"Queria entender sua capacidade de nos deixar à sós, mesmo quando não estamos sozinhos"
Por volta das nove eu estava pronta pra começar o dia, aos sábados não havia rotina, nem programação. Desci as escadas devagar, um pouco cansada por ter dormido tarde na noite anterior. Antes de chegar na sala, já podia ouvir o burburinho das vozes das garotas. Quando entrei, Marlee me agarrou pelo braço e me arrastou até duas cadeiras no fundo do salão.
Marlee: Finalmente! Estava te esperando.
Juliana: Desculpe, tive uma noite longa e dormi demais.
Ela se virou pra mim, provavelmente percebendo meu tom de tristeza, mas com doçura comentou sobre meu shorts novo.
Marlee: é fantástico!
Juliana: Eu sei, nunca tinha usado um tecido tão bom. Desculpa ter feito você esperar, o que queria dizer?
Marlee hesitou. Mordeu os lábios e sentou-se. Não havia ninguém por perto, ela estava querendo contar um segredo.
Marlee: Na verdade, pensando agora, talvez não devesse falar nada pra você. Às vezes esqueço que estamos competindo o mesmo homem. - o segredo envolvia o Neymar, então eu tinha que saber.
Juliana: Sei como é... Mas acho que podíamos ser amigas de verdade. Não consigo ver você como inimiga, sabe?
Marlee: É, você é tão doce, e as pessoas te adoram. Quer dizer, você provavelmente vai ganhar... - disse um pouco derrotista.
Tive que me segurar para não rir.
Juliana: Marlee, posso contar um segredo? - esperava que ela acreditasse nas minhas palavras.
Marlee: Claro, Juliana. Qualquer coisa.
Marlee: Não sei quem vai ganhar isso aqui. Mesmo! Pode ser qualquer uma nesta sala, acho que todas pensam em si mesmas, mas eu sei que, se não for a escolhida, quero que seja você. Você é generosa e de bom coração. Acho que se sairia bem como esposa dele e vencedora, de verdade. - Era quase verdade.
Marlee: E você é inteligente e bondosa. Também se sairia uma ótima vencedora. - assenti agradecida. Penso isso de várias meninas, na verdade. Tipo, cada uma delas tem uma qualidade que eu não tenho, então sinto que são melhores que eu.
Juliana: Aí é que está, Marlee. Você provavelmente vai encontrar uma coisa especial em cada menina nesta sala, mas quem sabe o que o Neymar procura? - Ela concordou com a cabeça. Por isso, não vamos nos preocupar, pode me contar o que quiser, guardo seus segredos se guardar os meus. Vou me apoiar em você e se quiser pode se apoiar em mim também, é bom ter amigas aqui.
Ela sorriu e olhou ao redor para garantir que ninguém estava ouvindo.
Marlee: Neymar e eu tivemos aquele encontro.
Juliana: é? - perguntei.
Dei a impressão de estar curiosa demais, mas não pude evitar. Queria saber se ele tinha sido travado com ela ou se gostou do encontro.
Marlee: Ele mandou um recado para Márcia, minha ajudante, perguntando se dava pra gente se ver na quinta. - sorri quando ouvi Marlee contar isso, lembrando como na quarta-feira ele eu eu decidimos eliminar essas formalidades (mexer na orelha). Respondi que sim, claro, como se eu fosse capaz de recusar! Ele foi me buscar e demos uma volta na cidade. Ele gosta de vários filmes que eu gosto, então fomos no cinema depois. Ele comprou pipoca pra gente, aí a gente viu o filme e na parte romântica, ele me abraçou. Pensei que fosse desmaiar!
Comecei a rir alto. Ela estava completamente caída por ele!
Marlee: Não vejo a hora de sairmos de novo, ele é tão lindo, não acha?
Juliana: é bonitinho, vai - ri
Marlee: Ah, Ju! Você com certeza reparou naqueles olhos e naquela voz...
Juliana: menos quando ele ri - repliquei, lembrando que a risada dele era esquisita, porém gostosa de ouvir. Fofa, mas esquisita.
Marlee: Está bem, a risada dele é esquisita, mas é bonitinha.
Juliana: Claro, se você gosta de ouvir o adorável som de uma crise de asma cada vez que conta uma piada. - Marlee se rendeu e levou às mãos à barriga de tanto de rir.
Marlee: Está bem, está bem - disse recuperando o fôlego. Mas deve ter algo bom nele que você ache atraente.
