quarta-feira, 22 de março de 2017

Capítulo 14: "Sei que você odeia a Seleção, mas sei que se importa comigo o bastante pra não me abandonar assim."



"Sentia um fardo, estava exausta.  Não sabia mais se queria me submeter aquilo"





Mal consegui dormir. A festa terminou tarde e eu ainda tinha que lidar com meu entusiasmo pelo que estava por vir, ou seja, era impossível. Abracei Vic mais forte, seu calor me confortava. Vou sentir muito a sua falta quando ela for embora, mas pelo menos tinha a perspectiva de tê-la morando aqui comigo em breve. Fiquei imaginando quem seria dispensada. Não me pareceu de bom tom perguntar, tanto que não perguntei. Mas se quisessem mesmo minha opinião, meu palpite seria Natalie. Marlee e Kriss eram as preferidas do público (mais do que eu) e Celeste e Elisa tinham seus contatos, ou melhor "prestígio social". Eu tinha o coração do Neymar. No fim, Natalie não tinha no que se segurar. Me senti mal, porque não tinha nada contra ela. Na verdade, meu desejo era ver Celeste fora. Talvez ele a mandasse para casa, pois sabia o quanto eu não gostava dela, e ele tinha dito que queria me ver à vontade na mansão. Só de lembrar, suspirei. Pensei em tudo o que ele me falou na noite anterior.  Na minha cabeça eu havia criado uma escala, de 1 à 8. Pode parecer idiota, mas me ajudava a localizar minha posição aqui. 1 seria o patamar mais alto, e 8 o mais baixo. Dentre eles eu me considerava uma 5, e Neymar com certeza era 1. Me comparando às outras concorrentes, minha posição era bem baixa. Só os trabalhos de Celeste já a colocava entre 2,3. Enfim, nunca tinha imaginado que isso era possível.   Como eu, Juliana Magaldi - uma 5, uma ninguém – fui me apaixonar por Neymar Júnior, jogador de futebol, o 1? Como isso tinha acontecido comigo, que tinha passado os últimos dois anos me preparando para permanecer no meu 5? Como lidar com a ideia de que Neymar havia escolhido a mim e que eu queria ficar com ele? Lucy bateu na porta e entrou em seguida. Ela sempre tentavam me deixar descansar o máximo que eu pudesse, e depois da festa eu estava mesmo precisando de descanso. Mas em vez de começar a aprontar as coisas, ela se aproximou de Vic pra acordar ela. Rolei na cama para ver o que se passava e dei com um saco de roupas. Outro vestido novo?
 Lucy: Victória, é hora de levantar. - sussurrou. 
  Vic: Não posso dormir mais?
Lucy: Não, temos negócios importantes agora de manhã. Você tem que ir com seus tios imediatamente.
Juliana: Negócios importantes? O que está acontecendo? - Lucy olhou pra mim, balançou a cabeça e foi só. Confusa, mas esperançosa, saí da cama e incentivei Vic a fazer o mesmo. Dei um abraço forte antes de ela ir para o quarto dos meus pais. Agora, já pode me explicar! Por que ela saiu? - Lucy mais uma vez balançou a cabeça. Frustada, bufei de raiva. Ajudaria se eu mandasse você me falar? - Ela me encarou, cheia de solenidade.
Lucy: Desculpa Ju, minhas ordens  vêm de muito mais alto. Você vai ter que esperar. - Fiquei na porta do banheiro, observando os passos dela. As mãos de Lucy tremiam enquanto ela preparava minhas coisas. Mas na verdade isso era o de menos, era o olhar dela que me assustava. Ela costumava estar sempre composta, mesmo nas situações mais medonhas e estressantes, mas hoje se movia como se tivesse dois sacos de areia nas costas, estava curvada de tantas preocupações. A todo instante, fazia uma pausa e esfregava as mãos na testa, como se assim pudesse suavizar a ansiedade em seu rosto. Observei enquanto ela descobria o vestido. Era modesto, simples... e negro. Assim que olhei para o vestido soube que ele só poderia significar uma coisa. Comecei a chorar antes mesmo de saber por quem.
Lucy: Ju? 
Juliana:  Quem morreu? - Ela me puxou e enxugou minhas lágrimas.
Lucy: Ninguém morreu - ela respondeu, mas sua voz não era reconfortante; era rígida. - Agradeça aos céus por isso quando tudo acabar. Ninguém morreu hoje. - Ela não me deu maiores explicações e me mandou direto para o banho.  Quando terminei, Lucy entrou no quarto  com alguns croissant's e pedaços de maçã. Quis me sentar e comer devagar, prolongando ao máximo o momento, mas bastou uma mordida para perceber que a comida e eu estávamos brigadas naquele dia. Por fim, ela pôs em meu peito o broche com meu nome; o prateado do broche ficava ainda mais lindo contra o preto do meu vestido. Não me restava mais nada a fazer senão enfrentar esse destino inimaginável. Abri a porta do quarto e congelei. Voltei-me para Lucy e deixei escapar meu medo:
Juliana: Estou assustada. - pondo as mãos sobre meus ombros ela falou:
Lucy: Você  é uma "dois" agora, não é assim que gosta de se nomear? Precisa enfrentar a situação como uma adulta, minha menina.  - Inclinei a cabeça levemente quando ela me soltou, tirou minhas mãos do batente da porta e saiu. Queria poder dizer que caminhei com a cabeça erguida, mas, para ser sincera, adulta ou não, eu estava aterrorizada. Para minha imensa surpresa, ao chegar no salão, encontrei as demais garotas. Seus vestidos eram parecidos com o meu e elas tinham a mesma expressão no rosto que eu. Senti uma onda de alívio. Eu não estava encrencada. Quando muito, todas estávamos, e pelo menos eu não passaria por tudo isso (seja lá o que fosse) sozinha.
Silvia: Aí está a quinta. Sigam-nos, garotas. - Quinta? Não estava certo. Éramos seis. Corri a vista pelas outras enquanto descíamos as escadas. Ela tinha razão. Apenas cinco. Marlee não estava lá. Meu primeiro pensamento foi de que Neymar tinha mandado Marlee para casa. Mas será que ela não passaria no meu quarto para dar tchau? Tentei pensar em alguma relação entre todo esse segredo e a ausência de Marlee, só que nenhuma ideia fazia sentido. Ao pé das escadas, os amigos do Neymar nos esperava. Lá também estavam nossas famílias. Meus pais, Lucas e Vic pareciam ansiosos. Todos pareciam ansiosos. Olhei pro meu pai e minha mãe, em busca de alguma luz, mas minha mãe balançou a cabeça e meu pai levantou os ombros. Procurei o Jota entre os meninos, mas ele não estava lá. Vi dois homens acompanhando os pais de Marlee para o fim da nossa fila. A mãe estava curvada de preocupações e apoiava-se no marido, cuja expressão de dor dava a impressão de que envelhecera anos em uma só noite. Não. Se Marlee tinha saído, por que eles ainda estavam lá? De repente o salão foi invadido pela luz. Pela primeira vez desde minha chegada, as portas da mansão foram escancaradas, e todos fomos conduzidos para fora. Cruzamos a pequena pista circular da garagem e fomos além do Jardim que cobria a mansão. Os portões se abriram com um rangido, e logo fomos saudados pelo barulho ensurdecedor de pessoas que estavam ali presentes. Um palanque foi montado. Várias pessoas se encontravam ali, crianças sobre os ombros dos pais, câmeras espalhadas ao redor, membros da equipe de produção correndo diante deles para captar aquelas cenas. Fomos levados para uma pequena arquibancada, e eles nos ovacionavam conforme caminhávamos. Pude notar a tensão desfazendo-se nos ombros de cada uma das meninas à minha frente à medida que o povo nas ruas gritava seus nomes como sinal de torcida. Acenei pras pessoas ao ouvir meu nome. Me senti tão boba por ter ficado preocupada. Se as pessoas estavam felizes daquele jeito, então nada de mal poderia estar acontecendo. Os funcionários da mansão realmente precisavam repensar o modo como lidavam com a 'Elite'. Toda aquela ansiedade por nada. Vic sorria, feliz por ser parte daquela emoção, e eu estava aliviada por vê-la à vontade mais uma vez. Tentei me concentrar em todos os fãs (ridículo pensar que tenho isso), mas me distraí com dois lugares estranhos em cima do palanque. Sentei no meu assento no meio da primeira fileira e tentei imaginar o que estava acontecendo. As 'neymarzetes' explodiram em gritos quando Nadine, e os Neymar's apareceram. Não pude deixar de reparar  que a roupa deles também soava um tanto fria, sem contar na seriedade de seus rostos. Como eu estava próxima do Neymar, voltei o olhar em sua direção. Não importava o que fosse, se ele me olhasse e sorrisse, eu saberia que tudo estaria bem. Desejei que ele me olhasse, que me desse algum sinal. Mas seu rosto estava impassível. Um momento depois, os gritos se  transformaram em vaias e ofensas. Procurei ver o que os deixava tão raivosos. Meu coração subiu pela garganta. Era como se meu mundo caísse. Os meninos ajudaram o Gil a subir no palanque, sua cara pós festa estava horrível. Parecia estar de ressaca. Atrás dele,  estava Marlee,  sua linda fantasia de anjo estava toda bagunçada e sem as asas. Um paletó cobria seus ombros arqueados, ela caminhava com os olhos baixos para evitar a luz. Ela observou a multidão e nossos olhares encontraram-se por uma fração de segundo antes de chamarem ela mais uma vez. Ela levantou os olhos novamente, à procura de alguém. Eu sabia quem. À minha esquerda, os pais de Marlee observavam tudo, se abraçando forte. Estavam visivelmente chateados, em outro lugar, como se seus corações tivessem deixado seus corpos. Voltei a olhar para Marlee e para o Gil. Apesar dos rostos claramente angustiados, ambos caminhavam com um certo orgulho. Não. Não, não, não, não, não. Assim que os dois subiram ao palanque, um homem da produção pediu silêncio. Meu corpo se contorcia, minha barriga gelava. Ainda bem que eu não tinha comido. Me controlei e ouvi ele falar.
