sábado, 24 de setembro de 2016

Capítulo 6 : "Neymar só estava em busca de um rosto bonito?"



"Queria entender sua capacidade de nos deixar à sós, mesmo quando não estamos sozinhos"






Por volta das nove eu estava pronta pra começar o dia, aos sábados não havia rotina, nem programação. Desci as escadas devagar, um pouco cansada por ter dormido tarde na noite anterior. Antes de chegar na sala, já podia ouvir o burburinho das vozes das garotas. Quando entrei, Marlee me agarrou pelo braço e me arrastou até duas cadeiras no fundo do salão.
Marlee: Finalmente! Estava te esperando.
Juliana: Desculpe, tive uma noite longa e dormi demais.
Ela se virou pra mim, provavelmente percebendo meu tom de tristeza, mas com doçura comentou sobre meu shorts novo.
Marlee: é fantástico!
Juliana: Eu sei, nunca tinha usado um tecido tão bom. Desculpa ter feito você esperar, o que queria dizer?
Marlee hesitou. Mordeu os lábios e sentou-se. Não havia ninguém por perto, ela estava querendo contar um segredo.
Marlee: Na verdade, pensando agora, talvez não devesse falar nada pra você. Às vezes esqueço que estamos competindo o mesmo homem. - o segredo envolvia o Neymar, então eu tinha que saber.
Juliana: Sei como é... Mas acho que podíamos ser amigas de verdade. Não consigo ver você como inimiga, sabe?
Marlee: É, você é tão doce, e as pessoas te adoram. Quer dizer, você provavelmente vai ganhar... - disse um pouco derrotista.
Tive que me segurar para não rir.
Juliana: Marlee, posso contar um segredo? - esperava que ela acreditasse nas minhas palavras.
Marlee: Claro, Juliana. Qualquer coisa.
Marlee: Não sei quem vai ganhar isso aqui. Mesmo! Pode ser qualquer uma nesta sala, acho que todas pensam em si mesmas, mas eu sei que, se não for a escolhida, quero que seja você. Você é generosa e de bom coração. Acho que se sairia bem como esposa dele e vencedora, de verdade. - Era quase verdade.
Marlee: E você é inteligente e bondosa. Também se sairia uma ótima vencedora. - assenti agradecida. Penso isso de várias meninas, na verdade. Tipo, cada uma delas tem uma qualidade que eu não tenho, então sinto que são melhores que eu.
Juliana: Aí é que está, Marlee. Você provavelmente vai encontrar uma coisa especial em cada menina nesta sala, mas quem sabe o que o Neymar procura? - Ela concordou com a cabeça. Por isso, não vamos nos preocupar, pode me contar o que quiser, guardo seus segredos se guardar os meus. Vou me apoiar em você e se quiser pode se apoiar em mim também, é bom ter amigas aqui.
Ela sorriu e olhou ao redor para garantir que ninguém estava ouvindo.
Marlee: Neymar e eu tivemos aquele encontro.
Juliana: é? - perguntei.
Dei a impressão de estar curiosa demais, mas não pude evitar. Queria saber se ele tinha sido travado com ela ou se gostou do encontro.
Marlee: Ele mandou um recado para Márcia, minha ajudante, perguntando se dava pra gente se ver na quinta. - sorri quando ouvi Marlee contar isso, lembrando como na quarta-feira ele eu eu decidimos eliminar essas formalidades (mexer na orelha). Respondi que sim, claro, como se eu fosse capaz de recusar! Ele foi me buscar e demos uma volta na cidade. Ele gosta de vários filmes que eu gosto, então fomos no cinema depois. Ele comprou pipoca pra gente, aí a gente viu o filme e na parte romântica, ele me abraçou. Pensei que fosse desmaiar!
Comecei a rir alto. Ela estava completamente caída por ele!
Marlee: Não vejo a hora de sairmos de novo, ele é tão lindo, não acha?
Juliana: é bonitinho, vai - ri
Marlee: Ah, Ju! Você com certeza reparou naqueles olhos e naquela voz...
Juliana: menos quando ele ri - repliquei, lembrando que a risada dele era esquisita, porém gostosa de ouvir. Fofa, mas esquisita.
 Marlee: Está bem, a risada dele é esquisita, mas é bonitinha.
Juliana: Claro, se você gosta de ouvir o adorável som de uma crise de asma cada vez que conta uma piada. - Marlee se rendeu e levou às mãos à barriga de tanto de rir.
Marlee: Está bem, está bem - disse recuperando o fôlego. Mas deve ter algo bom nele que você ache atraente.
Abri minha boca para dizer algo, mas fechei. Fiz isso umas três vezes. Minha vontade era dar outra cutucada, mas não queria que Marlee o visse de um jeito negativo. Pensei no que dizer, mas o que era atraente no Neymar?
Juliana: Bem, gosto quando ele abre a guarda, como quando fala sem escolher bem as palavras, ou quando você nota que ele está olhando uma coisa e... e tá vendo mesmo a beleza daquilo. - Marlee sorriu, eu sabia que ela ainda não tinha visto esse lado dele. E gosto de quando parece ficar mesmo envolvido quando estamos com ele, sabe? Como se apesar de ter uma carreira pra zelar e milhares de coisas pra fazer, ele esquecesse tudo quando está do seu lado. Ele se empenha naquilo que está diante dele. Gosto disso, e não conte à ninguém, mas... os braços dele, gosto dos braços dele.
