quinta-feira, 12 de abril de 2018

Capítulo 15: "Você é a única garota que desejei de verdade nesse concurso, e eu sei que é errado"






"Precisava de um ombro amigo, nesse momento percebi que ninguém se encaixava tão bem quanto Jota"




Tanto meus machucados quanto os de Celeste eram mínimos, prova disso é termos  voltado pros nossos quartos logo. Houve um intervalo entre nossas altas pra não sairmos juntas. Assim que dobrei o corredor, vi o Jota caminhar até mim. Mesmo não convivendo a vida toda com ele, já começava a sentir um grande carinho. Sempre foi sincero comigo, se tudo desse errado, é com ele que eu podia contar.  
Jota: Como você tá?
Juliana: To bem, não foi nada demais.
Jota: Vou passar lá no seu quarto depois, pode ser?
Juliana: Pode sim. - acenei com a cabeça pra ele e resolvi seguir. A porta tava encostada, fiquei aliviada de ver que Lucy não tava. Fui até o meu jarrinho sobre o criado-mudo e reparei que o mesmo tinha companhia. Abri a tampa e peguei a folha de papel dobrada. Que esperteza dele: Lucy nunca notaria. E se notasse, não invadiria minha privacidade. Abri o bilhete e li uma série de instruções muito claras. Parecia que Jota e eu tínhamos um encontro naquela noite. As instruções dadas por ele eram complicadas, tomei  um puta caminho indireto para chegar no primeiro andar, onde deveria procurar pela porta próxima a um vaso de um metro e meio de altura. Lembrei de ter visto nas minhas andanças pela mansão. Que tipo de flor precisava de um vaso tão grande? Frescura, claro! Encontrei a porta e olhei pros lados pra garantir que não tinha ninguém por perto. Nunca tinha conseguido me ver totalmente livre dos olhos dos seguranças, nem unzinho à vista. Abri a porta devagar e entrei na ponta dos pés. O brilho da lua atravessava a janela e essa pouca iluminação me deixava um tanto nervosa.
Juliana: Jota? - Sussurrei no escuro, um pouco de cagaço, talvez muito, mas me sentindo meio boba ao mesmo tempo.
Jota: Aqui, Jú - respondeu, embora eu não tivesse a mínima ideia de onde ele estava.
Juliana: Cadê você?  - A sombra das cortinas da janela balançou à luz da lua, e ele surgiu por detrás delas.
Juliana: Menino, Você me assustou - reclamei, de brincadeira.
Jota: Não foi a primeira vez, nem será a última - não vi, mas pela sua voz sabia que ele tava sorrindo. Fui até ele, não sem tropeçar em todos os obstáculos daquele cômodo. Shhh! - reclamou, mas eu sabia que era brincadeira. A mansão inteira vai saber que estamos aqui se você continuar arrastando as coisas desse jeito.
Juliana: Desculpa - ri baixo. Por que a gente não ascende a luz?
Jota: Tá doida? Se alguém nota o brilho debaixo do vão da porta, tamo fodido. Não tem paz nessa casa até o fim do concurso, sempre vai haver um fotógrafo pra gravar cada segundo. Essa sala não é muito vigiada, mas não quero vacilar. - Estendi a mão pra tentar encontrá-lo. Consegui tocar seu braço e ele me puxou pra me dar um abraço, depois caminhamos pro fundo da sala.
Juliana: Como você sabia desse lugar? Já andou trazendo outras concorrentes pra cá, garoto?
Jota: Quem sabe? Rapaz, boa ideia, Celeste ia adorar - falou prendendo o riso e eu instantaneamente meti o tapa no braço dele. Aiii! - alisou o local onde bati, rindo.
Juliana: Palhaço! - acabei rindo também.
Jota: Mas pateta, eu moro com o Juninho, como não ia saber? Conheço tudo na mansão, tanto por fora como por dentro. Se um dia você quiser espionar, conhecer por aí, eu sou o cara pra te ajudar.
Juliana: Uau! - Nos sentamos atrás do grande encosto de um sofá, o chão estava coberto pela luz da lua. Por fim, vi o rosto do Jota. Tem certeza de que isso é seguro? - Se ele hesitasse por um segundo, eu sairia correndo imediatamente, pro bem de ambos.
Jota: Confia em mim, Jú. - Minha preocupação persistiu mesmo assim, só que precisava tanto de conforto, que decidi seguir com aquilo. Ele me envolveu num abraço e me puxou para si, fiquei um tanto surpresa, mas era disso que precisava. Como vão as coisas? 
Juliana: Tudo bem, eu acho. Muita tristeza, muita raiva. Meu maior desejo é apagar os últimos dois dias e trazer Marlee pra cá de volta. Gil também, embora nem o conhecesse direito.
Jota: Já eu, o conheço muito bem. - respirou fundo. O Gil é um cara do bem, sempre foi parceiro. A real é que depois que esse programa começou, tudo mudou. Nada parece normal, tudo pode dar problema, parece que viramos robôs. Tive certeza disso, depois desse episódio com Marlee. Xingar a menina por ela não gostar de um cara é bizarro! Mas pude ver que Gil gosta mesmo, vi ele dando apoio pra ela o tempo todo.
Juliana: É verdade, eu também vi, pelo menos no começo. Fui tirada de lá antes de terminar.
Jota: To orgulhoso de você por não ter saído de lá sem brigar. Mostrou que tem juízo em não concordar com tudo aquilo.
Juliana: Meu pai também tava orgulhoso. A dona Nadine disse que eu não devia agir daquele jeito, mas que estava feliz por mim. Confuso. Como se quase tivesse sido uma boa ideia, mas não. E, no final, não mudou nada.
Jota:  Foi uma boa ideia. Significou muito, pelo menos pra mim.
Juliana: Pra você? - Ele respirou fundo, mais uma vez.
Jota: Você é especial, acima de tudo isso aqui é uma amiga que quero levar independente. Seu jeito que me faz sentir isso, então de vez em quando fico pensando sobre como a Seleção fez você mudar. Você tá rodeada de cuidados, e tudo é tão maravilhoso. Me pergunto se você é a mesma Juliana, carioca da gema que não deixa o poder, a fama ou dinheiro lhe subirem a cabeça. Sua atitude me mostrou que você é, que eles ainda não te ganharam.    
Juliana: Ah, eles já me ganharam, mas não a esse ponto. Na maior parte do tempo, esse lugar me lembra de que não nasci para isso.
Jota: Escuta Ju, em relação ao Juninho, acho que nem preciso te dizer. Apesar de tudo que dizem e do que aparentam, ele é só uma pessoa normal, e tem problemas como todo mundo. Sei que você se preocupa com ele, ou não estaria mais aqui. Só que você precisa saber que isso tudo - frisou em aspas -  não é real. - Concordei com a cabeça. O Neymar e toda aquela conversa de manter a calma. Era isso que fazia sempre? Será que atuava quando a gente estava juntos? Como eu ia saber? É melhor você saber agora. E se você descobrisse depois do casamento que as coisas são assim?
Juliana:  Eu sei. Andei pensando nisso. - As palavras dele na pista de dança se repetiam muitas vezes na minha cabeça. Ele parecia tão certo sobre nosso futuro, preparado para me dar tanto... Eu realmente tinha acreditado que tudo o que ele queria era a minha felicidade. Será que ele não reparava como eu estava infeliz?
Jota: Você tem um coração grande, Ju. Eu sei que você não consegue simplesmente deixar as coisas pra trás. Mas não há nada de errado em desejar. É isso.
Juliana: To me sentindo tão idiota 
Jota: Você não é idiota.
Juliana: Sou sim.
Jota: Você me acha inteligente?