xxxx:  Marlee, uma das participantes da seleção, a partir de hoje, não faz mais parte do concurso. O motivo, todos ficaram sabendo essa madrugada e não tem como ocultar à vocês.  A jovem foi pega quebrando uma das regras do concurso, quando se relacionou com o amigo de Neymar, Gilmar. - A voz dele transbordava um excesso de arrogância, como se estivesse ditando a cura para uma doença mortal. As pessoas mais uma vez vaiaram as acusações. Mas como as pessoas podiam concordar com isso? Não sabiam que se tratava de Marlee? A doce, bela, confiável e generosa Marlee? Talvez ela tivesse cometido um erro, mas nada que merecesse tamanho ódio e essa palhaçada toda! Enquanto ele cuspia as acusações, ela só chorava.  Quebra de contrato é crime, mas Neymar ainda a poupará de alguma briga judicial e lhe dará o direito de ir embora sem prestar conta de nada. - As pessoas aplaudiram sua atitude, foi o que as garotas ao meu redor também fizeram, bem como nossos pais, mesmo em choque com tudo aquilo. Eu não prestei atenção neles, porém. Só via os rostos de Marlee e Gil. Não foi à toa que nos deram assentos na primeira fileira: queriam nos mostrar o que aconteceria se cometêssemos um erro idiota como esse. Só que de onde eu estava, a menos de seis metros do palanque, podia ver e ouvir tudo o que realmente importava. Marlee encarava Gil, que devolveu aquele olhar. Era impossível não notar o receio de ambos, mas havia no rosto dela algo que tentava dizer a Gil que ele valia tudo aquilo.
Gil:  Eu te amo, Marlee - ele disse para ela. Mal foi possível ouvi-lo com o barulho da multidão, mas a declaração foi feita. Vamos ficar bem, eu prometo. Marlee estava tão envergonhada que não pôde responder, mas fez que sim com a cabeça. Naquele momento, eu só podia pensar em como ela estava linda. Seus cabelos dourados estavam uma bagunça, o vestido era um desastre e seus sapatos tinham ficado em algum lugar no caminho. Mas, Deus, ela parecia radiante. Aquele cara, falou tantas coisas que na minha ideia de contagem, parecia que ele tinha destituído Marlee e Gil para as menores posições que existisse, um 9, por exemplo. O cara tinha dito ainda por cima que por todo o papelão que fizeram, os dois teriam que ir embora da mansão e se virarem pra voltar pra casa, pois o programa não cobriria gastos de quem rompe contratos. Tipo, o quê?  O povo ria daquilo tudo e eu me perguntava se eu era a única pessoa em sã consciência pra discordar daquilo tudo. Eles já queriam levar Marlee à força para fora, a gritaria era intensa  e eu não me contive.
Juliana: Não! - gritei mesmo. Não!
Natalie:  Acho que vou desmaiar. - Mas nada fez diferença. Levantei e lancei meu corpo em direção ao assento do Neymar, caindo sobre o colo do meu pai.
Juliana: Neymar, manda eles soltarem ela, faz isso parar! Alguém me mandou sentar, ma a verdade é que nessas horas eu estava cagando pra filmagem ou coisas do tipo. Neymar, eu imploro! Por favor! - tentei ir mais pra cima dele, mas um segurança me segurou forte. Sai de perto de mim! - gritei, chutando-o o mais forte que podia. E por mais que eu tentasse, ele ainda me segurava forte.
Andressa: Filha, senta, por favor. - Marlee só chorava, a vergonha e os xingamentos sobre ela a consumiam mais que qualquer coisa.
Juliana: Neymar -  gritei de novo. Faz isso parar, por favor, não deixa ela ir assim. - Ele ouviu. Eu sabia. O vi fechar os olhos devagar e engolir em seco, como se pudesse tirar aqueles sons da sua cabeça. Minha mãe me gritou pra sentar de novo e minha vontade era de socar muito quem estava me segurando. Vic estava sentada entre os meus pais, e vi seu rosto cabisbaixo sentindo por aquela situação. Olhei para os pais de Marlee. A mãe tinha a cabeça enterrada nas mãos; seus braços enganchados nos do marido, como se ele pudesse protegê-la de tudo o que viam naquele momento. Não deve ser nada fácil pra uma mãe ou pai, ver um filho odiado por alguém, quanto mais por aquela quantidade enorme de pessoas. Me solta! - gritei para o segurança, em vão. — NEYMAR! — berrei. Minhas lágrimas atrapalhavam minha visão, mas eu conseguia ver o bastante para saber que ele tinha ouvido. Olhei para as outras garotas. Nossa amiga foi obrigada a passar por essa vergonha toda em público, em frente às câmeras e agora está saindo da mansão escorraçada por causa de uma porra de um contrato! Não devíamos fazer algo? Algumas pareciam chorar também. Elisa estava curvada, com a cabeça apoiada nas mãos, dando a impressão de que poderia desmaiar. Mas nenhuma delas parecia irritada. Não deveriam estar? O choro de Marlee, o eco doentio das pessoas vibrando, jamais ouvi nada parecido, é como se aquilo não passasse de mero entretenimento pra eles, mas não cara. Isso é vida real! O silêncio do Neymar permitindo tudo aquilo me doía ainda mais. A única coisa que me dava um pouco de esperança era o Gil. Embora suasse de nervoso, ele conseguiu balbuciar palavras de conforto para Marlee.
Gil: Vai acabar logo... Amo você! - Tentei arranhar o guarda, mas o casaco grosso o protegia. Gemi quando ele me apertou mais forte.
Joaquim: Tira as mãos da minha filha! - meu pai gritou, puxando os braços do segurança .Com aquele espaço, me movimentei até conseguir encará-lo e dei a joelhada mais forte que pude. Ele soltou um grito abafado e caiu de costas, sendo amparado por meu pai. Pulei a grade, um pouco desajeitada por causa do vestido e dos sapatos.
Juliana: Marlee! Marlee! - eu berrava, correndo o mais rápido que pude. Quase cheguei até os degraus; mas fui agarrada por mais dois seguranças. Era uma briga que eu não conseguiria ganhar. Só de pensar que estavam me impedindo de chegar até ela, o ódio triplicou. Gritei e chutei, mas tudo o que consegui foi perder um dos sapatos. Fui arrastada para a mansão enquanto o povo continua xingando-os. Não sabia se deveria me sentir grata ou envergonhada. Por um lado, eu não precisava mais ver aquilo; por outro, me pareceu que eu estava abandonando Marlee no pior momento de sua vida. Uma amiga de verdade não teria de fazer mais que isso? Marlee! Perdão! - Com toda aquela gritaria é claro que não fui ouvida. Xinguei e gritei durante todo o caminho de volta. Os seguranças tiveram de me segurar tão forte que sabia que ficaria cheia de hematomas depois. Não me importava. Tinha que lutar.
segurança 1: Onde fica o quarto dela? - perguntou pra uma faxineira que passava pelo corredor. Eu não a reconheci, mas ela com certeza sabia quem eu era. Ela acompanhou os guardas até a porta. Escutei Lucy brigar contra o modo como me tratavam.
Segurança 2: Se acalma, garota!  - resmungou e me atirou na cama.
Juliana: Vai tomar no seu cu, sai da droga do meu quarto! -  berrei. Lucy já estava chorando também, ela se aproximou de mim. Tocou na minha roupa que estava toda suja do tombo, mas dei um tapa na mão dela. Ela sabia. Sabia e não me avisou. Você também, sai agora! - Elas se encolheu, e os tremores no seu corpo frágil quase me deixaram arrependida do que tinha dito. Mas eu precisava ficar só.
Lucy: sinto muito, Ju.  - Elas sabiam como Marlee e eu éramos próximas.
Juliana: Apenas vai... - falei em voz baixa, com o rosto enterrado no travesseiro. Assim que a porta fechou, tirei o sapato que sobrou e me afundei ainda mais na cama para finalmente compreender centenas de detalhes minúsculos. Então era aquele o segredo que Marlee temia revelar. Ela não queria ficar porque não amava o Neymar, mas também não queria sair e separar-se de Gil. Várias cenas começaram a fazer sentido: o motivo de ela ficar em certos lugares e olhar para as portas. Era Gil; ele estava lá. Quando a família do Neymar veio ao palácio e ela não quis sair do sol... Gil. Era Marlee que ele esperava quando nos trombamos na porta do banheiro. Sempre ele, aguardando em silêncio, talvez roubando um beijo aqui e ali, à espera do momento em que poderiam ficar juntos de verdade. Como ela devia amá-lo para ter sido tão descuidada, para arriscar-se tanto! Como tudo isso podia ser real? Não parecia possível. Eu sabia das consequências pra quem fizesse coisas desse tipo, mas que aconteceria com Marlee... Não podia compreender. Meu coração gelava. Será que eu demoraria pra ver Marlee  outro dia? Para onde ela iria agora? Seus pais continuariam ligados a ela? E eu não pude fazer nada. Me senti tão mal, que pessoa ruim, que amiga terrível eu era. Senti vergonha. Não havia o que fazer senão chorar. Passei a manhã e a maior parte da tarde encolhida na cama. Lucy me trouxe o almoço, mas sequer o toquei. Ainda bem que ela não insistiu em ficar e me deixou só. Eu era incapaz de me recompor. Quanto mais pensava no acontecido, pior ficava. Não conseguia tirar o som do choro de marlee da cabeça, enquanto aquelas pessoas a xingavam. Fiquei imaginando se algum dia  esqueceria. Ouvi uma batida na porta. Se Lucy estivesse aqui, já teria ido correndo ver, e como ela não estava, eu nem me movi, então, não abri. Depois de uma pausa, o visitante entrou mesmo assim.
