmou como se fosse óbvio. Ele faz tanto esforço pra te conquistar, mas sempre que chega perto, você o afasta. Por quê?
Juliana: É que... não tenho certeza, acho... - Marlee fez um sinal de positivo com a cabeça. Ela parecia saber que havia mais coisas por trás de minha resposta, mas mesmo assim não me pressionou, isso me reconfortou. Não queria começar a falar de todas as minhas inseguranças e indecisões quanto à isso.
Marlee: Dê um jeito de ter certeza. Rápido! Não é porque Neymar não me atrai que ele não seja um bom rapaz. E eu odiaria vê-la perdendo-o por medo. - Mais uma vez ela estava certa. Eu tinha medo. Medo de que os sentimentos do Neymar não fossem tão autênticos como pareciam; medo das implicações de ser mulher de alguém tão reconhecido, medo de perder a mim mesma. Outra coisa, toda aquela conversa sobre casamento ontem me fez pensar em algo.
Juliana: Sim?
Marlee: Você gostaria de, tipo, ser minha madrinha? Se eu casar algum dia...
Juliana: Ah, Marlee, claro que sim! E você seria a minha?
Marlee: Claro! Não perderia seu casamento por nada no mundo - o tom de sua voz sugeria que meu casamento seria o evento do século.
Juliana: Me prometa que você estará lá mesmo se eu casar com um mendigo em um beco qualquer.
Marlee: Prometo, mesmo se isso acontecer. - abracei Marlee e isso com certeza selou nosso compromisso uma com a outra.
À noite, fiquei esperando que pudesse passar algum tempo com o Neymar, Marlee me fez questionar várias das minhas ações, ideias e sentimentos. Depois do jantar, quando levantei pra sair da sala, olhei pra ele e cutuquei minha orelha. Ele fez uma cara de frustração e moveu os lábios, dizendo a palavra “trabalho”. De brincadeira, lancei um olhar de raiva e assenti com a a cabeça antes de voltar pro meu quarto. Talvez tenha sido melhor assim. Eu precisava mesmo pensar em algumas coisas sobre ele. Foi o que fiz, deitei e de uma coisa eu sabia, precisava me decidir. Mas como decidir entre duas boas opções? Voltar pro meu aconchego sem o risco de sofrer ou me arriscar e entrar de cabeça nessa nova experiência? Como decidir se qualquer escolha deixaria parte de mim destruída? Me consolei com o pensamento de que ainda tinha tempo. Eu ainda tinha tempo.
Oi queridinhas! Gente, a história pode parecer louca, os assuntos podem parecer aleatórios, mas não desistam de mim, prometo que vocês vão gostar do decorrer da fic! Obrigada por cada comentário, leio e considero tudo. Beijinhos e até ♥