Corei no final. Que burrice! Por que não me limitei à comentários genéricos sobre as coisas boas na personalidade dele? Por sorte, Marlee não viu problemas em continuar o assunto.
Marlee: Sim! Também gostei de sentir os braços dele, o futebol ajuda a manter a forma mesmo - riu.
Pareceu que a noite tinha sido maravilhosa pra ela, mas por que Neymar evitou falar desse encontro?
Olhei ao redor da sala e vi que metade das garotas pareciam tensas ou infelizes. Zoe, Olívia e Jessica escutavam algo que Kriss contava. Ela parecia sorridente e animada, mas o rosto de Jessica estava franzido de preocupação, ao passo que Zoe roía as unhas. Olívia estava coma cabeça longe, apalpando a região abaixo da orelha, como se estivesse dolorida. Fazendo jus à fama, Celeste falava algo cheia de arrogância. Marlee percebeu meu olhar e explicou o que acontecia.
Marlee: As garotas de cara amarrada são as que ainda não tiveram um encontro com ele. Na quinta ele me disse que eu era a segunda só naquele dia, ele está mesmo querendo conhecer todas.
Juliana: Você acha que é isso?
Marlee: É. Quer dizer, olhe só a gente. Estamos bem porque já tivemos um encontro à sós com ele. Ambas sabemos que ele gostou de nós o suficiente para não nos enxotar logo em seguida. Há uma divisão entre aquelas que tiveram um encontro com ele, e as outras que estão preocupadas. Acham que ele não está mais interessado nelas e que só vai vê-las quando for mandá-las embora.
Por que ele não tinha dito nada disso? Não éramos amigos? Um amigo contaria esse tipo de coisa. Ele já tinha marcado encontro com uma dúzia de garotas, com base apenas no sorriso delas. tínhamos ficado a maior parte da noite anterior juntos, e ele não me falou nada. Que tipo de amigo guarda os próprios segredos enquanto faz o outro botar os dele pra fora?
Talita, que até então estava ouvindo Camille com uma expressão de ansiedade no rosto, levantou-se da cadeira e olhou ao redor. Descobriu Marlee e eu no canto e logo veio na nossa direção. 
Talita: O que vocês fizeram no encontro? - perguntou de supetão.
Marlee: Oi, Talita! - Cumprimentou de um jeito de alegre.
Talita: shhhhh! - gritou. Depois se virou pra mim. Então Juliana, fale!
Juliana: Já contei.
Talita: Não, no encontro da noite passada!
Juliana: Como?
Marlee: Tina viu vocês dois juntos e contou - disse em uma tentativa de explicar o mau humor dela. Você é a única que saiu com ele duas vezes. Muitas garotas não o viram à sós e estão reclamando. Acham uma injustiça, mas não é culpa sua ele gostar de você.
Talita: Mas é completamente injusto! - explodiu ela. Eu ainda não o vi fora das refeições, nem de passagem. o que vocês dois fizeram?
Juliana: Nós... hã... fomos ao jardim. Ele sabe que gosto de sair. Só conversamos. - fiquei nervosa como se estivesse numa enrascada, o rosto de Talita era tão ameaçador que desviei o olhar e vi que uma porção de garotas na mesa próxima escutava nosso diálogo.
Talita: só conversaram?
Juliana:  Isso mesmo. - respondi dando de ombros e ela saiu bufando. Foi até a mesa de Kriss e de um jeito bem ríspido, mandou- a repetir sua mesma história. Eu, porém, estava atônita.
Marlee: você tá bem, Ju?
Juliana: tô sim, por que?
Marlee: você parece irritada...
Juliana: Não é nada, não estou irritada, tá tudo ótimo - sorri. 
De repente, em um movimento tão rápido que eu não teria conseguido ver se estivesse perto, Anna inclinou-se e deu um tapa na cara de Celeste. Quase todo mundo, incluindo eu, soltou uma exclamação de espanto.  Quem não viu logo se virou  para a mesa das duas perguntando o que tinha perdido. Tina foi uma dessas e sua voz soou tão aguda que ecoou pelo silêncio que tinha se formado na sala.
Érica: Ah não, Anna... - lamentou com um suspiro.
Um instante depois, Anna começou lentamente a compreender o que tinha feito. ela seria mandada pra casa. Não podíamos agredir fisicamente umas as outras. Érica chorava quando Anna se sentou, perdida em um silêncio perplexo.  Tanto uma quanto outra, eram originárias de fazendas e tinham ficado amigas há pouco tempo. Eu não podia imaginar como me sentiria se Marlee saísse de repente. Só conhecia Anna de vista, ela sempre pareceu uma criatura explosiva, mas eu sabia que não era da natureza dela agredir alguém. 
Não havia dúvida de que ela havia sido provocada, mas ninguém estava sentado perto o suficiente para provar. Seria a palavra de Anna contra a de Celeste, só que Celeste tinha um salão inteiro de testemunhas do tapa que levou. Talvez insistissem com Neymar para mandar Anna embora como um exemplo. Os olhos de Anna começaram a se encher de lágrimas. Celeste se levantou, sussurrou algo em seu ouvido e saiu do salão a passos rápidos. Anna foi despachada antes da hora do jantar.