Juliana: Claro.
Jota: É porque eu sou. Na verdade, sou inteligente demais, pra gostar de uma menina idiota. Então trate de parar com isso agora! - Ri baixo e deixei ele me abraçar. Era estranho ouvir da boca dele o que eu já imaginava desde que li seu bilhete pra vir até aqui.
Juliana: Não entendo como você  pode gostar de mim no meio disso tudo. - Ele deu de ombros.
Jota: As coisas são assim. O céu é azul, o sol é quente, e Jota se apaixonou pela candidata do amigo... O mundo foi feito pra ser assim. De verdade, Ju , você é a única garota que desejei de verdade nesse concurso, e eu sei que é errado, mas não posso imaginá-la com outra pessoa, mesmo que essa seja meu irmão, meu melhor amigo. Tô tentando me preparar pra isso,  e... até agora não consegui. - Passamos uns instantes ali, sentados. As carícias dos dedos dedos dele hora ou outra, eram um friozinho na barriga a mais pra mim. Não podemos ficar muito tempo mais aqui. Confio muito na minha habilidade, mas não quero forçar. Comecei a me levantar e ele deu um salto e me puxou para cima, emendando um abraço, o último. Me desculpe pelo Juninho, por ter se mostrado tão "ruim". Independente de qualquer coisa, não queria te ver magoada.
Juliana: Obrigada.
Jota: É sério.
Juliana: Eu sei. Mas ainda não acabou, não enquanto eu estiver aqui.
Jota: É, to te conhecendo garota - riu.  Você vai continuar pra que sua família receba o dinheiro e a gente possa se ver, claro. - gargalhei. Só que acho que o Neymar só teria uma chance se pudesse voltar no tempo. - Respirei fundo. Jota talvez estivesse certo, minha relação com o Neymar se desfazia aos poucos, como um casaco que eu estivesse desabotoando. Não se preocupe, Ju. Vou tomar conta de você.
Ele não  tinha como provar suas palavras naquele momento, mas eu acreditei. Ele tinha coração bom, fazia o possível por aqueles que gostava e eu tinha certeza de ser alguém de quem gostava.
Na manhã seguinte, deixei meus pensamentos voarem até Jota enquanto me arrumava, durante o café e  mais tarde ao longo das minhas horas no Salão das garotas. Estava alegre até que o barulho de uma pilha de papéis atirada na minha mesa me trouxe de volta à realidade. Levantei a cabeça e vi Celeste, ainda exibindo um lábio inchado. Ela apontou para uma das suas revistas de fofoca e abriu um artigo de duas páginas. Em menos de um segundo, reconheci o rosto de Marlee, mesmo que escondido nas mãos pela vergonha.
Celeste: Acho que você devia ver isso - falou e saiu. Não sabia bem o que ela queria com aquilo, mas estava tão ansiosa para saber qualquer coisa de Marlee que me concentrei no texto.

Dentre inúmeros reality's já apresentados, talvez nenhum tenha explodido tanto a audiência como a seleção. Criada especialmente para possibilitar mais o contato e alegria do nosso craque brasileiro Neymar Júnior, com o público, o concurso ainda gera suspiros pelo desenrolar de um romance entre um homem e uma mulher. Quando Neymar em plena copa foi lesionado, o país inteiro sofreu sua dor. Cada brasileiro sentia a necessidade de mandar uma energia positiva, já que era o mais próximo de um abraço que teria. Com isso, nasceu a seleção. Muito mais que um concurso, ela se mostra uma companheira, onde Neymar pode enxergar nela, pessoas que lhe desejam o bem e torcem por sua felicidade. 
No entanto, fomos forçados a questionar a eficácia de tal competição. Embora seja, no fundo, uma ideia romântica, alguns dizem que é injusto forçar o craque a casar-se com uma mulher ' desconhecida'. Por outro lado, ninguém pode negar a prudência e a beleza desse feito se desse certo. Apesar de estarmos tratando de vidas reais e não conto de fadas, a decência ainda é um princípio a se preservar.
Logo, o que podemos dizer ao certo é que o comportamento das mulheres na mansão a essa altura não é senão escandaloso. Marlee Tames, que era uma das candidatas do concurso, foi pega com um dos amigos de Neymar que a despia em um corredor, na segunda-feira, após a festa de Halloween, anunciada como o destaque dos programas sobre a Seleção na TV. A grande festa, no entanto, foi totalmente ofuscada pelo comportamento inconsequente da jovem, o que deixou a mansão ainda mais à flor da pele já na manhã seguinte.
Contudo, pondo de lado as ações injustificáveis de Marlee, as garotas remanescentes na mansão talvez também não sejam boas concorrentes. Uma fonte não identificada contou-nos que algumas moças não se bicam e que raramente se esforçam para cumprir seus deveres. Todos se lembram da exclusão de Anna Gomes no começo de setembro depois de atacar gratuitamente a adorável Celeste, modelo de Brasília. E nossa fonte confirma que esse não foi o único caso em que as competidoras partiram para as vias de fato na mansão, o que força esse jornalista a questionar o grupo de moças escolhidas para o nosso craque Neymar Jr. 
Pedimos ao Senhor Neymar Pai que comentasse esses rumores. Em suas palavras: “Algumas garotas vêm de realidades completamente diferentes e não estão familiarizadas com essa vida midiática.  Evidentemente, a senhorita Tames não estava preparada para a vida de uma pessoa pública. Esse é o caso de algumas das participantes  na atual Seleção, devo reconhecer que já esperávamos isso”.
Embora Natalie e Elisa sejam mais tímidas mediante às câmeras, sempre exibiram o maior dos refinamentos diante do público; a senhorita Elisa principalmente, que é bastante sofisticada. Somos forçados a deduzir que Neymar Pai se refere a Juliana Magaldi, a única jovem de renda mais baixa a ir além do primeiro dia. O desempenho da senhorita Juliana na Seleção tem sido razoável. Ela é suficientemente bela, mas não é bem o que o Brasil espera como primeira dama do craque. De vez em quando, suas entrevistas no programa são divertidas, mas queremos uma vencedora, não uma comediante.
Outra notícia problemática: ouvimos relatos de que ela  tentou livrar  Marlee de sua punição, ato que, aos olhos desse repórter, faz dela uma cúmplice das atividades traiçoeiras de que Marlee Tames participou, mostrando infidelidade ao nosso Jogador.
Diante de tantos relatos (e com Tames longe do primeiro lugar), permanece a pergunta: quem deve ser a campeã?
Uma rápida pesquisa com leitores confirmou aquilo que suspeitávamos há tempos.
Parabenizamos as senhoritas Celeste e Kriss por seu empate no primeiro lugar da pesquisa. Elisa está em terceiro lugar, com Natalie logo atrás. Bem atrás do quarto lugar, aparece Juliana em quinto e (como esperado) último lugar."



Corri para fora do salão. Era evidente que Celeste não me fizera um favor; ela quis me mostrar meu lugar. Por que eu me incomodava com isso? O pai dele esperava meu fracasso, o público não me queria, e eu tinha certeza de que não poderia ser a vencedora. Subi as escadas rápida e silenciosamente, tentando não chamar a atenção. Não havia como saber quem era a fonte não identificada da mansão.
Lucy: Ju? Pensei que fosse ficar no salão até o almoço.
Juliana: Você poderia sair, por favor?
Lucy: O que aconteceu? - Bufei de raiva, mas tentei não perder a paciência.
