"Precisava de um ombro amigo, nesse momento percebi que ninguém se encaixava tão bem quanto Jota"
Tanto meus machucados quanto os de Celeste eram mínimos, prova disso é termos voltado pros nossos quartos logo. Houve um intervalo entre nossas altas pra não sairmos juntas. Assim que dobrei o corredor, vi o Jota caminhar até mim. Mesmo não convivendo a vida toda com ele, já começava a sentir um grande carinho. Sempre foi sincero comigo, se tudo desse errado, é com ele que eu podia contar.
Jota: Como você tá?
Juliana: To bem, não foi nada demais.
Jota: Vou passar lá no seu quarto depois, pode ser?
Juliana: Pode sim. - acenei com a cabeça pra ele e resolvi seguir. A porta tava encostada, fiquei aliviada de ver que Lucy não tava. Fui até o meu jarrinho sobre o criado-mudo e reparei que o mesmo tinha companhia. Abri a tampa e peguei a folha de papel dobrada. Que esperteza dele: Lucy nunca notaria. E se notasse, não invadiria minha privacidade. Abri o bilhete e li uma série de instruções muito claras. Parecia que Jota e eu tínhamos um encontro naquela noite. As instruções dadas por ele eram complicadas, tomei um puta caminho indireto para chegar no primeiro andar, onde deveria procurar pela porta próxima a um vaso de um metro e meio de altura. Lembrei de ter visto nas minhas andanças pela mansão. Que tipo de flor precisava de um vaso tão grande? Frescura, claro! Encontrei a porta e olhei pros lados pra garantir que não tinha ninguém por perto. Nunca tinha conseguido me ver totalmente livre dos olhos dos seguranças, nem unzinho à vista. Abri a porta devagar e entrei na ponta dos pés. O brilho da lua atravessava a janela e essa pouca iluminação me deixava um tanto nervosa.
Juliana: Jota? - Sussurrei no escuro, um pouco de cagaço, talvez muito, mas me sentindo meio boba ao mesmo tempo.
Jota: Aqui, Jú - respondeu, embora eu não tivesse a mínima ideia de onde ele estava.
Juliana: Cadê você? - A sombra das cortinas da janela balançou à luz da lua, e ele surgiu por detrás delas.
Juliana: Menino, Você me assustou - reclamei, de brincadeira.
Jota: Não foi a primeira vez, nem será a última - não vi, mas pela sua voz sabia que ele tava sorrindo. Fui até ele, não sem tropeçar em todos os obstáculos daquele cômodo. Shhh! - reclamou, mas eu sabia que era brincadeira. A mansão inteira vai saber que estamos aqui se você continuar arrastando as coisas desse jeito.
Juliana: Desculpa - ri baixo. Por que a gente não ascende a luz?
Jota: Tá doida? Se alguém nota o brilho debaixo do vão da porta, tamo fodido. Não tem paz nessa casa até o fim do concurso, sempre vai haver um fotógrafo pra gravar cada segundo. Essa sala não é muito vigiada, mas não quero vacilar. - Estendi a mão pra tentar encontrá-lo. Consegui tocar seu braço e ele me puxou pra me dar um abraço, depois caminhamos pro fundo da sala.
Juliana: Como você sabia desse lugar? Já andou trazendo outras concorrentes pra cá, garoto?
Jota: Quem sabe? Rapaz, boa ideia, Celeste ia adorar - falou prendendo o riso e eu instantaneamente meti o tapa no braço dele. Aiii! - alisou o local onde bati, rindo.
Juliana: Palhaço! - acabei rindo também.
Jota: Mas pateta, eu moro com o Juninho, como não ia saber? Conheço tudo na mansão, tanto por fora como por dentro. Se um dia você quiser espionar, conhecer por aí, eu sou o cara pra te ajudar.
Juliana: Uau! - Nos sentamos atrás do grande encosto de um sofá, o chão estava coberto pela luz da lua. Por fim, vi o rosto do Jota. Tem certeza de que isso é seguro? - Se ele hesitasse por um segundo, eu sairia correndo imediatamente, pro bem de ambos.
Jota: Confia em mim, Jú. - Minha preocupação persistiu mesmo assim, só que precisava tanto de conforto, que decidi seguir com aquilo. Ele me envolveu num abraço e me puxou para si, fiquei um tanto surpresa, mas era disso que precisava. Como vão as coisas?
Juliana: Tudo bem, eu acho. Muita tristeza, muita raiva. Meu maior desejo é apagar os últimos dois dias e trazer Marlee pra cá de volta. Gil também, embora nem o conhecesse direito.