-

Sylvia: Quem foi indicado com o Neymar para melhor do mundo? - Sylvia perguntou durante a aula que teríamos para não fazer veio no programa. Por sorte Amy ergueu o braço e respondeu.
Amy: Messi e Cristiano Ronaldo.
Sylvia: Correto! Foi a primeira indicação dele nessa categoria.
Ela fez inúmeras perguntas, incluindo carreira e vida pessoal. 



Os flashes pararam depois de mais uma foto do Neymar e Natalie com sorrisos radiantes.
Fotógrafo: Natalie, abaixe o queixo só um pouquinho. Isso! - ele tirou mais uma, preenchendo o estúdio com a luz.  Acho que já é o bastante, quem é a próxima?
Celeste se aproximou. Um grupo da "beleza" permaneceu em pé em volta dela até o fotógrafo aprontar a câmera. Natalie, ainda do lado do Neymar, disse algo  e fez uma pose charmosa. Ele respondeu discretamente e ela saiu com um sorriso.
Tinham nos dito no dia anterior, depois da aula sobre ele, que a foto era só pra divertir o público, mas eu não deixava de ver um peso real por trás disso. Alguém tinha escrito um editorial de revista sobre o visual de uma "escolhida", não li o artigo, mas Érica e outras leram.. Segundo elas, o texto falava que o Neymar deveria encontrar alguém com uma boa aparência, que se saísse bem nas fotos, por ele ser uma pessoa pública. Então lá estávamos nós, enfileiradas, todas com um vestido creme de manguinhas, cintura afinada e echarpe vermelha nos ombros, tirando fotos com ele. Todas sairiam na mesma revista, e a equipe de edição ia escolher suas preferidas. Era o que me incomodava desde o começo: a ideia de que o Neymar só estava em busca de um rosto bonito. Agora que o conhecia, sabia que não era verdade. Mas me irritava que as pessoas o vissem assim.  Dei um suspiro de descontentamento. Algumas garotas circulavam mascando chiclete e conversando, mas a maioria, inclusive eu, permaneceu de pé.
Celeste foi em direção ao Neymar com uma luz nos olhos e ele sorriu com a sua chegada. Assim que parou ao lado dele, sussurrou algo em seu ouvido , seja o que for, ele se inclinou para trás de tanto rir e balançou a cabeça em aprovação ao segredinho dos dois. Como alguém podia se dar tão bem com uma pessoa como ela e eu ao mesmo tempo?
Fotógrafo: Muito bem, vire-se para a câmera e sorria, por favor. - Ela voltou o rosto na direção dele e pôs uma das mãos em seu peito, inclinando a cabeça um pouco pra frente, abrindo um sorriso profissional. Celeste parecia saber tirar vantagem da iluminação e do estúdio, além de insistir várias vezes para os dois mudarem de pose. Enquanto algumas meninas aproveitavam pra fazer aquele tempo durar o máximo possível - especialmente aquelas que ainda não tinha tido um encontro -, Celeste quis demonstrar o máximo de eficiência possível. 
Em um piscar de olhos ela tinha terminado. O fotógrafo chamou a próxima, eu estava tão ocupada vendo-a deslizar os dedos pelo braço dele ao sair que a moça que trabalhava lá, teve que fazer a gentileza de avisar que estavam me chamando. Fiz um sinal com a cabeça e me levantei, determinada a não perder o foco. Segurei a saia do vestido e andei em direção ao Neymar. Seus olhos se desviaram dos de Celeste para mim e talvez fosse imaginação minha, mas pareceu ficarem mais iluminados.
Neymar: Olá, minha gatinha - ele cantarolou.