Neymar: Juliana? -  chamou em voz baixa, mas eu não respondi. Ele abriu a porta e caminhou até minha cama. Sinto muito, não tive escolha. - Permaneci calada, incapaz de falar. As câmeras descobriram eles na noite passada e divulgaram o vídeo sem nosso conhecimento. - Ele se calou por um tempo, talvez na esperança de que se ficasse ali tempo suficiente eu encontraria algo para lhe dizer. Por fim, ele se abaixou do meu lado. Juliana? Olha pra mim. - O pedido dele me deu um nó no estômago. Olhei mesmo assim. Eu precisei fazer aquilo. Precisei.
Juliana: Como você pode ficar parado? Como você pôde não ter reação?
Neymar: Eu já te disse uma vez que parte da minha vida agora é parecer calmo mesmo quando não se está. É uma coisa que tive de aprender. Você também aprenderá. - Franzi a testa. Por acaso ele pensava que eu ainda queria aquilo? Aparentemente, sim. Quando ele compreendeu minha expressão, o espanto tomou conta de seu olhar. Juliana, sei que você tá nervosa, mas por favor? Já disse, você é a única. Por favor, não faça isso.
Juliana: Neymar - respondi devagar. Sinto muito, mas acho que não posso fazer isso. Nunca poderei me sentar e assistir a uma pessoa sendo humilhada mesmo que por palavras, daquela maneira por 'ordens' minhas. Não me interessa se é protocolo de programa, se é regras, se o povo descobriu e colocou lenha na fogueira, não quero saber mesmo! Sinto muito, não posso ser sua. - O ar começou a faltar a ele, era provavelmente a manifestação mais próxima de uma verdadeira tristeza que eu tinha visto nele.
Neymar: Juliana, você coloca em jogo o resto de nossas vidas por causa de cinco minutos da vida alheia. Coisas assim acontecem raramente por aí. Você não teria que fazer isso. Hoje aconteceu por que a situação fugiu claramente do controle. - Me sentei, na esperança de que assim pensaria melhor.
Juliana: É que... não consigo nem pensar agora.
Neymar: Então não pensa. Não deixe o momento te levar a uma decisão sobre nós dois quando você está tão nervosa. - Essas palavras me pareceram um truque. Por favor - agarrou minhas mãos. O desespero de sua voz me fez olhar para ele. Você prometeu ficar comigo. Não desista, não assim. Por favor. - Respirei fundo e fiz que sim com a cabeça. Obrigado. - Foi evidente o seu alívio. Ele permaneceu ali sentado, segurando minha mão como se ela fosse seu último fio de esperança. Não era como no dia anterior. Sei... Sei que você não está segura quanto ao fardo de ser minha mulher. Sempre achei que seria difícil para você aceitá-lo com toda as bagagens que vem junto.. E tenho certeza de que isso o torna mais difícil. Mas... e quanto a mim? Você ainda está segura quanto a mim? Digo, só o Júnior. - Hesitei, incerta sobre o que dizer.
Juliana: Já falei que não consigo pensar.
Neymar: Ah. Tudo bem, vou te deixar em paz por agora. Mas nos falamos logo. - Ele se inclinou como se quisesse me beijar. Baixei os olhos, e ele limpou a garganta. Até mais, Juliana. - Então ele saiu. E eu me senti despedaçada de novo. Minutos ou horas depois, Lucy entrou e me encontrou em prantos. Eu rolava de um lado para o outro na cama, e não havia como elas não verem a súplica em meus olhos.
Lucy: Ah ju, parte o coração te ver assim.  Vem, vou te ajudar a aprontar as coisas pra dormir. -  Ela colocou a banheira pra encher, separou um pijama e aprontou minha cama, nisso eu só chorava. Depois de banho tomado, Lucy sentou do meu lado tentando me acalmar.  Queria explicar que era mais que Marlee; que havia também a mágoa em relação ao Neymar. Só que seria tão vergonhoso reconhecer o quanto aquilo mexia comigo, e como eu estava errada. Minha dor dobrou quando perguntei por meus pais e ela me contou que todas as famílias tinham sido acompanhadas de volta pra casa rapidamente. Não pude sequer dizer adeus. Com uma mão Lucy acariciava meus cabelos e a outra, mantinha sobre seu peito, como se sentisse tudo aquilo comigo.
Juliana:  Obrigada, me desculpa pelo que fiz ou falei.  
Lucy: Não precisa se desculpar Jú. - Quis corrigi-la,  com certeza, tinha ido longe demais no jeito como a tratei de manhã, mas logo veio outra batida à porta. Pensei em como dizer educadamente que não queria ver o Neymar naquele momento, mas quando Lucy se apressou em abrir, vi o rosto do Jota do lado de fora.
Jota: Desculpa Ju, mas queria te ver, saber se você está bem. - Ele entrou e sentou na beira da cama. Sinto muito por tudo que houve com sua amiga. Sei que ela era especial e vai fazer falta aqui na mansão pra você, se precisar de qualquer coisa, estou aqui. - Seu olhar transmitia tantas coisas. Uma pessoa do bem que claramente me ajudaria em tudo que eu precisasse. Em pensar que eu não queria ver nenhum elemento que fosse amigo do Neymar... Que idiota eu tinha sido, no momento de raiva quase abri mão da única pessoa que  realmente me entendia, que realmente se importava. Jota e eu tínhamos construído uma amizade linda juntos, graças à Seleção, mas também  a mesma quase a destruiu. Jota estava se tornando minha casa, minha segurança.
Juliana: Obrigada, você ter vindo aqui  significa muito para mim. - Jota abriu um sorriso, pude ver que ele queria ficar, era o que eu queria também, mas não ia acontecer, não hoje.  Estava tão cansada que possivelmente dormiria em 5 minutos de conversa. Mas me lembrei de que teria Jota sempre. Fiquei feliz por essa verdade.


Oi, gatinha,
Mil perdões por não termos conseguido nos despedir. O Neymar achou que seria melhor para as famílias voltarem logo, devido ao tumulto que isso tudo causou. Tentei encontrar você, juro. Só que não consegui.
Queria que soubesse que chegamos bem em casa. O programa nos deixou ficar com as roupas, e Vic passa todo o seu tempo livre vestindo os vestidos. Suspeito que ela deseja não engordar nem um centímetro mais para poder usar sua fantasia sempre. Isso a deixa muito animada. Não sei se algum dia perdoarei a família Silva Santos  por forçar duas filhas minhas a assistir aquela humilhação ao vivo. Mas você sabe como Vic aguenta bem essas coisas. É com você que estou preocupado. Nos ligue logo.
Talvez essa não seja a melhor coisa a dizer, mas quero que saiba: quando você correu para o palanque, nunca tive tanto orgulho de você em toda a minha vida. Você sempre foi bonita; sempre teve talento. E agora eu sei que o seu senso de justiça é bem afiado, que você percebe claramente quando as coisas estão erradas e faz tudo que pode para pôr fim a elas. Não posso pedir mais como seu pai.
Te amo, Juliana. Estou muito, muito orgulhoso.
Papai




Como meu pai sempre sabia o que dizer? Cheguei a desejar que alguém realinhasse as estrelas para que elas formassem essa frase. Precisava que ficassem grandes e brilhantes, em algum lugar onde eu as enxergasse nos momentos de escuridão. Te amo, Juliana. Estou muito, muito orgulhoso. Os membros da Elite (2 fase da seleção) tinham a opção de tomar café no quarto, e foi o que fiz. Ainda não estava pronta para ver o Neymar. À tarde, mais recomposta, decidi descer ao Salão das garotas por um momento. Pelo menos, lá tinha uma TV, e eu agradeceria por uma distração. As garotas se surpreenderam com a minha entrada, o que eu já esperava de certa forma. Eu costumava me esconder de vez em quando, e certamente nunca tinha precisado tanto. Celeste relaxava no sofá, folheando uma revista. Kriss e Elisa estavam na mesa, tomando suco e conversando. Já Natalie estava no fundo do salão, olhando pela janela.
Celeste: Olhem só, mais um dos meus anúncios. - Celeste era modelo. Saber que estava ali folheando fotos de si mesma me irritou ainda mais.
Nadine: Juliana?  - Olhei para trás e lá estava a mãe dele, com o notebook no colo, parecia estar trabalhando. Meu estômago gelou quando me lembrei  do meu comportamento no dia anterior. Nunca tive a intenção de ofendê-la e, de repente, temi haver feito exatamente isso. Sentia os olhos das outras meninas sobre mim. Ela  geralmente falava conosco em grupo, raramente em particular. Parecia não querer se apegar, como se tudo isso fosse "futilidades". Me aproximei.
Juliana: Oi dona Nadine.
Nadine: Senta aqui um pouco. - disse calmamente, apontando uma cadeira vazia à sua frente. Agradeci, ainda muito nervosa. Você brigou bastante ontem.  - Engoli em seco.
Juliana: Sim.
Nadine: Você era muito próxima dela?
Juliana: Demais. - respondi, com a tristeza entalada na garganta. Ela suspirou.
Nadine:  Primeiro queria deixar claro que não concordo com o que aconteceu ontem, mas apesar de toda situação, você não deveria agir daquela maneira, poderia ter se machucado. - Não se tratava de uma ordem da dona da casa. Tratava-se da censura de uma mãe. Aquilo deixou tudo umas mil vezes pior, era como se ela se sentisse responsável por mim, e eu a tinha desapontado. Inclinei a cabeça. Pela primeira vez, me senti verdadeiramente mal por minha reação. Ela estendeu o braço e apoiou a mão sobre meu joelho. Olhei para seu rosto, surpreendida pelo seu toque.
Nadine: Em todo caso, estou feliz que você tenha agido daquela forma -  cochichou, com um sorriso nos lábios.