Abri minha boca para dizer algo, mas fechei. Fiz isso umas três vezes. Minha vontade era dar outra cutucada, mas não queria que Marlee o visse de um jeito negativo. Pensei no que dizer, mas o que era atraente no Neymar?
Juliana: Bem, gosto quando ele abre a guarda, como quando fala sem escolher bem as palavras, ou quando você nota que ele está olhando uma coisa e... e tá vendo mesmo a beleza daquilo. - Marlee sorriu, eu sabia que ela ainda não tinha visto esse lado dele. E gosto de quando parece ficar mesmo envolvido quando estamos com ele, sabe? Como se apesar de ter uma carreira pra zelar e milhares de coisas pra fazer, ele esquecesse tudo quando está do seu lado. Ele se empenha naquilo que está diante dele. Gosto disso, e não conte à ninguém, mas... os braços dele, gosto dos braços dele.
Corei no final. Que burrice! Por que não me limitei à comentários genéricos sobre as coisas boas na personalidade dele? Por sorte, Marlee não viu problemas em continuar o assunto.
Marlee: Sim! Também gostei de sentir os braços dele, o futebol ajuda a manter a forma mesmo - riu.
Pareceu que a noite tinha sido maravilhosa pra ela, mas por que Neymar evitou falar desse encontro?
Olhei ao redor da sala e vi que metade das garotas pareciam tensas ou infelizes. Zoe, Olívia e Jessica escutavam algo que Kriss contava. Ela parecia sorridente e animada, mas o rosto de Jessica estava franzido de preocupação, ao passo que Zoe roía as unhas. Olívia estava coma cabeça longe, apalpando a região abaixo da orelha, como se estivesse dolorida. Fazendo jus à fama, Celeste falava algo cheia de arrogância. Marlee percebeu meu olhar e explicou o que acontecia.
Marlee: As garotas de cara amarrada são as que ainda não tiveram um encontro com ele. Na quinta ele me disse que eu era a segunda só naquele dia, ele está mesmo querendo conhecer todas.
Juliana: Você acha que é isso?
Marlee: É. Quer dizer, olhe só a gente. Estamos bem porque já tivemos um encontro à sós com ele. Ambas sabemos que ele gostou de nós o suficiente para não nos enxotar logo em seguida. Há uma divisão entre aquelas que tiveram um encontro com ele, e as outras que estão preocupadas. Acham que ele não está mais interessado nelas e que só vai vê-las quando for mandá-las embora.
Por que ele não tinha dito nada disso? Não éramos amigos? Um amigo contaria esse tipo de coisa. Ele já tinha marcado encontro com uma dúzia de garotas, com base apenas no sorriso delas. tínhamos ficado a maior parte da noite anterior juntos, e ele não me falou nada. Que tipo de amigo guarda os próprios segredos enquanto faz o outro botar os dele pra fora?
Talita, que até então estava ouvindo Camille com uma expressão de ansiedade no rosto, levantou-se da cadeira e olhou ao redor. Descobriu Marlee e eu no canto e logo veio na nossa direção.
Talita: O que vocês fizeram no encontro? - perguntou de supetão.
Marlee: Oi, Talita! - Cumprimentou de um jeito de alegre.
Talita: shhhhh! - gritou. Depois se virou pra mim. Então Juliana, fale!
Juliana: Já contei.
Talita: Não, no encontro da noite passada!
Juliana: Como?
Marlee: Tina viu vocês dois juntos e contou - disse em uma tentativa de explicar o mau humor dela. Você é a única que saiu com ele duas vezes. Muitas garotas não o viram à sós e estão reclamando. Acham uma injustiça, mas não é culpa sua ele gostar de você.
Talita: Mas é completamente injusto! - explodiu ela. Eu ainda não o vi fora das refeições, nem de passagem. o que vocês dois fizeram?
Juliana: Nós... hã... fomos ao jardim. Ele sabe que gosto de sair. Só conversamos. - fiquei nervosa como se estivesse numa enrascada, o rosto de Talita era tão ameaçador que desviei o olhar e vi que uma porção de garotas na mesa próxima escutava nosso diálogo.
Talita: só conversaram?
Juliana: Isso mesmo. - respondi dando de ombros e ela saiu bufando. Foi até a mesa de Kriss e de um jeito bem ríspido, mandou- a repetir sua mesma história. Eu, porém, estava atônita.
Marlee: você tá bem, Ju?
Juliana: tô sim, por que?
Marlee: você parece irritada...