Juliana: Preciso ficar só. Por favor. - Ela apenas assentiu e saiu sem dizer uma palavra. Me sentei ao piano. Tentei me distrair até não pensar mais naquilo. Toquei algumas músicas que sabia de cor, mas foi fácil demais. Precisava me concentrar de verdade. Me levantei e revirei a banqueta do piano em busca de algo mais difícil. Folheei várias partituras até dar com a lombada de um livro.  Me dediquei nos próximos vinte minutos exclusivamente à um solo. Naquele momento era tudo que eu tinha.
Jota me visitou naquela noite, morri de vontade de contar a ele as novas notas  que tinha aprendido, mas me contive porque sei que ele não era obrigado a me aturar falando pelos cotovelos.
Jota: Como vão as coisas?
Juliana: Tudo bem, eu acho. Celeste me mostrou este artigo hoje - comentei, e depois balancei a cabeça. Não sei se quero falar disso, to cansada dela.
Jota: Acho que com Marlee fora, ele vai demorar para dispensar alguém... - Dei de ombros. Sabia que o público tava ansioso por uma eliminação, e o que aconteceu com Marlee foi mais dramático do que o esperado.  Ei, vai ficar tudo bem.
Juliana: Eu sei. Só sinto saudades dela. E estou confusa.
Jota: Confusa sobre o quê?
Juliana: Sobre tudo: o que faço aqui, quem sou eu. Pensei que soubesse... Não sei nem explicar direito. - Aquele parecia ser o meu problema. Todos os meus pensamentos estavam embaralhados. Não conseguia organizá-los.
Jota: Você sabe quem é, Jú. Não deixe eles mudarem você. - A voz dele era sincera. Me senti segura por um minuto. Não porque tivesse as respostas, mas porque tinha ele. Se algum dia perdesse de vista quem eu realmente era, ele estaria lá para me conduzir de volta.
Juliana: posso te perguntar uma coisa?- Ele concordou. É meio estranho. Se para ser desse mundo eu não precisasse casar com ninguém, se fosse apenas um cargo que eu pudesse escolher, lidar com a popularidade e tudo isso que estar na mídia produz, você acha que eu seria capaz?
Jota: Desculpa, Jú. Não acho! Você não é fria e calculista como eles.
Juliana: Calculista? Como assim? - Ele respirou fundo.
Jota: Tô em toda parte, Jú. Escuto muita coisa. Você é doce, tem compaixão. Tem coisas que a fama proporciona que não valem à pena.
Juliana: Isso não explica o que você quis dizer com calculista 
Jota: Todos os dias o Juninho é apontado, xingado ou coisas do tipo. As pessoas medem seu caráter por cima de boatos, coisas que sequer aconteceram. Ele é incrivelmente agradecido por todo carinho e reconhecimento do seu trabalho. Mas tem coisas que por mais luxo tenha, não valem à pena. Você é maravilhosa, não consigo imaginar você agindo com frieza à troco de mídia. - Fiquei aérea. Concordei! Fiquei uns minutos em silêncio refletindo, minhas atitudes, minhas escolhas, o que eu queria... Jota me abraçou e ficamos assim por um tempo. Ele era incrível demais! Pode parecer tolice, mas queria chorar. Era inevitável, um instinto natural, comparar Jota com Neymar. Mesmo naquele momento, quando o pensamento de ter que escolher entre um ou outro ia tão distante, eu os punha lado a lado.
Para Neymar, parecia ser muito fácil me dar coisas. Ele tinha tudo! Do outro lado, estava Jota me dando preciosos momentos roubados e a impressão era de que ele me dava muito mais. Afastei novamente a vontade de chorar.
Juliana: Não sei como fazer isso agora. Sinto que não sei mais fazer nada. Eu... eu não esqueci você, certo? Você ainda está aqui. - Levei as mãos ao peito. Por um lado para mostrar o significado de minhas palavras a ele; por outro, para aliviar o desejo estranho que estava ali. Ele compreendeu.
Jota: Isso basta para mim.












Tô viva!

quarta-feira, 22 de março de 2017

Capítulo 14: "Sei que você odeia a Seleção, mas sei que se importa comigo o bastante pra não me abandonar assim."



"Sentia um fardo, estava exausta.  Não sabia mais se queria me submeter aquilo"





Mal consegui dormir. A festa terminou tarde e eu ainda tinha que lidar com meu entusiasmo pelo que estava por vir, ou seja, era impossível. Abracei Vic mais forte, seu calor me confortava. Vou sentir muito a sua falta quando ela for embora, mas pelo menos tinha a perspectiva de tê-la morando aqui comigo em breve. Fiquei imaginando quem seria dispensada. Não me pareceu de bom tom perguntar, tanto que não perguntei. Mas se quisessem mesmo minha opinião, meu palpite seria Natalie. Marlee e Kriss eram as preferidas do público (mais do que eu) e Celeste e Elisa tinham seus contatos, ou melhor "prestígio social". Eu tinha o coração do Neymar. No fim, Natalie não tinha no que se segurar. Me senti mal, porque não tinha nada contra ela. Na verdade, meu desejo era ver Celeste fora. Talvez ele a mandasse para casa, pois sabia o quanto eu não gostava dela, e ele tinha dito que queria me ver à vontade na mansão. Só de lembrar, suspirei. Pensei em tudo o que ele me falou na noite anterior.  Na minha cabeça eu havia criado uma escala, de 1 à 8. Pode parecer idiota, mas me ajudava a localizar minha posição aqui. 1 seria o patamar mais alto, e 8 o mais baixo. Dentre eles eu me considerava uma 5, e Neymar com certeza era 1. Me comparando às outras concorrentes, minha posição era bem baixa. Só os trabalhos de Celeste já a colocava entre 2,3. Enfim, nunca tinha imaginado que isso era possível.   Como eu, Juliana Magaldi - uma 5, uma ninguém – fui me apaixonar por Neymar Júnior, jogador de futebol, o 1? Como isso tinha acontecido comigo, que tinha passado os últimos dois anos me preparando para permanecer no meu 5? Como lidar com a ideia de que Neymar havia escolhido a mim e que eu queria ficar com ele? Lucy bateu na porta e entrou em seguida. Ela sempre tentavam me deixar descansar o máximo que eu pudesse, e depois da festa eu estava mesmo precisando de descanso. Mas em vez de começar a aprontar as coisas, ela se aproximou de Vic pra acordar ela. Rolei na cama para ver o que se passava e dei com um saco de roupas. Outro vestido novo?
 Lucy: Victória, é hora de levantar. - sussurrou. 
  Vic: Não posso dormir mais?
Lucy: Não, temos negócios importantes agora de manhã. Você tem que ir com seus tios imediatamente.
Juliana: Negócios importantes? O que está acontecendo? - Lucy olhou pra mim, balançou a cabeça e foi só. Confusa, mas esperançosa, saí da cama e incentivei Vic a fazer o mesmo. Dei um abraço forte antes de ela ir para o quarto dos meus pais. Agora, já pode me explicar! Por que ela saiu? - Lucy mais uma vez balançou a cabeça. Frustada, bufei de raiva. Ajudaria se eu mandasse você me falar? - Ela me encarou, cheia de solenidade.
Lucy: Desculpa Ju, minhas ordens  vêm de muito mais alto. Você vai ter que esperar. - Fiquei na porta do banheiro, observando os passos dela. As mãos de Lucy tremiam enquanto ela preparava minhas coisas. Mas na verdade isso era o de menos, era o olhar dela que me assustava. Ela costumava estar sempre composta, mesmo nas situações mais medonhas e estressantes, mas hoje se movia como se tivesse dois sacos de areia nas costas, estava curvada de tantas preocupações. A todo instante, fazia uma pausa e esfregava as mãos na testa, como se assim pudesse suavizar a ansiedade em seu rosto. Observei enquanto ela descobria o vestido. Era modesto, simples... e negro. Assim que olhei para o vestido soube que ele só poderia significar uma coisa. Comecei a chorar antes mesmo de saber por quem.