Juliana:  Ela era minha melhor amiga.
Nadine:  A amizade não acaba por ela ter ido embora, minha linda - suas palavras vieram acompanhadas de carícias suaves na minha perna. Era disso que eu precisava: carinho materno. Lágrimas brotaram no canto dos meus olhos.
Juliana: Não sei o que fazer -  sussurrei. Quase falei tudo ali, sobre como estava me sentindo, mas tinha consciência do olhar das outras meninas.
Nadine: Disse a mim mesma que não me envolveria. - suspirou. Mesmo se quisesse, não sei ao certo se teria muito a dizer. - Ela tinha razão. Que palavras mudariam o acontecido? Em todo caso, pegue leve com ele. - Sabia que ela tinha boas intenções, mas, de verdade, eu não queria falar com ela sobre seu filho. Concordei com a cabeça e me levantei. Ela abriu um sorriso gentil e eu me afastei.  Caminhei pra lá e pra cá até me sentar na mesa de Elisa e Kriss.
Elisa: Como você está?
Juliana: Estou bem, é Marlee quem me preocupa.
Kriss: Pelo menos estão juntos de verdade agora.
Juliana: Como você sabe que eles estão juntos agora?
Kriss: Neymar me contou -  respondeu, como se aquilo fosse de conhecimento comum.
Juliana:  Ah...
Kriss: Não acredito que ele não contou pra você antes de nos falar. Você e Marlee eram tão próximas. Além disso, você é a preferida dele, certo? -  Olhei pra Kriss, depois para Elisa. Ambas tinham um ar preocupado, mas talvez também uma certa expressão de alívio. Celeste riu.
Celeste: Evidentemente, não é mais - murmurou, sem sequer levantar os olhos da revista. Com certeza, minha queda era esperada. Eu levei a conversa de volta à Marlee.
Juliana: Ainda não acredito que o Neymar a fez passar por isso. A calma dele durante tudo aquilo era medonha.
Natalie:  Mas ela errou.
Elisa: Ele podia ter acabado com ela por quebra de contrato, fora humilhação que ele passou por ser traído. Podia acabar com os dois, mas mostrou misericórdia.
Juliana: Misericórdia? - desdenhei. Você acha que fazer os outros passarem por todo aquele fusuê ontem ao vivo é sinal de misericórdia? Somos traídas desde que entramos e não fizemos nada por isso.  E mais, acha que o que conta mesmo, é somente o egozinho  dele ferido?
Elisa: Sim, no fim das contas, acho. Aposto que se perguntássemos pra ela o que escolheria, ela preferiria o que aconteceu ontem.
Kriss: Elisa tá certa. Concordo que foi absolutamente terrível, mas eu sou mais aquilo do que ter minha vida destruída, por que é isso que ia acontecer se eu entrasse numa briga na justiça com ele. 
Juliana: Por favor! - repliquei com sarcasmo e uma ponta de raiva. Você é rica! Todo mundo sabe da sua vida de luxo, assuma que isso seria o menor de seus problemas. Se passasse pelo que Marlee enfrentou, não aguentaria. - Kriss me encarou.
Kriss: Não vá achando que você sabe o que eu posso aguentar ou não. Só porque você não tem as mesmas condições financeiras que eu, acha que é a única pessoa que já sofreu?
Juliana: Não, mas tenho certeza de que já enfrentei bem mais coisas que você. - meu tom de voz ia aumentando com a raiva. Mesmo assim, não suportaria passar pelo que Marlee passou. E você não se sairia nem um pouco melhor.
Kriss: Sou mais corajosa do que você acha, Juliana. Você não faz ideia das coisas que tive que sacrificar ao longo dos anos. E quando cometo um erro, arco com as consequências.
Juliana:  E por que deveriam existir consequências? Neymar vive dizendo que a Seleção é difícil para ele, que é duro escolher, e então uma de nós se apaixona por outro. Ele não deveria agradecer essa garota por facilitar a decisão?
Elisa: ontem, ouvi as coisas mais bizarras!
Kriss:  Mas... 
Elisa: Juliana tem um pouco de razão - ela se contrapôs, e foi o fim da ordem na conversa. Falávamos uma em cima da outra, tentando nos fazer ouvir, explicando o porquê de achar que aquilo tinha sido certo ou errado. Era a primeira vez que discutíamos assim, mas esperava isso desde o começo. Com esse monte de meninas juntas, competindo entre si, não haveria como não brigarmos algum dia. Foi então que, com a voz mais podre possível, Celeste sussurrou para sua revista enquanto discutíamos:
Celeste: Ela  teve o que mereceu. Biscate. - O silêncio que se seguiu foi tão intenso quanto a discussão. Celeste olhou pra trás a tempo de me ver preparar o bote. Ela gritou assim que caí por cima dela, e nós duas caímos em cima da mesa de café. Escutei uma coisa despedaçar-se no chão, provavelmente uma xícara. Tinha fechado os olhos no meio do salto; quando abri, Celeste estava embaixo de mim, tentando segurar meus pulsos. Desvencilhei meu braço direito e dei um tapa na cara o mais forte que pude. A dor em minha mão foi quase insuportável, mas valeu a pena ouvir o estalo sonoro explodir em seu rosto com o meu golpe. Celeste imediatamente soltou um grito e passou às unhadas. Pela primeira vez, lamentei não deixar as unhas grandes como as outras meninas faziam. Fiquei com uns arranhões no braço, o que apenas aumentou o meu ódio, e bati nela de novo. Dessa vez, cortei seu lábio. Sua reação à dor foi pegar algo do chão – o pires da xícara, acho – e acertá-lo na minha orelha. Caí para trás, mas logo parti para cima de novo. Só que nos separaram. Estava tão absorta que não percebi que os meninos tinham sido chamados. Dei um bandão neles também. Estava cansada de ser agarrada.
Celeste:  Você viu o que ela fez comigo? 
Juliana:  Cala  a  boca! - berrei. Nunca mais fala de Marlee!
Celeste:  Ela é louca! Você ouviu? Você viu o que ela fez?
Juliana: Me solta! - bati nos meninos também.
Celeste: Você é uma psicopata! Vou contar tudo pro Neymar agora. Pode dar adeus a mansão! 
Nadine:  Ninguém vai ver o Júnior  agora! - seu tom era severo. Nos olhou nos olhos; primeiro Celeste, depois eu. Sua decepção era notória. Vocês duas vão pra a ala hospitalar. 
A ala hospitalar consistia em um corredor impecável com camas encostadas nas paredes. Sobre cada cama, havia uma cortina que podia ser puxada para dar mais privacidade. Havia armários com remédios espalhados por toda parte. Sabiamente, puseram Celeste e eu em pontas opostas do corredor: ela mais perto da entrada; eu, próxima à janela dos fundos. Ela puxou a cortina em volta da sua cama quase que imediatamente, pra não precisar me ver. Não podia culpá-la. De fato, eu estava com uma expressão bem diabólica no rosto. Mesmo nos momentos em que a moça cuidava do machucado atrás da minha orelha, não fiz qualquer careta de dor.
xxxx: Agora você segura este gelo aqui. Vai ajudar a desinchar  - me orientou.
Juliana: Obrigada. - A moça olhou pros dois lados da ala, aparentemente certificando-se de que ninguém nos ouviria.
xxxx: Você foi muito bem - cochichou. Quase todos aqui esperavam que isso fosse acontecer.
Juliana: Mesmo? - perguntei, minha voz tão baixa como a dela. Só que talvez eu não devesse estar tão sorridente.
xxxx: Não dá para enumerar as histórias de terror que ouvi sobre essa aí - esticou o pescoço na direção da cama de Celeste.
Juliana: Histórias de terror?
xxxx: Bom, ela provocou aquela menina que bateu nela.
Juliana:  Anna? Como você sabe?
xxxx: Neymar é um bom homem. Fez questão de que ela fizesse uma avaliação aqui antes de voltar pra casa. Ela nos contou o que Celeste disse de seus pais. Uma imundície tão grande que não posso repetir, mas o olhar dela transmitia seu asco.
Juliana: Coitada de Anna! Sabia que tinha sido uma coisa do gênero.
xxxx: Certa vez, atendemos uma menina com o pé sangrando; alguém havia enfiado cacos de vidro em seus sapatos durante a noite. Não podemos provar que foi Celeste, mas quem além dela faria tamanha baixaria?
Juliana: Nunca ouvi falar disso - eu estava espantada.
xxxx: A garota tinha medo que as coisas piorassem. Imagino que escolheu ficar de boca fechada. Além do mais, Celeste bate em sua ajudante. Com as mãos limpas, mas mesmo assim ela sempre aparece aqui em busca de gelo.
Juliana: Não! - Todas as ajudantes que conhecia eram muito doces. Não podia imaginar nenhuma capaz de fazer algo que merecesse um só tapa, quanto mais coisa pior.
xxxx: Basta dizer que seu espetáculo já anda de boca em boca. Você é uma heroína aqui, muita gente esperava esse tapa - piscou pra mim. Não me sentia uma heroína.
Juliana: Um momento, você falou que Neymar fez Anna passar por aqui antes de ir embora?
xxxx: Sim. Ele se esforça muito para que todas vocês sejam bem cuidadas.
Juliana: E Marlee? No meio daquela confusão ela deve ter se machucado. Ela também veio aqui? Como foi quando ela saiu?  - Antes dela responder, a voz afetada de Celeste ecoou pelo corredor.
Celeste: Neymar, meu amor! - já exclamou assim que ele cruzou a porta. Trocamos olhares por um momento antes dele se aproximar da cama de Celeste. A moça saiu, me deixando só e morta de vontade de saber se ela tinha visto Marlee. A voz esganiçada de Celeste era praticamente insuportável. Ouvi Neymar murmurar seus lamentos e confortar aquela criatura infeliz antes de escapar. Ele contornou a cama e caminhou na minha direção, com os olhos cravados em mim. Parecia exausto.