Jota: Já eu, o conheço muito bem. - respirou fundo. O Gil é um cara do bem, sempre foi parceiro. A real é que depois que esse programa começou, tudo mudou. Nada parece normal, tudo pode dar problema, parece que viramos robôs. Tive certeza disso, depois desse episódio com Marlee. Xingar a menina por ela não gostar de um cara é bizarro! Mas pude ver que Gil gosta mesmo, vi ele dando apoio pra ela o tempo todo.
Juliana: É verdade, eu também vi, pelo menos no começo. Fui tirada de lá antes de terminar.
Jota: To orgulhoso de você por não ter saído de lá sem brigar. Mostrou que tem juízo em não concordar com tudo aquilo.
Juliana: Meu pai também tava orgulhoso. A dona Nadine disse que eu não devia agir daquele jeito, mas que estava feliz por mim. Confuso. Como se quase tivesse sido uma boa ideia, mas não. E, no final, não mudou nada.
Jota: Foi uma boa ideia. Significou muito, pelo menos pra mim.
Juliana: Pra você? - Ele respirou fundo, mais uma vez.
Jota: Você é especial, acima de tudo isso aqui é uma amiga que quero levar independente. Seu jeito que me faz sentir isso, então de vez em quando fico pensando sobre como a Seleção fez você mudar. Você tá rodeada de cuidados, e tudo é tão maravilhoso. Me pergunto se você é a mesma Juliana, carioca da gema que não deixa o poder, a fama ou dinheiro lhe subirem a cabeça. Sua atitude me mostrou que você é, que eles ainda não te ganharam.
Juliana: Ah, eles já me ganharam, mas não a esse ponto. Na maior parte do tempo, esse lugar me lembra de que não nasci para isso.
Jota: Escuta Ju, em relação ao Juninho, acho que nem preciso te dizer. Apesar de tudo que dizem e do que aparentam, ele é só uma pessoa normal, e tem problemas como todo mundo. Sei que você se preocupa com ele, ou não estaria mais aqui. Só que você precisa saber que isso tudo - frisou em aspas - não é real. - Concordei com a cabeça. O Neymar e toda aquela conversa de manter a calma. Era isso que fazia sempre? Será que atuava quando a gente estava juntos? Como eu ia saber? É melhor você saber agora. E se você descobrisse depois do casamento que as coisas são assim?
Juliana: Eu sei. Andei pensando nisso. - As palavras dele na pista de dança se repetiam muitas vezes na minha cabeça. Ele parecia tão certo sobre nosso futuro, preparado para me dar tanto... Eu realmente tinha acreditado que tudo o que ele queria era a minha felicidade. Será que ele não reparava como eu estava infeliz?
Jota: Você tem um coração grande, Ju. Eu sei que você não consegue simplesmente deixar as coisas pra trás. Mas não há nada de errado em desejar. É isso.
Juliana: To me sentindo tão idiota
Jota: Você não é idiota.
Juliana: Sou sim.
Jota: Você me acha inteligente?
Juliana: Claro.
Jota: É porque eu sou. Na verdade, sou inteligente demais, pra gostar de uma menina idiota. Então trate de parar com isso agora! - Ri baixo e deixei ele me abraçar. Era estranho ouvir da boca dele o que eu já imaginava desde que li seu bilhete pra vir até aqui.
Juliana: Não entendo como você pode gostar de mim no meio disso tudo. - Ele deu de ombros.
Jota: As coisas são assim. O céu é azul, o sol é quente, e Jota se apaixonou pela candidata do amigo... O mundo foi feito pra ser assim. De verdade, Ju , você é a única garota que desejei de verdade nesse concurso, e eu sei que é errado, mas não posso imaginá-la com outra pessoa, mesmo que essa seja meu irmão, meu melhor amigo. Tô tentando me preparar pra isso, e... até agora não consegui. - Passamos uns instantes ali, sentados. As carícias dos dedos dedos dele hora ou outra, eram um friozinho na barriga a mais pra mim. Não podemos ficar muito tempo mais aqui. Confio muito na minha habilidade, mas não quero forçar. Comecei a me levantar e ele deu um salto e me puxou para cima, emendando um abraço, o último. Me desculpe pelo Juninho, por ter se mostrado tão "ruim". Independente de qualquer coisa, não queria te ver magoada.
Juliana: Obrigada.
Jota: É sério.
Juliana: Eu sei. Mas ainda não acabou, não enquanto eu estiver aqui.
Jota: É, to te conhecendo garota - riu. Você vai continuar pra que sua família receba o dinheiro e a gente possa se ver, claro. - gargalhei. Só que acho que o Neymar só teria uma chance se pudesse voltar no tempo. - Respirei fundo. Jota talvez estivesse certo, minha relação com o Neymar se desfazia aos poucos, como um casaco que eu estivesse desabotoando. Não se preocupe, Ju. Vou tomar conta de você.