Lucy: Ju? 
Juliana:  Quem morreu? - Ela me puxou e enxugou minhas lágrimas.
Lucy: Ninguém morreu - ela respondeu, mas sua voz não era reconfortante; era rígida. - Agradeça aos céus por isso quando tudo acabar. Ninguém morreu hoje. - Ela não me deu maiores explicações e me mandou direto para o banho.  Quando terminei, Lucy entrou no quarto  com alguns croissant's e pedaços de maçã. Quis me sentar e comer devagar, prolongando ao máximo o momento, mas bastou uma mordida para perceber que a comida e eu estávamos brigadas naquele dia. Por fim, ela pôs em meu peito o broche com meu nome; o prateado do broche ficava ainda mais lindo contra o preto do meu vestido. Não me restava mais nada a fazer senão enfrentar esse destino inimaginável. Abri a porta do quarto e congelei. Voltei-me para Lucy e deixei escapar meu medo:
Juliana: Estou assustada. - pondo as mãos sobre meus ombros ela falou:
Lucy: Você  é uma "dois" agora, não é assim que gosta de se nomear? Precisa enfrentar a situação como uma adulta, minha menina.  - Inclinei a cabeça levemente quando ela me soltou, tirou minhas mãos do batente da porta e saiu. Queria poder dizer que caminhei com a cabeça erguida, mas, para ser sincera, adulta ou não, eu estava aterrorizada. Para minha imensa surpresa, ao chegar no salão, encontrei as demais garotas. Seus vestidos eram parecidos com o meu e elas tinham a mesma expressão no rosto que eu. Senti uma onda de alívio. Eu não estava encrencada. Quando muito, todas estávamos, e pelo menos eu não passaria por tudo isso (seja lá o que fosse) sozinha.
Silvia: Aí está a quinta. Sigam-nos, garotas. - Quinta? Não estava certo. Éramos seis. Corri a vista pelas outras enquanto descíamos as escadas. Ela tinha razão. Apenas cinco. Marlee não estava lá. Meu primeiro pensamento foi de que Neymar tinha mandado Marlee para casa. Mas será que ela não passaria no meu quarto para dar tchau? Tentei pensar em alguma relação entre todo esse segredo e a ausência de Marlee, só que nenhuma ideia fazia sentido. Ao pé das escadas, os amigos do Neymar nos esperava. Lá também estavam nossas famílias. Meus pais, Lucas e Vic pareciam ansiosos. Todos pareciam ansiosos. Olhei pro meu pai e minha mãe, em busca de alguma luz, mas minha mãe balançou a cabeça e meu pai levantou os ombros. Procurei o Jota entre os meninos, mas ele não estava lá. Vi dois homens acompanhando os pais de Marlee para o fim da nossa fila. A mãe estava curvada de preocupações e apoiava-se no marido, cuja expressão de dor dava a impressão de que envelhecera anos em uma só noite. Não. Se Marlee tinha saído, por que eles ainda estavam lá? De repente o salão foi invadido pela luz. Pela primeira vez desde minha chegada, as portas da mansão foram escancaradas, e todos fomos conduzidos para fora. Cruzamos a pequena pista circular da garagem e fomos além do Jardim que cobria a mansão. Os portões se abriram com um rangido, e logo fomos saudados pelo barulho ensurdecedor de pessoas que estavam ali presentes. Um palanque foi montado. Várias pessoas se encontravam ali, crianças sobre os ombros dos pais, câmeras espalhadas ao redor, membros da equipe de produção correndo diante deles para captar aquelas cenas. Fomos levados para uma pequena arquibancada, e eles nos ovacionavam conforme caminhávamos. Pude notar a tensão desfazendo-se nos ombros de cada uma das meninas à minha frente à medida que o povo nas ruas gritava seus nomes como sinal de torcida. Acenei pras pessoas ao ouvir meu nome. Me senti tão boba por ter ficado preocupada. Se as pessoas estavam felizes daquele jeito, então nada de mal poderia estar acontecendo. Os funcionários da mansão realmente precisavam repensar o modo como lidavam com a 'Elite'. Toda aquela ansiedade por nada. Vic sorria, feliz por ser parte daquela emoção, e eu estava aliviada por vê-la à vontade mais uma vez. Tentei me concentrar em todos os fãs (ridículo pensar que tenho isso), mas me distraí com dois lugares estranhos em cima do palanque. Sentei no meu assento no meio da primeira fileira e tentei imaginar o que estava acontecendo. As 'neymarzetes' explodiram em gritos quando Nadine, e os Neymar's apareceram. Não pude deixar de reparar  que a roupa deles também soava um tanto fria, sem contar na seriedade de seus rostos. Como eu estava próxima do Neymar, voltei o olhar em sua direção. Não importava o que fosse, se ele me olhasse e sorrisse, eu saberia que tudo estaria bem. Desejei que ele me olhasse, que me desse algum sinal. Mas seu rosto estava impassível. Um momento depois, os gritos se  transformaram em vaias e ofensas. Procurei ver o que os deixava tão raivosos. Meu coração subiu pela garganta. Era como se meu mundo caísse. Os meninos ajudaram o Gil a subir no palanque, sua cara pós festa estava horrível. Parecia estar de ressaca. Atrás dele,  estava Marlee,  sua linda fantasia de anjo estava toda bagunçada e sem as asas. Um paletó cobria seus ombros arqueados, ela caminhava com os olhos baixos para evitar a luz. Ela observou a multidão e nossos olhares encontraram-se por uma fração de segundo antes de chamarem ela mais uma vez. Ela levantou os olhos novamente, à procura de alguém. Eu sabia quem. À minha esquerda, os pais de Marlee observavam tudo, se abraçando forte. Estavam visivelmente chateados, em outro lugar, como se seus corações tivessem deixado seus corpos. Voltei a olhar para Marlee e para o Gil. Apesar dos rostos claramente angustiados, ambos caminhavam com um certo orgulho. Não. Não, não, não, não, não. Assim que os dois subiram ao palanque, um homem da produção pediu silêncio. Meu corpo se contorcia, minha barriga gelava. Ainda bem que eu não tinha comido. Me controlei e ouvi ele falar.
xxxx:  Marlee, uma das participantes da seleção, a partir de hoje, não faz mais parte do concurso. O motivo, todos ficaram sabendo essa madrugada e não tem como ocultar à vocês.  A jovem foi pega quebrando uma das regras do concurso, quando se relacionou com o amigo de Neymar, Gilmar. - A voz dele transbordava um excesso de arrogância, como se estivesse ditando a cura para uma doença mortal. As pessoas mais uma vez vaiaram as acusações. Mas como as pessoas podiam concordar com isso? Não sabiam que se tratava de Marlee? A doce, bela, confiável e generosa Marlee? Talvez ela tivesse cometido um erro, mas nada que merecesse tamanho ódio e essa palhaçada toda! Enquanto ele cuspia as acusações, ela só chorava.  Quebra de contrato é crime, mas Neymar ainda a poupará de alguma briga judicial e lhe dará o direito de ir embora sem prestar conta de nada. - As pessoas aplaudiram sua atitude, foi o que as garotas ao meu redor também fizeram, bem como nossos pais, mesmo em choque com tudo aquilo. Eu não prestei atenção neles, porém. Só via os rostos de Marlee e Gil. Não foi à toa que nos deram assentos na primeira fileira: queriam nos mostrar o que aconteceria se cometêssemos um erro idiota como esse. Só que de onde eu estava, a menos de seis metros do palanque, podia ver e ouvir tudo o que realmente importava. Marlee encarava Gil, que devolveu aquele olhar. Era impossível não notar o receio de ambos, mas havia no rosto dela algo que tentava dizer a Gil que ele valia tudo aquilo.