Neymar: Você tem sorte de o meu pai ter proibido as câmeras na mansão. Caso contrário, passaríamos maus bocados por causa do que você tem feito. - Ele levava as mãos à cabeça, irritado.  Como vou justificar isso, Juliana?
Juliana: Então você vai me enxotar?
Neymar:  Claro que não.
Juliana:  E ela? 
Neymar: Não. Vocês todas estão desgastadas depois de ontem. Não posso culpá-las por isso. Não sei se meu pai vai aceitar essa desculpa, mas é o que vou dizer. - Fiz uma pausa.
Juliana:  Neymar, você devia dizer que a culpa foi minha. Talvez você devesse simplesmente me mandar embora.
Neymar:  Juliana, você está exagerando.
Juliana: Olha pra mim, Neymar. - Sentia um nó crescer na garganta e queria desfazê-lo com minhas palavras. Sei desde o começo que não tenho os requisitos pra isso tudo. Pensei que pudesse, sei lá, mudar ou dar um jeito. Mas não posso ficar aqui. Não posso. - Ele sentou na beira da minha cama.
Neymar: Juliana, sei que você odeia a Seleção, e talvez esteja furiosa com o que aconteceu com Marlee, mas sei que você se importa comigo o bastante para não me abandonar assim. - Segurei a mão dele. Também me importo com você o bastante pra dizer que está cometendo um erro. - Notei a dor no rosto dele, que apertou mais a minha mão, como se pudesse me prender ali e não me deixar sumir. Um pouco receoso, ele se inclinou e disse ao meu ouvido: Não é sempre tão difícil. Quero mostrar isso a você, mas você tem que me dar tempo. Posso provar que há coisas boas nessa vida, mas você precisa esperar. - Me preparei para contradizê-lo, mas ele interrompeu: Por semanas, Juliana, você tem me pedido tempo, e eu dei sem nem pensar, porque tinha fé em você. Por favor, preciso que você tenha um pouco mais de fé em mim. - Não sei o que Neymar me mostraria pra me fazer mudar de ideia, mas como eu não lhe daria tempo se ele fez isso por mim? Respirei fundo.
Juliana: Tudo bem.
Neymar: Obrigado - era óbvio o alívio em sua voz. Preciso muito ir agora, mas logo voltarei para vê-la. - Concordei. Ele se levantou e saiu, não sem antes parar rapidamente na cama de Celeste para se despedir. Observei-o ir, pensando se confiar nele era uma má ideia.











Postei e sai correndo! hahahahah

sábado, 21 de janeiro de 2017

Capítulo 13: "Eu não sabia como explicar que Neymar parecia ter tempo para todas, menos para mim..."


"Já estava arrependida, por um segundo acreditei que ele pudesse gostar de mim."







Lá estava eu, enfileirada com as outras garotas, mexendo os pés de um lado para o outro.
Silvia: Juliana! - foi o bastante para eu entender que meu comportamento estava sendo ruim. Como ela era a nossa principal tutora na Seleção, levava muito a sério tudo o que fazíamos. Tentei sossegar. Talvez, se Neymar já estivesse aqui, não fosse tão ruim. Mas talvez eu ficasse mais ansiosa. Ainda não compreendia por que, depois de tudo, ele não tivera tempo para mim nos últimos dias.
Silvia: Eles chegaram! - Não fui a única a soltar um suspiro aliviado. Tentamos ser as jovens adoráveis que Silvia desejava, mas tudo ruiu no instante em que os pais de Kriss e Marlee entraram pela porta. Eu sabia que ambas eram apenas crianças, e era óbvio que seus pais estavam com saudades demais para se importarem com comportamento. Eles correram aos berros, e Marlee saiu da fila sem parar para pensar. Os pais de Celeste foram mais discretos, embora tenham ficado claramente emocionados aos ver a filha. Celeste também saiu da fila, mas de um modo muito mais civilizado que Marlee. Sequer notei os pais de Natalie ou Elisa, porque uma figura baixinha de cabelos castanhos brilhava ao pé da porta com olhos inquietos olhando pra todos os lados.
Juliana: Victória!!! - Ela ouviu meu chamado, viu meu braço acenando e logo correu para mim. Minha mãe, meu pai e o Lucas a seguiram.
Victória: Ju! Não acredito! - ela gemeu, com a voz repleta de admiração.  Você está tão, tão linda! 
Não consegui falar. Mal podia vê-la, eu chorava tanto. Momentos depois, senti os braços firmes de meu pai envolvendo ambas. Em seguida, minha mãe e Lucas se juntou a nós, e logo formávamos um todo, abraçados na mansão. 
Juliana: Estou tão feliz de vocês estarem aqui.
Lucas: Também estamos, gatinha.  Não dá para dizer o quanto sentimos sua falta - falou e  concluiu com um beijo em minha cabeça. Me virei para abraçá-lo melhor. Até aquele momento, ainda não tinha percebido o quanto eu precisava vê-los.
Abracei minha mãe por último. Eu estava chocada por ela estar tão quieta; era incrível que ainda não tivesse falado do meu "sacrificio" (como diz ela) por eu estar aqui. Mas quando a olhei, vi as lágrimas em seus olhos.
Andressa: Você está tão linda, querida. Parece uma princesa. - Sorri. Era bom não ouvir somente perguntas e ordens dela, pelo menos uma vez. Naquele momento, ela estava apenas feliz. E isso significava muito para mim, porque eu também estava.
Reparei que Victória olhava para alguma coisa por cima do meu ombro.
Victória: É ele - cochichou.
Juliana: Quem? - perguntei, me inclinando para ela. Virei para trás, Neymar nos observava detrás da grande escadaria. Com um sorriso maravilhado, ele abriu caminho para onde estávamos. Meu pai se endireitou rapidamente.
Joaquim: Neymar - sorriu e o Neymar  foi ao seu encontro com a mão esticada.
Neymar: Seu Joaquim, é uma honra. Ouvi tanto a seu respeito. E é um prazer conhecê-la também, senhora Andressa 
Andressa: O prazer é meu e me desculpe pela bagunça - disse, apontando para o chão, onde Victória e eu permanecíamos abraçadas. Neymar  riu.
Neymar: Não é nada. Não esperaria menos entusiasmo de qualquer pessoa que seja ligada à Juliana. - Com certeza minha mãe ia querer explicações sobre isso mais tarde. E você deve ser Victória, não é?  - Ela corou ao estender a mão a ele; esperava um aperto de mão, mas ganhou um beijo. Nunca te  agradeci por não ter chorado -  brincou.
Victória: O quê?
Neymar: Ninguém disse a você?  - ela negou e ele riu radiante.  Graças a você, ganhei meu primeiro encontro com sua prima Estarei sempre em dívida com você.
Victória: Bom, de nada, acho  - riu. 
Neymar: Preciso conhecer os outros, mas por favor, me esperem aqui, quero falar com todos. Estou muito feliz por terem vindo.
Victória: Ele é ainda mais bonito pessoalmente  - cochichou alto; e eu pude notar que Neymar ouviu, pelo leve chacoalhar de sua cabeça. Ele passou à família de Elisa, de longe a mais refinada do grupo. Seus irmãos mais velhos pareciam mais rígidos que o seu Neymar. Fiquei imaginando se tinha sido Elisa que os tinha mandado agir assim ou se era mesmo o jeito deles.  Ao lado deles, Natalie e sua lindíssima irmã mais nova cochichavam com Kriss enquanto seus pais se cumprimentavam.
Andressa: O que quer dizer isso de ele esperar entusiasmo de nós? - minha mãe perguntou em voz baixa.  É porque você gritou com ele quando se encontraram? Você não fez mais isso, fez? - soltei um suspiro e ri.
Juliana: Na verdade, mãe, a gente discute quase sempre.
Andressa: O quê?  - ela perguntou, de queixo caído. Pois pare com isso, Juliana!
Juliana: Ah, e eu dei uma joelhada nas partes dele uma vez. - Ficamos em silêncio por uma fração de segundo, até Lucas explodir numa gargalhada. Ele cobriu a boca e tentou parar, mas as risadas continuaram a sair, fazendo uns sons estranhos. Meu pai apertava os lábios, mas dava para notar que ele estava a ponto de também deixar escapar gargalhadas. Minha mãe estava mais branca que a neve.
Andressa: Diz que isso é piada, minha filha, diz que você não atacou ele, por favor. - Não sei por que, mas a palavra “ataque” foi a gota d’água: Victória, Lucas, meu pai e eu começamos a rir até doer a barriga, enquanto minha mãe nos encarava.
Juliana: Desculpa, mãe. - prendi o riso.
Andressa:  Ai, meu Deus. - E, de repente, minha mãe pareceu superanimada para conhecer os pais de Marlee, e eu não a impedi.
Joaquim: Então ele gosta de mulheres que não baixam a cabeça  - disse meu pai, assim que sossegamos.  Já passei a gostar mais dele. - Meu pai correu os olhos pelo lugar, contemplando a mansão; eu permaneci ao seu lado, tentando entender suas palavras. Será que algum dia ele ia se opor nos meus relacionamentos? Por algum motivo, me senti mil vezes mais estressada. Apesar de todos os holofotes encima do Neymar, percebi que existia a possibilidade de meu pai não gostar dele. Meu pai não era má pessoa, não saía por aí fazendo coisas ruins e espalhando ódio. Mas eu sabia que ele não gostava do jeito como as coisas eram feitas. E se ele dissesse que eu não deveria ficar com ele? Antes de eu me perder em pensamentos, Neymar subiu alguns degraus na escada para poder ver todos nós.