Ele não tinha como provar suas palavras naquele momento, mas eu acreditei. Ele tinha coração bom, fazia o possível por aqueles que gostava e eu tinha certeza de ser alguém de quem gostava.
Na manhã seguinte, deixei meus pensamentos voarem até Jota enquanto me arrumava, durante o café e mais tarde ao longo das minhas horas no Salão das garotas. Estava alegre até que o barulho de uma pilha de papéis atirada na minha mesa me trouxe de volta à realidade. Levantei a cabeça e vi Celeste, ainda exibindo um lábio inchado. Ela apontou para uma das suas revistas de fofoca e abriu um artigo de duas páginas. Em menos de um segundo, reconheci o rosto de Marlee, mesmo que escondido nas mãos pela vergonha.
Celeste: Acho que você devia ver isso - falou e saiu. Não sabia bem o que ela queria com aquilo, mas estava tão ansiosa para saber qualquer coisa de Marlee que me concentrei no texto.
Dentre inúmeros reality's já apresentados, talvez nenhum tenha explodido tanto a audiência como a seleção. Criada especialmente para possibilitar mais o contato e alegria do nosso craque brasileiro Neymar Júnior, com o público, o concurso ainda gera suspiros pelo desenrolar de um romance entre um homem e uma mulher. Quando Neymar em plena copa foi lesionado, o país inteiro sofreu sua dor. Cada brasileiro sentia a necessidade de mandar uma energia positiva, já que era o mais próximo de um abraço que teria. Com isso, nasceu a seleção. Muito mais que um concurso, ela se mostra uma companheira, onde Neymar pode enxergar nela, pessoas que lhe desejam o bem e torcem por sua felicidade.
No entanto, fomos forçados a questionar a eficácia de tal competição. Embora seja, no fundo, uma ideia romântica, alguns dizem que é injusto forçar o craque a casar-se com uma mulher ' desconhecida'. Por outro lado, ninguém pode negar a prudência e a beleza desse feito se desse certo. Apesar de estarmos tratando de vidas reais e não conto de fadas, a decência ainda é um princípio a se preservar.
Logo, o que podemos dizer ao certo é que o comportamento das mulheres na mansão a essa altura não é senão escandaloso. Marlee Tames, que era uma das candidatas do concurso, foi pega com um dos amigos de Neymar que a despia em um corredor, na segunda-feira, após a festa de Halloween, anunciada como o destaque dos programas sobre a Seleção na TV. A grande festa, no entanto, foi totalmente ofuscada pelo comportamento inconsequente da jovem, o que deixou a mansão ainda mais à flor da pele já na manhã seguinte.
Contudo, pondo de lado as ações injustificáveis de Marlee, as garotas remanescentes na mansão talvez também não sejam boas concorrentes. Uma fonte não identificada contou-nos que algumas moças não se bicam e que raramente se esforçam para cumprir seus deveres. Todos se lembram da exclusão de Anna Gomes no começo de setembro depois de atacar gratuitamente a adorável Celeste, modelo de Brasília. E nossa fonte confirma que esse não foi o único caso em que as competidoras partiram para as vias de fato na mansão, o que força esse jornalista a questionar o grupo de moças escolhidas para o nosso craque Neymar Jr.
Pedimos ao Senhor Neymar Pai que comentasse esses rumores. Em suas palavras: “Algumas garotas vêm de realidades completamente diferentes e não estão familiarizadas com essa vida midiática. Evidentemente, a senhorita Tames não estava preparada para a vida de uma pessoa pública. Esse é o caso de algumas das participantes na atual Seleção, devo reconhecer que já esperávamos isso”.
Embora Natalie e Elisa sejam mais tímidas mediante às câmeras, sempre exibiram o maior dos refinamentos diante do público; a senhorita Elisa principalmente, que é bastante sofisticada. Somos forçados a deduzir que Neymar Pai se refere a Juliana Magaldi, a única jovem de renda mais baixa a ir além do primeiro dia. O desempenho da senhorita Juliana na Seleção tem sido razoável. Ela é suficientemente bela, mas não é bem o que o Brasil espera como primeira dama do craque. De vez em quando, suas entrevistas no programa são divertidas, mas queremos uma vencedora, não uma comediante.
Outra notícia problemática: ouvimos relatos de que ela tentou livrar Marlee de sua punição, ato que, aos olhos desse repórter, faz dela uma cúmplice das atividades traiçoeiras de que Marlee Tames participou, mostrando infidelidade ao nosso Jogador.
Diante de tantos relatos (e com Tames longe do primeiro lugar), permanece a pergunta: quem deve ser a campeã?
Uma rápida pesquisa com leitores confirmou aquilo que suspeitávamos há tempos.