Gil:  Eu te amo, Marlee - ele disse para ela. Mal foi possível ouvi-lo com o barulho da multidão, mas a declaração foi feita. Vamos ficar bem, eu prometo. Marlee estava tão envergonhada que não pôde responder, mas fez que sim com a cabeça. Naquele momento, eu só podia pensar em como ela estava linda. Seus cabelos dourados estavam uma bagunça, o vestido era um desastre e seus sapatos tinham ficado em algum lugar no caminho. Mas, Deus, ela parecia radiante. Aquele cara, falou tantas coisas que na minha ideia de contagem, parecia que ele tinha destituído Marlee e Gil para as menores posições que existisse, um 9, por exemplo. O cara tinha dito ainda por cima que por todo o papelão que fizeram, os dois teriam que ir embora da mansão e se virarem pra voltar pra casa, pois o programa não cobriria gastos de quem rompe contratos. Tipo, o quê?  O povo ria daquilo tudo e eu me perguntava se eu era a única pessoa em sã consciência pra discordar daquilo tudo. Eles já queriam levar Marlee à força para fora, a gritaria era intensa  e eu não me contive.
Juliana: Não! - gritei mesmo. Não!
Natalie:  Acho que vou desmaiar. - Mas nada fez diferença. Levantei e lancei meu corpo em direção ao assento do Neymar, caindo sobre o colo do meu pai.
Juliana: Neymar, manda eles soltarem ela, faz isso parar! Alguém me mandou sentar, ma a verdade é que nessas horas eu estava cagando pra filmagem ou coisas do tipo. Neymar, eu imploro! Por favor! - tentei ir mais pra cima dele, mas um segurança me segurou forte. Sai de perto de mim! - gritei, chutando-o o mais forte que podia. E por mais que eu tentasse, ele ainda me segurava forte.
Andressa: Filha, senta, por favor. - Marlee só chorava, a vergonha e os xingamentos sobre ela a consumiam mais que qualquer coisa.
Juliana: Neymar -  gritei de novo. Faz isso parar, por favor, não deixa ela ir assim. - Ele ouviu. Eu sabia. O vi fechar os olhos devagar e engolir em seco, como se pudesse tirar aqueles sons da sua cabeça. Minha mãe me gritou pra sentar de novo e minha vontade era de socar muito quem estava me segurando. Vic estava sentada entre os meus pais, e vi seu rosto cabisbaixo sentindo por aquela situação. Olhei para os pais de Marlee. A mãe tinha a cabeça enterrada nas mãos; seus braços enganchados nos do marido, como se ele pudesse protegê-la de tudo o que viam naquele momento. Não deve ser nada fácil pra uma mãe ou pai, ver um filho odiado por alguém, quanto mais por aquela quantidade enorme de pessoas. Me solta! - gritei para o segurança, em vão. — NEYMAR! — berrei. Minhas lágrimas atrapalhavam minha visão, mas eu conseguia ver o bastante para saber que ele tinha ouvido. Olhei para as outras garotas. Nossa amiga foi obrigada a passar por essa vergonha toda em público, em frente às câmeras e agora está saindo da mansão escorraçada por causa de uma porra de um contrato! Não devíamos fazer algo? Algumas pareciam chorar também. Elisa estava curvada, com a cabeça apoiada nas mãos, dando a impressão de que poderia desmaiar. Mas nenhuma delas parecia irritada. Não deveriam estar? O choro de Marlee, o eco doentio das pessoas vibrando, jamais ouvi nada parecido, é como se aquilo não passasse de mero entretenimento pra eles, mas não cara. Isso é vida real! O silêncio do Neymar permitindo tudo aquilo me doía ainda mais. A única coisa que me dava um pouco de esperança era o Gil. Embora suasse de nervoso, ele conseguiu balbuciar palavras de conforto para Marlee.
Gil: Vai acabar logo... Amo você! - Tentei arranhar o guarda, mas o casaco grosso o protegia. Gemi quando ele me apertou mais forte.
Joaquim: Tira as mãos da minha filha! - meu pai gritou, puxando os braços do segurança .Com aquele espaço, me movimentei até conseguir encará-lo e dei a joelhada mais forte que pude. Ele soltou um grito abafado e caiu de costas, sendo amparado por meu pai. Pulei a grade, um pouco desajeitada por causa do vestido e dos sapatos.
Juliana: Marlee! Marlee! - eu berrava, correndo o mais rápido que pude. Quase cheguei até os degraus; mas fui agarrada por mais dois seguranças. Era uma briga que eu não conseguiria ganhar. Só de pensar que estavam me impedindo de chegar até ela, o ódio triplicou. Gritei e chutei, mas tudo o que consegui foi perder um dos sapatos. Fui arrastada para a mansão enquanto o povo continua xingando-os. Não sabia se deveria me sentir grata ou envergonhada. Por um lado, eu não precisava mais ver aquilo; por outro, me pareceu que eu estava abandonando Marlee no pior momento de sua vida. Uma amiga de verdade não teria de fazer mais que isso? Marlee! Perdão! - Com toda aquela gritaria é claro que não fui ouvida. Xinguei e gritei durante todo o caminho de volta. Os seguranças tiveram de me segurar tão forte que sabia que ficaria cheia de hematomas depois. Não me importava. Tinha que lutar.
segurança 1: Onde fica o quarto dela? - perguntou pra uma faxineira que passava pelo corredor. Eu não a reconheci, mas ela com certeza sabia quem eu era. Ela acompanhou os guardas até a porta. Escutei Lucy brigar contra o modo como me tratavam.
Segurança 2: Se acalma, garota!  - resmungou e me atirou na cama.
Juliana: Vai tomar no seu cu, sai da droga do meu quarto! -  berrei. Lucy já estava chorando também, ela se aproximou de mim. Tocou na minha roupa que estava toda suja do tombo, mas dei um tapa na mão dela. Ela sabia. Sabia e não me avisou. Você também, sai agora! - Elas se encolheu, e os tremores no seu corpo frágil quase me deixaram arrependida do que tinha dito. Mas eu precisava ficar só.
Lucy: sinto muito, Ju.  - Elas sabiam como Marlee e eu éramos próximas.
Juliana: Apenas vai... - falei em voz baixa, com o rosto enterrado no travesseiro. Assim que a porta fechou, tirei o sapato que sobrou e me afundei ainda mais na cama para finalmente compreender centenas de detalhes minúsculos. Então era aquele o segredo que Marlee temia revelar. Ela não queria ficar porque não amava o Neymar, mas também não queria sair e separar-se de Gil. Várias cenas começaram a fazer sentido: o motivo de ela ficar em certos lugares e olhar para as portas. Era Gil; ele estava lá. Quando a família do Neymar veio ao palácio e ela não quis sair do sol... Gil. Era Marlee que ele esperava quando nos trombamos na porta do banheiro. Sempre ele, aguardando em silêncio, talvez roubando um beijo aqui e ali, à espera do momento em que poderiam ficar juntos de verdade. Como ela devia amá-lo para ter sido tão descuidada, para arriscar-se tanto! Como tudo isso podia ser real? Não parecia possível. Eu sabia das consequências pra quem fizesse coisas desse tipo, mas que aconteceria com Marlee... Não podia compreender. Meu coração gelava. Será que eu demoraria pra ver Marlee  outro dia? Para onde ela iria agora? Seus pais continuariam ligados a ela? E eu não pude fazer nada. Me senti tão mal, que pessoa ruim, que amiga terrível eu era. Senti vergonha. Não havia o que fazer senão chorar. Passei a manhã e a maior parte da tarde encolhida na cama. Lucy me trouxe o almoço, mas sequer o toquei. Ainda bem que ela não insistiu em ficar e me deixou só. Eu era incapaz de me recompor. Quanto mais pensava no acontecido, pior ficava. Não conseguia tirar o som do choro de marlee da cabeça, enquanto aquelas pessoas a xingavam. Fiquei imaginando se algum dia  esqueceria. Ouvi uma batida na porta. Se Lucy estivesse aqui, já teria ido correndo ver, e como ela não estava, eu nem me movi, então, não abri. Depois de uma pausa, o visitante entrou mesmo assim.