Neymar: Gostaria de agradecer a todos por terem vindo. Estamos muito contentes de recebê-los em nossa casa, não apenas para comemorar o Halloween, mas também para nos conhecermos. Sinto muito por meus pais não terem conhecido vocês agora também, eles tiveram alguns imprevistos, mas vocês os conhecerão em breve. As mães, irmãs e meninas da Elite estão convidadas para um lanche com minha mãe e minha irmã esta tarde, no Salão das garotas. Já os rapazes, temos a sala de jogos à disposição, vou estar lá com os meninos e o meu pai, então fiquem à vontade pra se juntar à nós. As ajudantes vão levar voces aos quartos que  ocuparão durante a estadia. Também temos roupas à disposição pra festa de amanhã, escolham o que quiserem. - Neymar encerrou com um aceno e saiu. Lucy  surgiu ao nosso lado quase que imediatamente.
Lucy: Olá, sou Lucy, vou acompanhar vocês até os quartos.
Victória: Mas eu queria ficar com a Juliana - protestou.
Lucy: Tenho certeza de que temos um quarto tão bonito quanto o de Juliana pra você -  sorriu. Você não quer ver?  - Victória se virou para mim com sua cara de pidona e eu não resisti.
Juliana: Tudo bem. Talvez, com nós duas lá, Lucy tenha realmente algo para fazer de verdade. - Ela me abraçou tão forte que já valeu a pena.
Joaquim:  O que mais você aprendeu?- Passei meu braço pelo dele. Ele parecia jovem e bonitão naquelas roupas chiques. Estava até mais alto.
Juliana: Acho que já te contei tudo o que ensinaram, vi na pele historias que jamais imaginaria que poderiam acontecer. Descobri que na verdade não sabia nada sobre futebol também, tu acredita? - Meu pai fez que sim com a cabeça e riu. Aqui na mansão pude conhecer a verdadeira realidade sobre a história e vida de alguém desse ramo, quer dizer de perto mesmo, sabe? Por algum motivo, a história dele era quase sempre transmitida nos programas de tv. Ouvi várias coisas diferentes, e nenhuma delas era tão completa como a que presenciei e ouvi nos últimos meses. - Não estava a fim de falar mais disso com meu pai; era uma visita esperada e não queria desperdiçá-la com esses  assuntos sobre ele.  Além dessas coisas, umas das muitas aulas é de etiqueta. Acho que em breve vamos usá-la para alguma coisa. Eles estão forçando bastante a matéria. Bem, vai ser útil para as garotas que ficarem, em todo o caso.
Joaquim: Ficar?
Juliana: Acontece que uma das garotas vai voltar para casa com a família. Neymar deve eliminar alguém depois de conhecer todos os pais.
Joaquim: Você não parece muito feliz com isso. Acha que ele vai mandar você para casa? - Dei de ombros. Vamos, filha. A essa altura você já deve saber se ele gosta de você ou não. Se gosta, você não tem com que se preocupar. Se não gosta, por que vai querer ficar?
Juliana:  Acho que você tá certo. - Ele parou de andar.
Joaquim: E qual das duas opções é a certa? - Era meio vergonhoso falar disso com meu pai, mas também não falaria disso com minha mãe.
Juliana: Acho que ele gosta de mim. Ele diz que gosta. - Meu pai riu.
Joaquim:  Então você está indo bem.
Juliana: Mas ele tem estado um pouco... distante esta semana.
Joaquim: Juliana, querida, ele é o Neymar. Provavelmente ele esteve ocupado com essa coisa de futebol ou algo do tipo. - Eu não sabia como explicar que Neymar parecia ter tempo para todas, menos para mim. Era humilhante demais.
Juliana: Acho que sim...
Joaquim: Então há uma sala escondida em algum lugar por aqui? - disse, enquanto observava as paredes de um modo todo novo.
Juliana:  Pai, este lugar é maluco. Só doidera, mas naquele dia de sufoco com aquela corja, foi esses esconderijos que nos salvou.
Joaquim: Hmm, isso é verdade! Então serei cuidadoso ao fazer o caminho de volta para o meu quarto - riu.
Juliana:  O que você provavelmente precisa fazer logo. Tenho que encontrar Victória e Mamãe para o lanche com a Nadine.
Joaquim: Ah, sim, você e seus lanches, verdadeira desculpa pra fofocar - brincou.  Tudo bem, gatinha. Vejo você à noite no jantar. Agora... qual é o melhor jeito de evitar uma portinha secreta? -  ele perguntou em voz alta e saiu com os braços esticados, para se proteger. Assim que meu pai chegou à escadaria, apoiou-se no corrimão, bem devagar.
Joaquim: só para você saber, este é seguro.
Juliana: Obrigada, pai. - gargalhei. Acenei com a cabeça e tomei o caminho do quarto. Era quase impossível não dar pulos de alegria pelos corredores: estava tão feliz de ter minha família aqui que mal podia me conter. Se Neymar não me mandasse embora, seria mais difícil do que nunca me separar deles. Dobrei a esquina para o quarto e vi a porta aberta.
Victória: Como ele era? - ouvi ela perguntar, enquanto me aproximava.
Lucy: Bonito. Pelo menos para mim. Seus cabelos eram meio ondulados e nunca ficavam arrumados. - riram.  Às vezes, eu corria os dedos por eles. Penso nisso de vez em quando. Não tanto como antes. - Andei na ponta dos pés para não atrapalhá-las.
Victória:  Você ainda sente saudades dele? 
Lucy:  Cada dia menos. Quando cheguei aqui, pensei que fosse morrer com a dor. Vivia pensando em formas de escapar da mansão e voltar para ele, mas isso nunca daria certo. Não podia abandonar meu pai. - Eu sabia pouco do passado de Lucy, de como sua família concordou pra ela trabalhar fora do país pra conseguir dinheiro de uma operação para sua mãe, que acabou falecendo.  Espiei pela porta e lá estavam Victória e Lucy sobre a cama. As portas da sacada estavam abertas, e a brisa soprava quarto adentro. Vic tinha ficado muito natural com o visual, ela estava linda mesmo sentada na cama fazendo tranças no cabelo de Lucy, que estava solto. Nunca vi Lucy sem coque. Ela ficava linda assim: parecia jovem e despreocupada.
Victória:  Como é amar? - Parte de mim ficou magoada. Por que ela nunca tinha me perguntado isso? Depois, me lembrei: para Vic, eu nunca tinha amado. Lucy abriu um sorriso triste.
Lucy: É a coisa mais maravilhosa e terrível que pode acontecer com você. Você sabe que encontrou algo incrível e quer levá-lo para sempre consigo. E um segundo depois de ter aquilo, você fica com medo de perder. - Deixei escapar um suspiro. Ela estava completamente certa. O amor é um medo belo. Como eu não queria pensar muito sobre perder coisas, entrei no quarto.
Juliana:  Lucy! Olhe para você!
Lucy:  Gostou? 
Juliana:  Está maravilhosa. Vic costumava fazer tranças em mim o tempo todo. Ela é muito talentosa.  - vic deu de ombros. Temos que ficar prontas. É quase hora do lanche.    - Vic ficou toda empolgada e já começou a se arrumar. Lucy puxou os cabelos para trás, mas conseguiu fazer o coque sem bagunçar as tranças. Eu não a culparia por querer que seu cabelo ficasse assim por um pouco mais de tempo.
Lucy:  Ah, você recebeu um email, como o remetente tem que ser supervisionado por mim pra caso haja alguma violação das regras, tomei liberdade e vi que era seu tio Mauro.  - me passou o notebook pra eu olhar.
Juliana:  Obrigada  agradeci, incapaz de esconder o espanto na voz.
A maior parte das pessoas que me escreveria estava na mansão. Abri o email e comecei a ler.

Juliana,
Descobri tarde demais que as famílias da Elite foram há pouco convidadas para conhecer a mansão e que seu pai, sua mãe Lucas e Victória foaram para visitá-la. Sei também que Ieda está ocupada demais para poder viajar. Estou tentando entender por que o convite não se estendeu a mim. Sou seu tio, Juliana.
Só consigo imaginar que sua mãe  decidiu me deixar de fora. Espero muito que não tenha sido você. Nós dois – tanto você como eu – estamos próximos de grandes conquistas. Temos condições de ajudar um ao outro. Se qualquer outro privilégio especial for concedido à sua família, você tem que se lembrar de mim, Juliana. Podemos ajudar um ao outro.
Por acaso você falou de mim para o Neymar? Só por curiosidade.
Responda em breve.
Mauro.

Pensei em excluir o email. Nao imaginava que ele teria a cara de pau de me procurar agora, quando a própria irmã precisava de ajuda, ele virou as costas, agora quer tirar vantagem? Parece que não dei sorte mesmo. Arquivei o email, com a intenção de esquecê-lo completamente. A inveja dele não iria estragar a visita. Lucy me chamou e nos divertimos muito enquanto nos aprontávamos. O jeito efervescente de Victória nos animava; eu até cantei enquanto me vestia. Logo chegou minha mãe, perguntando se estava bonita, por garantia mesmo. E é claro que estava. Ela era mais baixa e cheinha que a Nadine, mas estava tão linda quanto ela. Depois de prontas, descemos as escadas. As meninas estavam animadas, todas explodindo de energia. A irmã de Natalie, Laiane, tinha quase a mesma idade de Victória; as duas se sentaram em um canto e ficaram conversando. Eu via como Laiane era parecida com minha prima. Na aparência, as duas eram magras, loiras e bonitas. Mas no ponto em que vic e eu éramos opostas, Natalie e Laiane eram idênticas. Porém, eu descreveria Laiane como menos caprichosa. Menos sem noção que sua irmã. Nadine passeava pelo salão e falava com todas as mães. Ela fazia perguntas com seu jeito doce, como se alguém ali pudesse ter uma vida mais impressionante que a dela. Eu estava em um grupinho ouvindo a mãe de Elisa falar sobre sua vida na cidade onde morava, quando Vic me puxou de canto.