Parabenizamos as senhoritas Celeste e Kriss por seu empate no primeiro lugar da pesquisa. Elisa está em terceiro lugar, com Natalie logo atrás. Bem atrás do quarto lugar, aparece Juliana em quinto e (como esperado) último lugar."
Corri para fora do salão. Era evidente que Celeste não me fizera um favor; ela quis me mostrar meu lugar. Por que eu me incomodava com isso? O pai dele esperava meu fracasso, o público não me queria, e eu tinha certeza de que não poderia ser a vencedora. Subi as escadas rápida e silenciosamente, tentando não chamar a atenção. Não havia como saber quem era a fonte não identificada da mansão.
Lucy: Ju? Pensei que fosse ficar no salão até o almoço.
Juliana: Você poderia sair, por favor?
Lucy: O que aconteceu? - Bufei de raiva, mas tentei não perder a paciência.
Juliana: Preciso ficar só. Por favor. - Ela apenas assentiu e saiu sem dizer uma palavra. Me sentei ao piano. Tentei me distrair até não pensar mais naquilo. Toquei algumas músicas que sabia de cor, mas foi fácil demais. Precisava me concentrar de verdade. Me levantei e revirei a banqueta do piano em busca de algo mais difícil. Folheei várias partituras até dar com a lombada de um livro. Me dediquei nos próximos vinte minutos exclusivamente à um solo. Naquele momento era tudo que eu tinha.
Jota me visitou naquela noite, morri de vontade de contar a ele as novas notas que tinha aprendido, mas me contive porque sei que ele não era obrigado a me aturar falando pelos cotovelos.
Jota: Como vão as coisas?
Juliana: Tudo bem, eu acho. Celeste me mostrou este artigo hoje - comentei, e depois balancei a cabeça. Não sei se quero falar disso, to cansada dela.
Jota: Acho que com Marlee fora, ele vai demorar para dispensar alguém... - Dei de ombros. Sabia que o público tava ansioso por uma eliminação, e o que aconteceu com Marlee foi mais dramático do que o esperado. Ei, vai ficar tudo bem.
Juliana: Eu sei. Só sinto saudades dela. E estou confusa.
Jota: Confusa sobre o quê?
Juliana: Sobre tudo: o que faço aqui, quem sou eu. Pensei que soubesse... Não sei nem explicar direito. - Aquele parecia ser o meu problema. Todos os meus pensamentos estavam embaralhados. Não conseguia organizá-los.
Jota: Você sabe quem é, Jú. Não deixe eles mudarem você. - A voz dele era sincera. Me senti segura por um minuto. Não porque tivesse as respostas, mas porque tinha ele. Se algum dia perdesse de vista quem eu realmente era, ele estaria lá para me conduzir de volta.
Juliana: posso te perguntar uma coisa?- Ele concordou. É meio estranho. Se para ser desse mundo eu não precisasse casar com ninguém, se fosse apenas um cargo que eu pudesse escolher, lidar com a popularidade e tudo isso que estar na mídia produz, você acha que eu seria capaz?
Jota: Desculpa, Jú. Não acho! Você não é fria e calculista como eles.
Juliana: Calculista? Como assim? - Ele respirou fundo.
Jota: Tô em toda parte, Jú. Escuto muita coisa. Você é doce, tem compaixão. Tem coisas que a fama proporciona que não valem à pena.
Juliana: Isso não explica o que você quis dizer com calculista
Jota: Todos os dias o Juninho é apontado, xingado ou coisas do tipo. As pessoas medem seu caráter por cima de boatos, coisas que sequer aconteceram. Ele é incrivelmente agradecido por todo carinho e reconhecimento do seu trabalho. Mas tem coisas que por mais luxo tenha, não valem à pena. Você é maravilhosa, não consigo imaginar você agindo com frieza à troco de mídia. - Fiquei aérea. Concordei! Fiquei uns minutos em silêncio refletindo, minhas atitudes, minhas escolhas, o que eu queria... Jota me abraçou e ficamos assim por um tempo. Ele era incrível demais! Pode parecer tolice, mas queria chorar. Era inevitável, um instinto natural, comparar Jota com Neymar. Mesmo naquele momento, quando o pensamento de ter que escolher entre um ou outro ia tão distante, eu os punha lado a lado.
Para Neymar, parecia ser muito fácil me dar coisas. Ele tinha tudo! Do outro lado, estava Jota me dando preciosos momentos roubados e a impressão era de que ele me dava muito mais. Afastei novamente a vontade de chorar.
Juliana: Não sei como fazer isso agora. Sinto que não sei mais fazer nada. Eu... eu não esqueci você, certo? Você ainda está aqui. - Levei as mãos ao peito. Por um lado para mostrar o significado de minhas palavras a ele; por outro, para aliviar o desejo estranho que estava ali. Ele compreendeu.
Jota: Isso basta para mim.
Tô viva!