Neymar: Juliana? -  chamou em voz baixa, mas eu não respondi. Ele abriu a porta e caminhou até minha cama. Sinto muito, não tive escolha. - Permaneci calada, incapaz de falar. As câmeras descobriram eles na noite passada e divulgaram o vídeo sem nosso conhecimento. - Ele se calou por um tempo, talvez na esperança de que se ficasse ali tempo suficiente eu encontraria algo para lhe dizer. Por fim, ele se abaixou do meu lado. Juliana? Olha pra mim. - O pedido dele me deu um nó no estômago. Olhei mesmo assim. Eu precisei fazer aquilo. Precisei.
Juliana: Como você pode ficar parado? Como você pôde não ter reação?
Neymar: Eu já te disse uma vez que parte da minha vida agora é parecer calmo mesmo quando não se está. É uma coisa que tive de aprender. Você também aprenderá. - Franzi a testa. Por acaso ele pensava que eu ainda queria aquilo? Aparentemente, sim. Quando ele compreendeu minha expressão, o espanto tomou conta de seu olhar. Juliana, sei que você tá nervosa, mas por favor? Já disse, você é a única. Por favor, não faça isso.
Juliana: Neymar - respondi devagar. Sinto muito, mas acho que não posso fazer isso. Nunca poderei me sentar e assistir a uma pessoa sendo humilhada mesmo que por palavras, daquela maneira por 'ordens' minhas. Não me interessa se é protocolo de programa, se é regras, se o povo descobriu e colocou lenha na fogueira, não quero saber mesmo! Sinto muito, não posso ser sua. - O ar começou a faltar a ele, era provavelmente a manifestação mais próxima de uma verdadeira tristeza que eu tinha visto nele.
Neymar: Juliana, você coloca em jogo o resto de nossas vidas por causa de cinco minutos da vida alheia. Coisas assim acontecem raramente por aí. Você não teria que fazer isso. Hoje aconteceu por que a situação fugiu claramente do controle. - Me sentei, na esperança de que assim pensaria melhor.
Juliana: É que... não consigo nem pensar agora.
Neymar: Então não pensa. Não deixe o momento te levar a uma decisão sobre nós dois quando você está tão nervosa. - Essas palavras me pareceram um truque. Por favor - agarrou minhas mãos. O desespero de sua voz me fez olhar para ele. Você prometeu ficar comigo. Não desista, não assim. Por favor. - Respirei fundo e fiz que sim com a cabeça. Obrigado. - Foi evidente o seu alívio. Ele permaneceu ali sentado, segurando minha mão como se ela fosse seu último fio de esperança. Não era como no dia anterior. Sei... Sei que você não está segura quanto ao fardo de ser minha mulher. Sempre achei que seria difícil para você aceitá-lo com toda as bagagens que vem junto.. E tenho certeza de que isso o torna mais difícil. Mas... e quanto a mim? Você ainda está segura quanto a mim? Digo, só o Júnior. - Hesitei, incerta sobre o que dizer.
Juliana: Já falei que não consigo pensar.
Neymar: Ah. Tudo bem, vou te deixar em paz por agora. Mas nos falamos logo. - Ele se inclinou como se quisesse me beijar. Baixei os olhos, e ele limpou a garganta. Até mais, Juliana. - Então ele saiu. E eu me senti despedaçada de novo. Minutos ou horas depois, Lucy entrou e me encontrou em prantos. Eu rolava de um lado para o outro na cama, e não havia como elas não verem a súplica em meus olhos.
Lucy: Ah ju, parte o coração te ver assim.  Vem, vou te ajudar a aprontar as coisas pra dormir. -  Ela colocou a banheira pra encher, separou um pijama e aprontou minha cama, nisso eu só chorava. Depois de banho tomado, Lucy sentou do meu lado tentando me acalmar.  Queria explicar que era mais que Marlee; que havia também a mágoa em relação ao Neymar. Só que seria tão vergonhoso reconhecer o quanto aquilo mexia comigo, e como eu estava errada. Minha dor dobrou quando perguntei por meus pais e ela me contou que todas as famílias tinham sido acompanhadas de volta pra casa rapidamente. Não pude sequer dizer adeus. Com uma mão Lucy acariciava meus cabelos e a outra, mantinha sobre seu peito, como se sentisse tudo aquilo comigo.
Juliana:  Obrigada, me desculpa pelo que fiz ou falei.  
Lucy: Não precisa se desculpar Jú. - Quis corrigi-la,  com certeza, tinha ido longe demais no jeito como a tratei de manhã, mas logo veio outra batida à porta. Pensei em como dizer educadamente que não queria ver o Neymar naquele momento, mas quando Lucy se apressou em abrir, vi o rosto do Jota do lado de fora.
Jota: Desculpa Ju, mas queria te ver, saber se você está bem. - Ele entrou e sentou na beira da cama. Sinto muito por tudo que houve com sua amiga. Sei que ela era especial e vai fazer falta aqui na mansão pra você, se precisar de qualquer coisa, estou aqui. - Seu olhar transmitia tantas coisas. Uma pessoa do bem que claramente me ajudaria em tudo que eu precisasse. Em pensar que eu não queria ver nenhum elemento que fosse amigo do Neymar... Que idiota eu tinha sido, no momento de raiva quase abri mão da única pessoa que  realmente me entendia, que realmente se importava. Jota e eu tínhamos construído uma amizade linda juntos, graças à Seleção, mas também  a mesma quase a destruiu. Jota estava se tornando minha casa, minha segurança.
Juliana: Obrigada, você ter vindo aqui  significa muito para mim. - Jota abriu um sorriso, pude ver que ele queria ficar, era o que eu queria também, mas não ia acontecer, não hoje.  Estava tão cansada que possivelmente dormiria em 5 minutos de conversa. Mas me lembrei de que teria Jota sempre. Fiquei feliz por essa verdade.


Oi, gatinha,
Mil perdões por não termos conseguido nos despedir. O Neymar achou que seria melhor para as famílias voltarem logo, devido ao tumulto que isso tudo causou. Tentei encontrar você, juro. Só que não consegui.
Queria que soubesse que chegamos bem em casa. O programa nos deixou ficar com as roupas, e Vic passa todo o seu tempo livre vestindo os vestidos. Suspeito que ela deseja não engordar nem um centímetro mais para poder usar sua fantasia sempre. Isso a deixa muito animada. Não sei se algum dia perdoarei a família Silva Santos  por forçar duas filhas minhas a assistir aquela humilhação ao vivo. Mas você sabe como Vic aguenta bem essas coisas. É com você que estou preocupado. Nos ligue logo.
Talvez essa não seja a melhor coisa a dizer, mas quero que saiba: quando você correu para o palanque, nunca tive tanto orgulho de você em toda a minha vida. Você sempre foi bonita; sempre teve talento. E agora eu sei que o seu senso de justiça é bem afiado, que você percebe claramente quando as coisas estão erradas e faz tudo que pode para pôr fim a elas. Não posso pedir mais como seu pai.