Juliana: Vic, to conversando menina!  
Victória: Você prexisa ver, vem! - insistiu. Ainda bem que Silvia não estava. Fomos até a janela, e ela apontou para fora. Olha!
Estiquei o olhar para além dos arbustos e vi duas figuras. A primeira era meu pai, que falava e gesticulava com as mãos como se perguntasse ou explicasse alguma coisa. A segunda era o Neymar, que fazia pausas para pensar antes de responder.
Olhei para trás. As mulheres permaneciam entretidas com a situação, mesmo a Nadine nenhuma parecia prestar atenção em nós. Ele parou em frente ao meu pai e falou de uma maneira franca. Não houve agressão ou raiva, mas ele parecia determinado. Depois de uma pausa, meu pai estendeu a mão a ele. Neymar sorriu e a apertou com entusiasmo. Logo em seguida, ambos pareciam mais relaxados, e meu pai deu um tapinha nas costas dele. Então meu pai pôs a mão nos seus ombros, como costumava fazer comigo. E o jogador pareceu gostar muito.
Juliana: O que será que quer dizer isso? - Ela encolheu os ombros.
Vic: Parece importante.
Juliana: Parece. - Esperamos para ver se o Neymar conversava com o pai de outra garota. Se conversou, não foi no jardim.
A festa de halloween foi tao incrível quanto o Neymar tinha prometido. Quando entrei no Grande Salão, com Vic do meu lado, fiquei pasma com toda aquela beleza diante de meus olhos. Tudo estava maravilhoso. Enfeites de parede, os candelabros, copos, pratos, e até a comida: tudo tinha toques dourado. Nada era menos do que magnífico. O som tocava música pop, mas, no canto do salão, uma pequena banda aguardava o momento de tocar as danças que tínhamos aprendido. Câmeras – de foto e vídeo – espalhavam-se pelo ambiente. Sem dúvida, a festa seria o destaque da mídia no dia seguinte. As fantasias estavam maravilhosas. Marlee estava de anjo, dançando com o Gil. Sua fantasia tinha até asas – pareciam feitas de papel brilhante – que pendiam das suas costas. Celeste usava um vestido curto feito de penas; a pluma comprida na parte de trás de sua cabeça indicava que a fantasia era de pavão. Kriss estava ao lado de Natalie, e ambas pareciam ter combinado: o corpete do vestido de Natalie estava coberto de flores abertas, ao passo que a saia de pregas era feita de tule azul. O vestido de Kriss era dourado como o salão e recoberto com camadas e camadas de folhas. Chutei que estavam fantasiadas de primavera e outono. Uma ideia fofa. O de Elise era de seda, um exagero perto das roupas discretas que ela costumava usar. As mangas longas e drapejadas eram dramáticas ao extremo, e sua capacidade de andar com todos aqueles enfeites na cabeça me impressionou. Elise não era de chamar a atenção, mas naquela noite estava linda, com um ar de realeza. Espalhados pelo salão, estavam parentes e amigos, também fantasiados. Vi um jogador de beisebol, um vaqueiro, alguém de terno com um crachá em que se lia GAVRIL. Um dos meninos ousou em colocar um vestido de mulher; estava rodeado por um punhado de meninas que morriam de rir. 
Juliana:  Então, o que você está achando? - perguntei a Vic, mas quando me virei ela já tinha desaparecido na multidão para explorar o lugar. Ela me disse que queria ir fantasiada de noiva, achei que era piada. Mas ela ficou simplesmente ótima de véu.
Jota: Oi Jú! - sussurrou no meu ouvido.
Juliana: Ai menino! Você me assustou! - reclamei, com a mão no coração como se isso fosse diminuir seu ritmo. Jota apenas riu.
Jota: Gostei da fantasia.
Juliana: Obrigada. Também gostei. - sorri. Lucy tinha me transformado em uma borboleta. Meu vestido, bem ajustado, era de um material esvoaçante, com a barra preta ondulando à minha volta. Uma máscara minúscula imitando asas de borboleta me cobria o rosto e criava um ar misterioso. Por que você não se fantasiou? - perguntei segurando o riso, já que sua fantasia era de de monstro. Não conseguiu pensar em algo? 
Jota: Palhaça! - rimos. Minha beleza é natural.
Juliana: ah, claro! - fingi confirmação.
Jota: Só vim dar um “oi” mesmo, ver como você estava.
Juliana: Ah, que fofinho - riu. Obrigada!  - Jota se despediu com um aceno e saiu para falar com outras pessoas.  Logo em seguida, Marlee e Elisa me encontraram e me arrastaram para a pista de dança. Eu balançava o corpo – com cuidado para não acertar ninguém – A Seleção transformava tanto a minha vida que eu me esquecia de apreciar esses momentos. Dancei num círculo com algumas das outras meninas e com os meninos, até que a música parou.
DJ: Boa noite galera, o dono da festa acabou de chegar!  - Neymar tava descendo a escada quando os meninos foram pra cima dele na maior algazarra. A banda explodiu em música. Neymar, beirando o ridículo, estava de pirata. Sua calça estava cheia de rasgões, e ele usava uma camisa folgada com um colete por cima e uma bandana na cabeça. Para impressionar mais ainda, ele tinha ficado um ou dois dias sem se barbear, de modo que uma sombra de pelos  em forma de sorriso cobria a metade de baixo de seu rosto. Enquanto as pessoas dançavam, pensei sobre a Seleção, sobre a loucura de tudo aquilo. Observei os casais, será que  tinha existido algum momento em que eles se distanciaram, como eu sentia neymar se distanciar de mim? Por que ele não tinha feito sequer uma tentativa de me ver em meio aos encontros com todas as outras? Talvez seja esse o motivo de ele ter falado com meu pai: explicar por que ele precisava me mandar embora. Neymar é uma pessoa educada; certamente faria uma coisa assim. Corri os olhos pela multidão, à procura do Jota. No meio desse gesto, vi que meu pai tinha acabado de chegar; estava de braços dados com a minha mãe, no outro lado do salão. Vic estava ao pé de Marlee, que a abraçava por trás, como uma irmã; os vestidos brancos de ambas brilhavam ainda mais com a luz. Não me surpreendia o fato de as duas se darem tão bem em menos de um dia. Respirei fundo. Cadê você, Jota? Olhei para trás – era minha última tentativa – e lá estava ele, bem atrás de mim,  à minha espera. Quando nossos olhos se encontraram, ele piscou para mim, e esse gesto levantou meu astral.
Assim que a música terminou, todos fomos à pista de dança. Osmeninos  passavam de lá para cá e logo arrumavam um par. Neymar permanecia em pé, no canto, com Kriss e Natalie. Fiquei na esperança de que ele me tirasse para dançar. Eu é que não ia chamá-lo. Controlei os nervos, ajeitei o vestido e andei em direção a ele. Decidi ao menos lhe dar a chance do convite. Abri caminho pela pista de dança com a intenção de entrar na conversa dos três. Já estava perto o bastante para dizer algo quando ele olhou para Natalie.
Neymar: Quer dançar? - Ela riu e inclinou a cabeça para o lado como se sua resposta fosse a coisa mais óbvia do mundo. Já eu, passei reto por eles, com os olhos cravados na mesa de chocolates, como se ela fosse meu destino desde o começo. Fiquei de costas para todos enquanto comia aqueles doces maravilhosos, com a esperança de que ninguém reparasse em minhas bochechas vermelhas. Depois de umas seis músicas, o Gil chegou perto de mim.
Gil: Jú, quer dançar?   - ele já estava  alegre. Me senti contaminada por seu entusiasmo e não pensei duas vezes antes de pegar em sua mão.
Juliana: Mas é claro - sorri.  Mas já vou avisanso de que não sou muito boa.
Gil: Não tem problema, a gente vai devagar. - riu. Seu sorriso era tão convidativo que eu nem me preocupei com a minha péssima aptidão para dança. Me deixei levar alegremente para a pista. A música erabem alto astral, assim como a personalidade dele. Ele falou o tempo todo e foi difícil acompanhar seu ritmo. Você parece completamente recuperada da nossa trombada do outro dia - brincou.
Juliana:  Foi uma pena você não ter me machucado, se estivesse de muletas, pelo menos não precisaria dançar. - Ele riu.
Gil: Você é foda, tem razão de ser a preferida dele.  
Juliana:  Não to sabendo disso não. - Parte de mim ficava com muito ódio quando as pessoas falavam isso. Outra parte ansiava para que ainda fosse verdade. Olhei por cima do ombro do Gil e vi o Jota e a Celeste dançando. Senti um nó no estômago. Quase fiquei no soro de tao cansada  depois da música e fui sentar em uma das muitas mesas espalhadas pelo salão. Peguei uma bebida e comecei a me abanar com um guardanapo enquanto observava as pessoas dançarem na pista. Vi Neymar com Elise. Pareciam felizes em meio aos rodopios. Ele já tinha dançado duas vezes com ela e nada de vir atrás de mim. Levei tempo para descobrir onde Jota estava no salão; Por fim, o encontrei em um canto, conversando com Celeste. Ela piscava para ele com um sorriso charmoso nos lábios. Quem ela pensava que era? Roubando meu amigo na cara de pau. Já estava me preparando pra dar na fuça dessa garota, mas pensei bem. Me sentei novamente e voltei a beber meu suco. Quando a música acabou, andei rapidamente na direção dele. Queria ficar próxima o bastante para que ele pudesse me tirar para dançar. Foi o que ele fez. E foi bom, porque acho que eu não teria conseguido segurar meu gênio.
Juliana: Não me faça ter uma decepção com você, menino! Que diabos foi aquilo? - perguntei em voz baixa, mas claramente indignada.
Jota:  Aquilo o que? - falou segurando o riso.
Juliana: Celeste! Todo mundo, menos ela Jota! Ainda por cima se esfregando em você! 
Jota:  Alguém está com ciúmes -  gargalhou.