Juliana: Não é nada, não estou irritada, tá tudo ótimo - sorri.
De repente, em um movimento tão rápido que eu não teria conseguido ver se estivesse perto, Anna inclinou-se e deu um tapa na cara de Celeste. Quase todo mundo, incluindo eu, soltou uma exclamação de espanto. Quem não viu logo se virou para a mesa das duas perguntando o que tinha perdido. Tina foi uma dessas e sua voz soou tão aguda que ecoou pelo silêncio que tinha se formado na sala.
Érica: Ah não, Anna... - lamentou com um suspiro.
Um instante depois, Anna começou lentamente a compreender o que tinha feito. ela seria mandada pra casa. Não podíamos agredir fisicamente umas as outras. Érica chorava quando Anna se sentou, perdida em um silêncio perplexo. Tanto uma quanto outra, eram originárias de fazendas e tinham ficado amigas há pouco tempo. Eu não podia imaginar como me sentiria se Marlee saísse de repente. Só conhecia Anna de vista, ela sempre pareceu uma criatura explosiva, mas eu sabia que não era da natureza dela agredir alguém.
Não havia dúvida de que ela havia sido provocada, mas ninguém estava sentado perto o suficiente para provar. Seria a palavra de Anna contra a de Celeste, só que Celeste tinha um salão inteiro de testemunhas do tapa que levou. Talvez insistissem com Neymar para mandar Anna embora como um exemplo. Os olhos de Anna começaram a se encher de lágrimas. Celeste se levantou, sussurrou algo em seu ouvido e saiu do salão a passos rápidos. Anna foi despachada antes da hora do jantar.
-
Sylvia: Quem foi indicado com o Neymar para melhor do mundo? - Sylvia perguntou durante a aula que teríamos para não fazer veio no programa. Por sorte Amy ergueu o braço e respondeu.
Amy: Messi e Cristiano Ronaldo.
Sylvia: Correto! Foi a primeira indicação dele nessa categoria.
Ela fez inúmeras perguntas, incluindo carreira e vida pessoal.
Os flashes pararam depois de mais uma foto do Neymar e Natalie com sorrisos radiantes.
Fotógrafo: Natalie, abaixe o queixo só um pouquinho. Isso! - ele tirou mais uma, preenchendo o estúdio com a luz. Acho que já é o bastante, quem é a próxima?
Celeste se aproximou. Um grupo da "beleza" permaneceu em pé em volta dela até o fotógrafo aprontar a câmera. Natalie, ainda do lado do Neymar, disse algo e fez uma pose charmosa. Ele respondeu discretamente e ela saiu com um sorriso.
Tinham nos dito no dia anterior, depois da aula sobre ele, que a foto era só pra divertir o público, mas eu não deixava de ver um peso real por trás disso. Alguém tinha escrito um editorial de revista sobre o visual de uma "escolhida", não li o artigo, mas Érica e outras leram.. Segundo elas, o texto falava que o Neymar deveria encontrar alguém com uma boa aparência, que se saísse bem nas fotos, por ele ser uma pessoa pública. Então lá estávamos nós, enfileiradas, todas com um vestido creme de manguinhas, cintura afinada e echarpe vermelha nos ombros, tirando fotos com ele. Todas sairiam na mesma revista, e a equipe de edição ia escolher suas preferidas. Era o que me incomodava desde o começo: a ideia de que o Neymar só estava em busca de um rosto bonito. Agora que o conhecia, sabia que não era verdade. Mas me irritava que as pessoas o vissem assim. Dei um suspiro de descontentamento. Algumas garotas circulavam mascando chiclete e conversando, mas a maioria, inclusive eu, permaneceu de pé.
Celeste foi em direção ao Neymar com uma luz nos olhos e ele sorriu com a sua chegada. Assim que parou ao lado dele, sussurrou algo em seu ouvido , seja o que for, ele se inclinou para trás de tanto rir e balançou a cabeça em aprovação ao segredinho dos dois. Como alguém podia se dar tão bem com uma pessoa como ela e eu ao mesmo tempo?
Fotógrafo: Muito bem, vire-se para a câmera e sorria, por favor. - Ela voltou o rosto na direção dele e pôs uma das mãos em seu peito, inclinando a cabeça um pouco pra frente, abrindo um sorriso profissional. Celeste parecia saber tirar vantagem da iluminação e do estúdio, além de insistir várias vezes para os dois mudarem de pose. Enquanto algumas meninas aproveitavam pra fazer aquele tempo durar o máximo possível - especialmente aquelas que ainda não tinha tido um encontro -, Celeste quis demonstrar o máximo de eficiência possível.