Te amo, Juliana. Estou muito, muito orgulhoso.
Papai




Como meu pai sempre sabia o que dizer? Cheguei a desejar que alguém realinhasse as estrelas para que elas formassem essa frase. Precisava que ficassem grandes e brilhantes, em algum lugar onde eu as enxergasse nos momentos de escuridão. Te amo, Juliana. Estou muito, muito orgulhoso. Os membros da Elite (2 fase da seleção) tinham a opção de tomar café no quarto, e foi o que fiz. Ainda não estava pronta para ver o Neymar. À tarde, mais recomposta, decidi descer ao Salão das garotas por um momento. Pelo menos, lá tinha uma TV, e eu agradeceria por uma distração. As garotas se surpreenderam com a minha entrada, o que eu já esperava de certa forma. Eu costumava me esconder de vez em quando, e certamente nunca tinha precisado tanto. Celeste relaxava no sofá, folheando uma revista. Kriss e Elisa estavam na mesa, tomando suco e conversando. Já Natalie estava no fundo do salão, olhando pela janela.
Celeste: Olhem só, mais um dos meus anúncios. - Celeste era modelo. Saber que estava ali folheando fotos de si mesma me irritou ainda mais.
Nadine: Juliana?  - Olhei para trás e lá estava a mãe dele, com o notebook no colo, parecia estar trabalhando. Meu estômago gelou quando me lembrei  do meu comportamento no dia anterior. Nunca tive a intenção de ofendê-la e, de repente, temi haver feito exatamente isso. Sentia os olhos das outras meninas sobre mim. Ela  geralmente falava conosco em grupo, raramente em particular. Parecia não querer se apegar, como se tudo isso fosse "futilidades". Me aproximei.
Juliana: Oi dona Nadine.
Nadine: Senta aqui um pouco. - disse calmamente, apontando uma cadeira vazia à sua frente. Agradeci, ainda muito nervosa. Você brigou bastante ontem.  - Engoli em seco.
Juliana: Sim.
Nadine: Você era muito próxima dela?
Juliana: Demais. - respondi, com a tristeza entalada na garganta. Ela suspirou.
Nadine:  Primeiro queria deixar claro que não concordo com o que aconteceu ontem, mas apesar de toda situação, você não deveria agir daquela maneira, poderia ter se machucado. - Não se tratava de uma ordem da dona da casa. Tratava-se da censura de uma mãe. Aquilo deixou tudo umas mil vezes pior, era como se ela se sentisse responsável por mim, e eu a tinha desapontado. Inclinei a cabeça. Pela primeira vez, me senti verdadeiramente mal por minha reação. Ela estendeu o braço e apoiou a mão sobre meu joelho. Olhei para seu rosto, surpreendida pelo seu toque.
Nadine: Em todo caso, estou feliz que você tenha agido daquela forma -  cochichou, com um sorriso nos lábios.
Juliana:  Ela era minha melhor amiga.
Nadine:  A amizade não acaba por ela ter ido embora, minha linda - suas palavras vieram acompanhadas de carícias suaves na minha perna. Era disso que eu precisava: carinho materno. Lágrimas brotaram no canto dos meus olhos.
Juliana: Não sei o que fazer -  sussurrei. Quase falei tudo ali, sobre como estava me sentindo, mas tinha consciência do olhar das outras meninas.
Nadine: Disse a mim mesma que não me envolveria. - suspirou. Mesmo se quisesse, não sei ao certo se teria muito a dizer. - Ela tinha razão. Que palavras mudariam o acontecido? Em todo caso, pegue leve com ele. - Sabia que ela tinha boas intenções, mas, de verdade, eu não queria falar com ela sobre seu filho. Concordei com a cabeça e me levantei. Ela abriu um sorriso gentil e eu me afastei.  Caminhei pra lá e pra cá até me sentar na mesa de Elisa e Kriss.
Elisa: Como você está?
Juliana: Estou bem, é Marlee quem me preocupa.
Kriss: Pelo menos estão juntos de verdade agora.
Juliana: Como você sabe que eles estão juntos agora?
Kriss: Neymar me contou -  respondeu, como se aquilo fosse de conhecimento comum.
Juliana:  Ah...
Kriss: Não acredito que ele não contou pra você antes de nos falar. Você e Marlee eram tão próximas. Além disso, você é a preferida dele, certo? -  Olhei pra Kriss, depois para Elisa. Ambas tinham um ar preocupado, mas talvez também uma certa expressão de alívio. Celeste riu.
Celeste: Evidentemente, não é mais - murmurou, sem sequer levantar os olhos da revista. Com certeza, minha queda era esperada. Eu levei a conversa de volta à Marlee.
Juliana: Ainda não acredito que o Neymar a fez passar por isso. A calma dele durante tudo aquilo era medonha.
Natalie:  Mas ela errou.
Elisa: Ele podia ter acabado com ela por quebra de contrato, fora humilhação que ele passou por ser traído. Podia acabar com os dois, mas mostrou misericórdia.
Juliana: Misericórdia? - desdenhei. Você acha que fazer os outros passarem por todo aquele fusuê ontem ao vivo é sinal de misericórdia? Somos traídas desde que entramos e não fizemos nada por isso.  E mais, acha que o que conta mesmo, é somente o egozinho  dele ferido?
Elisa: Sim, no fim das contas, acho. Aposto que se perguntássemos pra ela o que escolheria, ela preferiria o que aconteceu ontem.
Kriss: Elisa tá certa. Concordo que foi absolutamente terrível, mas eu sou mais aquilo do que ter minha vida destruída, por que é isso que ia acontecer se eu entrasse numa briga na justiça com ele. 
Juliana: Por favor! - repliquei com sarcasmo e uma ponta de raiva. Você é rica! Todo mundo sabe da sua vida de luxo, assuma que isso seria o menor de seus problemas. Se passasse pelo que Marlee enfrentou, não aguentaria. - Kriss me encarou.
Kriss: Não vá achando que você sabe o que eu posso aguentar ou não. Só porque você não tem as mesmas condições financeiras que eu, acha que é a única pessoa que já sofreu?
Juliana: Não, mas tenho certeza de que já enfrentei bem mais coisas que você. - meu tom de voz ia aumentando com a raiva. Mesmo assim, não suportaria passar pelo que Marlee passou. E você não se sairia nem um pouco melhor.
Kriss: Sou mais corajosa do que você acha, Juliana. Você não faz ideia das coisas que tive que sacrificar ao longo dos anos. E quando cometo um erro, arco com as consequências.
Juliana:  E por que deveriam existir consequências? Neymar vive dizendo que a Seleção é difícil para ele, que é duro escolher, e então uma de nós se apaixona por outro. Ele não deveria agradecer essa garota por facilitar a decisão?
Elisa: ontem, ouvi as coisas mais bizarras!
Kriss:  Mas... 