Juliana: vou dar o ciúmes na sua lata! Essa garota não vale nada. E outra que é contra as regras.
Jota: Quanta implicância, juju! - Fiz uma careta de raiva.
Juliana: você sabe que é verdade!
Jota: bobinha, relaxa! É claro que eu sei. E você e o Juninho? - Respirei fundo e confessei.
Juliana: Ele tem me evitado. Diz oi e tal, mas tem dado muita atenção às outras meninas ultimamente. Acho que cheguei a pensar que ele gostava de mim de verdade.
Jota: Desculpa Jú, não tinha percebido.
Juliana: que nada, me sinto a mais idiota.
Jota: Acredite em mim, Ju, qualquer homem que deixe passar a chance de ficar com você é o idiota de verdade.
Juliana: bobagem - olhei por cima do ombro dele e vi Neymar dançando com Kriss. De novo. Por acaso, ele não me chamaria nem para uma dança? A música seguinte começou a tocar e um cara que estava próximo me chamou para dançar.  A noite continuou, e mais de uma vez me peguei caçando Neymar com o olhar. Embora eu tentasse parecer natural, apostaria que qualquer pessoa atenta teria notado, em especial meu pai, se estivesse no salão. Mas ele parecia mais interessado em passear pela mansão em vez de dançar. Tentei me distrair com a festa e provavelmente dancei com todos os garotos do salão, exceto ele. Me sentei pra descansar meus pés exaustos, e foi nesse momento que ouvi uma voz ao meu lado.
Neymar: Ju? - Me virei, e ele continuou. Quer  dançar comigo? - O sentimento, aquela coisa impossível de definir, percorreu meu corpo. Por mais rejeitada que me sentisse, por mais vergonha que tivesse passado, quando ele me ofereceu aqueles instantes com ele, tive que aceitar.
Juliana: Claro. - Ele tomou minha mão e me conduziu à pista. A banda começou a tocar uma música lenta. Senti uma pontada de felicidade. Ele não parecia irritado ou incomodado. Pelo contrário, Neymar me puxou para tão perto de si que pude sentir seu perfume e sua barba rala contra minha bochecha. Fiquei imaginando se conseguiria ao menos uma dança com você - tentei soar brincalhona. Ele deu um jeito de me puxar ainda mais para si.
Neymar: Eu tava esperando este momento. Passei um tempo com todas as outras garotas para acabar logo com minhas obrigações. Agora, posso desfrutar do resto da noite com você. - Corei, como sempre acontecia quando ele me dizia coisas assim. Às vezes, suas palavras eram como poemas de um verso só. Não me lembro de tê-lo ouvido falar assim comigo ao longo da semana anterior. Meu coração acelerou.  Você está perfeita, Jú. Linda demais para estar nos braços de um pirata desleixado. - Achei graça.
Juliana:  Mas que fantasia você usaria para combinarmos? De árvore?
Neymar:  No mínimo, de algum tipo de arbusto.
Juliana: Pagaria para ver você vestido de arbusto! - falei, entre risos.
Neymar:  Ano que vem.  
Juliana: Ano que vem?
Neymar: Você quer? Quer  outra festa de Halloween no próximo mês de outubro?
Juliana:  E eu vou ta aqui no próximo mês de outubro? - Ele parou de dançar.
Neymar: E por que não estaria? - Encolhi os ombros.
Juliana:  Você me evitou a semana toda. Saiu com outras meninas. E... vi você e meu pai conversando. Pensei que talvez você estivesse lhe contando que teria de dar um pé na filha dele. - Engoli em seco. Não ia chorar ali.
Neymar: Juliana.
Juliana:  Entendi. Alguém tem que sair. Eu sou um pé no saco, Marlee é a favorita do povo...
Neymar: Para, juliana chega!  Eu sou um idiota. Não fazia ideia de que você veria as coisas assim. Pensei que você estava segura na sua condição. - Havia algo aí que ainda não fazia sentido para mim. Ele respirou fundo. Você quer saber a verdade? Eu estava tentando dar uma chance para as meninas competirem. Desde o começo, só olhava para você, só queria você. Quando você me revelou seus sentimentos, fiquei tão aliviado que parte de mim não acreditou. Ainda me esforço para aceitar que aquilo foi real. Você ficaria surpresa se soubesse como é raro eu conseguir algo que eu realmente queira de verdade. - Os olhos dele escondiam alguma coisa, uma tristeza que ele não estava preparado para expressar. Ele afastou aqueles pensamentos e continuou sua explicação. Tinha medo de estar errado, de você mudar de ideia a qualquer minuto. Procurei uma alternativa adequada, mas a verdade é...  que só existe você. Talvez eu não esteja procurando de verdade, talvez elas não sirvam para mim. Não importa. Só sei que quero você. E isso me assusta. Esperava que você fosse voltar atrás, implorar para sair. - Levei uns momentos para recuperar o fôlego. De repente, todo aquele tempo afastada dele me pareceu diferente. Compreendia essa sensação: de que era bom demais para ser verdade, bom demais para confiar. Me sentia assim todos os dias em que estava com ele.
Juliana:  Neymar, isso não vai acontecer -  sussurrei, com a boca próxima ao pescoço dele. No máximo, você vai perceber que não sou boa o suficiente. - Os lábios dele chegaram ao meu ouvido.
Neymar:  Você é perfeita. - Puxei-o contra meu peito, e ele fez o mesmo. Ficamos mais próximos do que nunca. No fundo da minha mente, uma voz me dizia que estávamos em um salão lotado, que ali, em algum lugar, estava minha mãe, provavelmente desmaiando com a cena. Mas nada importava. Naquele momento, parecíamos ser as únicas duas pessoas no mundo. Afastei um pouco o rosto para ver ele, e percebi que para isso teria que limpar as lágrimas dos olhos. Só que eu gostava daquelas lágrimas. Neymar explicou tudo. Quero que as coisas aconteçam no tempo certo. Vou anunciar a dispensada de amanhã, para a alegria do povo e de meu pai. Não quero apressá-la, de forma alguma. Em breve, quando eu encerrar a Seleção, quando pedir sua mão em casamento, quero que isso seja tão fácil quanto respirar para você. Prometo fazer tudo que estiver ao meu alcance para que as coisas sejam assim. O que você precisar, o que você quiser: basta dizer, e farei tudo que puder para ajudá-la. Isso incluiu ajudar sua mãe! - Fiquei chocada. Ele me entendia tão bem. Sabia como eu estava nervosa com aquele compromisso, como me amedrontava a perspectiva de ser mulher dele. Ele estava disposto a me dar até o último segundo que podia e, até lá, me encher de todos os presentes possíveis. Tive outra vez a sensação de que era impossível crer que aquilo estava acontecendo.
Juliana: isso não é justo Neymar - murmurei. O que eu poderia te  dar em troca? - Ele sorriu.
Neymar:  Tudo o que quero é  você, fica comigo mulher! Me promete que vai ficar.
Juliana: Claro que prometo. - Depois disso, apoiei a cabeça sobre seu ombro e dançamos agarrados uma música atrás da outra. Houve um momento em que meu olhar e o de Vic se cruzaram; ela parecia prestes a morrer de felicidade por nos ver juntos. Minha mãe e meu pai também nos viram, sendo que meu pai sacudia a cabeça como se dissesse “e você achando que ia ser mandada embora”. E então algo me veio à cabeça. Neymar?  
Neymar: Oi gatinha  - Ser chamada daquele jeito me fazia sorrir, era um apelido idiota, mas que ele fazia questão de usar comigo.
Juliana: O que você estava conversando com meu pai? - ele achou graça na pergunta.
Neymar:  Ele sabe das minhas intenções. E saiba que ele as aprova de coração, desde que você seja feliz. Foi essa a única condição dele. Assegurei a ele que faria tudo o que estivesse ao meu alcance para vê-la feliz, aliás disse que você já parecia muito contente de estar aqui.
Juliana: E estou. - Senti o peito dele inflar.
Neymar:  Então ele e eu já temos o que precisamos. - A mão do Neymar deslizou para o fim das minhas costas, me incentivando a não me afastar dele. Seu toque me revelava tantas coisas. Eu sabia que aquilo era real, que estava acontecendo, que eu podia acreditar. Eu sabia que abriria mão das amizades feitas na mansão se necessário, embora tivesse certeza de que Marlee não se importaria nem um pouco com a derrota.  Teria que apagar qualquer mal entendido e deixar meu coração novinho, porque então eu era dele. Eu sabia. Nunca estive tão certa. Pela primeira vez, eu via. Via o corredor, os convidados se levantando, e ele de pé, na outra ponta. Graças àquele toque, tudo fazia sentido. A festa avançou pela madrugada, até Neymar arrastar nós seis para a sacada na frente da mansão para que pudéssemos ter a melhor visão dos fogos de artifício. Celeste tropeçava pelos degraus de mármore, enquanto Natalie tinha arranjado um chapéu de algum dos convidados. O champanhe rolava solto, e Neymar comemorava antecipadamente nosso noivado com uma garrafa apenas para ele. Assim que os fogos iluminaram o céu, ele ergueu sua garrafa.
Neymar: Um brinde!  - Nós erguemos as taças e esperamos ansiosas. Notei que a taça de Elisa estava manchada com o batom preto que ela tinha usado. Até mesmo Marlee levantava sua taça, discretamente, bebericando em vez de dar goles grandes. A todas vocês, e à minha futura mulher!
As garotas vibraram; cada uma pensou que o brinde era para si. Só que eu sabia a verdade. Quando todas baixaram as taças, vi Neymar – meu quase noivo – me dando uma piscadela antes de beber mais um gole de champanhe. O brilho e a emoção ao longo da noite inteira eram estonteantes. Era como se uma fogueira de felicidade me engolisse por completo. Não podia imaginar nada forte o bastante para roubar aquela felicidade.