Juliana: Nem comece - avisei ao mesmo que riu de mim e e estendeu o braço.
Neymar: Um segundo, sua echarpe está torta.
Juliana: era de se esperar - Aquilo era tão pesado que sentia que caía das minhas costas a cada passo.
Neymar: Acho que assim dá pro gasto - disse em tom de piada.
Juliana: Bem que eles poderiam pendurar você com os lustres depois, né? - rebati caçoando do paletó dele da cor da lâmpada.
Fotógrafo: Olhem para a câmera por favor.
Levantei a cabeça e vi não apenas dois olhos , mas os de todas as selecionadas cravados em mim.  Meus nervos saíram do controle. Sequei as mãos úmidas de suor no vestido e soltei o ar. 
Neymar: Não fique nervosa - sussurrou.
Juliana: Não gosto que todos fiquem olhando para mim.
Ele me puxou para muito perto de si e passou a mão pela minha cintura, quis me afastar, mas o braço dele estava bem firme em mim.
Neymar: Apenas olhe para mim como se não aguentasse mais a minha cara - ele sugeriu, fazendo uma careta de mau humor. Foi o bastante para me fazer cair na risada. A câmera disparou  naquele exato momento e nos pegou rindo. Viu? Não é tão ruim.
Juliana: Talvez.
Continuei tensa por alguns minutos, o fotógrafo gritou suas instruções e o Neymar relaxou seu braço na minha cintura, depois me virou de modo que minhas costas ficassem contra seu peito.
Fotógrafo: Excelente! Podemos fazer umas no sofá?
Eu me sentia melhor agora que metade já tinha passado. Sentei-me perto dele com a melhor postura que pude produzir. Ele ficava o tempo todo fazendo cócegas em  mim ou me cutucando e meu sorriso foi aumentando até explodir em uma gargalhada. Eu tinha esperança que o fotógrafo estivesse captando os momentos antes de eu fazer careta de riso. Do contrário, seria um desastre.  
Pelo canto dos olhos, notei uma mão acenando. Neymar percebeu log em seguida. Um homem estava ali e queria falar com ele. o mesmo fez um sinal para que se aproximasse, mas o homem hesitou, evidentemente consternado com minha presença.
Neymar: ela pode ouvir
xxxx: reunião com os advogados em 30 minutos. - ele suspirou e agradeceu o rapaz pela informação.  
Eu sabia que deveríamos continuar a sessão de fotos, mas ele não parecia nem um pouco interessado nela agora. 
Juliana: Talvez devêssemos parar - sugeri.
Ele balançou a cabeça, ajeitou-se e sorriu, pondo minha mão sobre a sua. 
Neymar: Um dos requisitos dessa profissão, é a capacidade de parecer calmo quando se está muito longe disso, por favor, sorria Ju.
Endireitei a postura e dei um sorriso tímido para os cliques do fotógrafo. No meio daquelas fotos, ele apertou minha mão e eu fiz o mesmo. Naquele momento senti que tínhamos uma ligação forte e verdadeira.
Fotógrafo: Muito obrigado! Próxima por favor...
Ele deu um último aperto na minha mão e me soltou. Enquanto ia para o meu lugar, pensei em muitas coisas . Pensei em como era bom saber que ele confiava em mim, e em como essa confiança fez com que nos sentíssemos sozinhos por uns instantes. 
Neymar: Olívia, minha gata - ele disse assim que viu a próxima garota se aproximar. Ri internamente com aquele afeto fingido e manjado. Ele baixou a voz, mas ainda assim ouvi o que disse a seguir. Antes que me esqueça, está livre hoje à tarde?
Algo fez com que meu estômago desse um nó, parecia uma crise de nervos tardia. Não gostava nem um pouco daquilo. 