Elisa: Juliana tem um pouco de razão - ela se contrapôs, e foi o fim da ordem na conversa. Falávamos uma em cima da outra, tentando nos fazer ouvir, explicando o porquê de achar que aquilo tinha sido certo ou errado. Era a primeira vez que discutíamos assim, mas esperava isso desde o começo. Com esse monte de meninas juntas, competindo entre si, não haveria como não brigarmos algum dia. Foi então que, com a voz mais podre possível, Celeste sussurrou para sua revista enquanto discutíamos:
Celeste: Ela  teve o que mereceu. Biscate. - O silêncio que se seguiu foi tão intenso quanto a discussão. Celeste olhou pra trás a tempo de me ver preparar o bote. Ela gritou assim que caí por cima dela, e nós duas caímos em cima da mesa de café. Escutei uma coisa despedaçar-se no chão, provavelmente uma xícara. Tinha fechado os olhos no meio do salto; quando abri, Celeste estava embaixo de mim, tentando segurar meus pulsos. Desvencilhei meu braço direito e dei um tapa na cara o mais forte que pude. A dor em minha mão foi quase insuportável, mas valeu a pena ouvir o estalo sonoro explodir em seu rosto com o meu golpe. Celeste imediatamente soltou um grito e passou às unhadas. Pela primeira vez, lamentei não deixar as unhas grandes como as outras meninas faziam. Fiquei com uns arranhões no braço, o que apenas aumentou o meu ódio, e bati nela de novo. Dessa vez, cortei seu lábio. Sua reação à dor foi pegar algo do chão – o pires da xícara, acho – e acertá-lo na minha orelha. Caí para trás, mas logo parti para cima de novo. Só que nos separaram. Estava tão absorta que não percebi que os meninos tinham sido chamados. Dei um bandão neles também. Estava cansada de ser agarrada.
Celeste:  Você viu o que ela fez comigo? 
Juliana:  Cala  a  boca! - berrei. Nunca mais fala de Marlee!
Celeste:  Ela é louca! Você ouviu? Você viu o que ela fez?
Juliana: Me solta! - bati nos meninos também.
Celeste: Você é uma psicopata! Vou contar tudo pro Neymar agora. Pode dar adeus a mansão! 
Nadine:  Ninguém vai ver o Júnior  agora! - seu tom era severo. Nos olhou nos olhos; primeiro Celeste, depois eu. Sua decepção era notória. Vocês duas vão pra a ala hospitalar. 
A ala hospitalar consistia em um corredor impecável com camas encostadas nas paredes. Sobre cada cama, havia uma cortina que podia ser puxada para dar mais privacidade. Havia armários com remédios espalhados por toda parte. Sabiamente, puseram Celeste e eu em pontas opostas do corredor: ela mais perto da entrada; eu, próxima à janela dos fundos. Ela puxou a cortina em volta da sua cama quase que imediatamente, pra não precisar me ver. Não podia culpá-la. De fato, eu estava com uma expressão bem diabólica no rosto. Mesmo nos momentos em que a moça cuidava do machucado atrás da minha orelha, não fiz qualquer careta de dor.
xxxx: Agora você segura este gelo aqui. Vai ajudar a desinchar  - me orientou.
Juliana: Obrigada. - A moça olhou pros dois lados da ala, aparentemente certificando-se de que ninguém nos ouviria.
xxxx: Você foi muito bem - cochichou. Quase todos aqui esperavam que isso fosse acontecer.
Juliana: Mesmo? - perguntei, minha voz tão baixa como a dela. Só que talvez eu não devesse estar tão sorridente.
xxxx: Não dá para enumerar as histórias de terror que ouvi sobre essa aí - esticou o pescoço na direção da cama de Celeste.
Juliana: Histórias de terror?
xxxx: Bom, ela provocou aquela menina que bateu nela.
Juliana:  Anna? Como você sabe?
xxxx: Neymar é um bom homem. Fez questão de que ela fizesse uma avaliação aqui antes de voltar pra casa. Ela nos contou o que Celeste disse de seus pais. Uma imundície tão grande que não posso repetir, mas o olhar dela transmitia seu asco.
Juliana: Coitada de Anna! Sabia que tinha sido uma coisa do gênero.
xxxx: Certa vez, atendemos uma menina com o pé sangrando; alguém havia enfiado cacos de vidro em seus sapatos durante a noite. Não podemos provar que foi Celeste, mas quem além dela faria tamanha baixaria?
Juliana: Nunca ouvi falar disso - eu estava espantada.
xxxx: A garota tinha medo que as coisas piorassem. Imagino que escolheu ficar de boca fechada. Além do mais, Celeste bate em sua ajudante. Com as mãos limpas, mas mesmo assim ela sempre aparece aqui em busca de gelo.
Juliana: Não! - Todas as ajudantes que conhecia eram muito doces. Não podia imaginar nenhuma capaz de fazer algo que merecesse um só tapa, quanto mais coisa pior.
xxxx: Basta dizer que seu espetáculo já anda de boca em boca. Você é uma heroína aqui, muita gente esperava esse tapa - piscou pra mim. Não me sentia uma heroína.
Juliana: Um momento, você falou que Neymar fez Anna passar por aqui antes de ir embora?
xxxx: Sim. Ele se esforça muito para que todas vocês sejam bem cuidadas.
Juliana: E Marlee? No meio daquela confusão ela deve ter se machucado. Ela também veio aqui? Como foi quando ela saiu?  - Antes dela responder, a voz afetada de Celeste ecoou pelo corredor.
Celeste: Neymar, meu amor! - já exclamou assim que ele cruzou a porta. Trocamos olhares por um momento antes dele se aproximar da cama de Celeste. A moça saiu, me deixando só e morta de vontade de saber se ela tinha visto Marlee. A voz esganiçada de Celeste era praticamente insuportável. Ouvi Neymar murmurar seus lamentos e confortar aquela criatura infeliz antes de escapar. Ele contornou a cama e caminhou na minha direção, com os olhos cravados em mim. Parecia exausto.
Neymar: Você tem sorte de o meu pai ter proibido as câmeras na mansão. Caso contrário, passaríamos maus bocados por causa do que você tem feito. - Ele levava as mãos à cabeça, irritado.  Como vou justificar isso, Juliana?
Juliana: Então você vai me enxotar?
Neymar:  Claro que não.
Juliana:  E ela? 
Neymar: Não. Vocês todas estão desgastadas depois de ontem. Não posso culpá-las por isso. Não sei se meu pai vai aceitar essa desculpa, mas é o que vou dizer. - Fiz uma pausa.
Juliana:  Neymar, você devia dizer que a culpa foi minha. Talvez você devesse simplesmente me mandar embora.
Neymar:  Juliana, você está exagerando.
Juliana: Olha pra mim, Neymar. - Sentia um nó crescer na garganta e queria desfazê-lo com minhas palavras. Sei desde o começo que não tenho os requisitos pra isso tudo. Pensei que pudesse, sei lá, mudar ou dar um jeito. Mas não posso ficar aqui. Não posso. - Ele sentou na beira da minha cama.
Neymar: Juliana, sei que você odeia a Seleção, e talvez esteja furiosa com o que aconteceu com Marlee, mas sei que você se importa comigo o bastante para não me abandonar assim. - Segurei a mão dele. Também me importo com você o bastante pra dizer que está cometendo um erro. - Notei a dor no rosto dele, que apertou mais a minha mão, como se pudesse me prender ali e não me deixar sumir. Um pouco receoso, ele se inclinou e disse ao meu ouvido: Não é sempre tão difícil. Quero mostrar isso a você, mas você tem que me dar tempo. Posso provar que há coisas boas nessa vida, mas você precisa esperar. - Me preparei para contradizê-lo, mas ele interrompeu: Por semanas, Juliana, você tem me pedido tempo, e eu dei sem nem pensar, porque tinha fé em você. Por favor, preciso que você tenha um pouco mais de fé em mim. - Não sei o que Neymar me mostraria pra me fazer mudar de ideia, mas como eu não lhe daria tempo se ele fez isso por mim? Respirei fundo.
Juliana: Tudo bem.
Neymar: Obrigado - era óbvio o alívio em sua voz. Preciso muito ir agora, mas logo voltarei para vê-la. - Concordei. Ele se levantou e saiu, não sem antes parar rapidamente na cama de Celeste para se despedir. Observei-o ir, pensando se confiar nele era uma má ideia.











Postei e sai correndo! hahahahah