Em um piscar de olhos ela tinha terminado. O fotógrafo chamou a próxima, eu estava tão ocupada vendo-a deslizar os dedos pelo braço dele ao sair que a moça que trabalhava lá, teve que fazer a gentileza de avisar que estavam me chamando. Fiz um sinal com a cabeça e me levantei, determinada a não perder o foco. Segurei a saia do vestido e andei em direção ao Neymar. Seus olhos se desviaram dos de Celeste para mim e talvez fosse imaginação minha, mas pareceu ficarem mais iluminados.
Neymar: Olá, minha gatinha - ele cantarolou.
Juliana: Nem comece - avisei ao mesmo que riu de mim e e estendeu o braço.
Neymar: Um segundo, sua echarpe está torta.
Juliana: era de se esperar - Aquilo era tão pesado que sentia que caía das minhas costas a cada passo.
Neymar: Acho que assim dá pro gasto - disse em tom de piada.
Juliana: Bem que eles poderiam pendurar você com os lustres depois, né? - rebati caçoando do paletó dele da cor da lâmpada.
Fotógrafo: Olhem para a câmera por favor.
Levantei a cabeça e vi não apenas dois olhos , mas os de todas as selecionadas cravados em mim. Meus nervos saíram do controle. Sequei as mãos úmidas de suor no vestido e soltei o ar.
Neymar: Não fique nervosa - sussurrou.
Juliana: Não gosto que todos fiquem olhando para mim.
Ele me puxou para muito perto de si e passou a mão pela minha cintura, quis me afastar, mas o braço dele estava bem firme em mim.
Neymar: Apenas olhe para mim como se não aguentasse mais a minha cara - ele sugeriu, fazendo uma careta de mau humor. Foi o bastante para me fazer cair na risada. A câmera disparou naquele exato momento e nos pegou rindo. Viu? Não é tão ruim.
Juliana: Talvez.
Continuei tensa por alguns minutos, o fotógrafo gritou suas instruções e o Neymar relaxou seu braço na minha cintura, depois me virou de modo que minhas costas ficassem contra seu peito.
Fotógrafo: Excelente! Podemos fazer umas no sofá?
Eu me sentia melhor agora que metade já tinha passado. Sentei-me perto dele com a melhor postura que pude produzir. Ele ficava o tempo todo fazendo cócegas em mim ou me cutucando e meu sorriso foi aumentando até explodir em uma gargalhada. Eu tinha esperança que o fotógrafo estivesse captando os momentos antes de eu fazer careta de riso. Do contrário, seria um desastre.
Pelo canto dos olhos, notei uma mão acenando. Neymar percebeu log em seguida. Um homem estava ali e queria falar com ele. o mesmo fez um sinal para que se aproximasse, mas o homem hesitou, evidentemente consternado com minha presença.
Neymar: ela pode ouvir
xxxx: reunião com os advogados em 30 minutos. - ele suspirou e agradeceu o rapaz pela informação.
Eu sabia que deveríamos continuar a sessão de fotos, mas ele não parecia nem um pouco interessado nela agora.
Juliana: Talvez devêssemos parar - sugeri.
Ele balançou a cabeça, ajeitou-se e sorriu, pondo minha mão sobre a sua.
Neymar: Um dos requisitos dessa profissão, é a capacidade de parecer calmo quando se está muito longe disso, por favor, sorria Ju.
Endireitei a postura e dei um sorriso tímido para os cliques do fotógrafo. No meio daquelas fotos, ele apertou minha mão e eu fiz o mesmo. Naquele momento senti que tínhamos uma ligação forte e verdadeira.
Fotógrafo: Muito obrigado! Próxima por favor...
Ele deu um último aperto na minha mão e me soltou. Enquanto ia para o meu lugar, pensei em muitas coisas . Pensei em como era bom saber que ele confiava em mim, e em como essa confiança fez com que nos sentíssemos sozinhos por uns instantes.
Neymar: Olívia, minha gata - ele disse assim que viu a próxima garota se aproximar. Ri internamente com aquele afeto fingido e manjado. Ele baixou a voz, mas ainda assim ouvi o que disse a seguir. Antes que me esqueça, está livre hoje à tarde?
Algo fez com que meu estômago desse um nó, parecia uma crise de nervos tardia. Não gostava nem um pouco daquilo.