domingo, 18 de setembro de 2016

Capítulo 5: "Sei que nos conhecemos há pouco tempo, mas acho você maravilhosa..."


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  "Gostava da nossa nova intimidade, estava feliz com isso"




A primeira sexta-feira chegou, e com ela nossa estreia no programa. Nossa participação era obrigatória, mas ao menos dessa vez tudo o que tínhamos que fazer era ficar sentadas. Por conta do fuso horário diferente, chegávamos às cinco da tarde, permanecíamos sentadas por uma hora e depois íamos pro jantar. Cada uma das meninas ganharam uma ajudante, para que desse o  "help" a qualquer hora. No meu caso, meu anjo é a Lucy. Ela me ajudou a me vestir da forma mais elegante possível, colocou em mim um vestido longo azul-escuro, tendendo para o violeta. A cintura era justa e a borda do vestido era levemente ondulada. não podia acreditar que minhas mãos tocavam uma peça tão bonita. Lucy abotoou um botão por vez nas minhas costas e depois colocou grampos encravados com pérolas nos meus cabelos. Acrescentou pequenos e delicados e um colar cuja corrente era tão fina que as pérolas espaçadas pareciam flutuar sob a minha pele. Eu estava pronta. Me olhei no espelho e fiquei feliz por ainda parecer eu mesma. Aliás, era a versão mais linda de mim que já vira, mas ainda era meu rosto. Desde que meu nome foi sorteado, temia me tornar irreconhecível, um ser totalmente encoberto por camadas de maquiagens e joias que eu teria que cavar por semanas até encontrar a mim mesma. Por ora, ainda era Juliana.
E assim, como eu mesma, descobri que minhas mãos brilhavam de suor enquanto me dirigi ao estúdio de gravação. Disseram que deveríamos chegar dez minutos antes. Para mim, dez minutos eram quinze, para alguém como Celeste eram mais ou menos três. Por isso, as meninas foram chegando aos poucos. Olhei para o lado e vi dona Nadine pôr alguns fios de cabelos rebeldes no lugar, Neymar endireitou a camisa social e comentou algo com ela, ela inclinou a cabeça em aprovação e ele sorriu. Gostaria de ter visto mais, mas Silvia chegou para me levar para o meu lugar.
Silvia: Para a cadeira, Juliana! - ordenou. Pode se sentar onde quiser, mas, você sabe, as garotas já ocuparam toda a fileira da frente. - Silvia pareceu triste por mim, como se estivesse dando uma má notícia.
Juliana: Ah, obrigada! - Agradeci, feliz por poder sentar na última fileira.
Não gostei de subir aqueles degrauzinhos com um vestido chique e salto alto (Aliás, eu precisava mesmo deles? ninguém veria meus pés), mas dei um jeito. Em seguida, chegou Marlee, que abriu um sorriso quando me viu e veio se sentar ao meu lado. Seu vestido era de um amarelo brilhante, o que dava impressão de que ela irradiava luz.
Juliana: Uau! Adorei seu vestido, você está maravilhosa!
Marlee: Ah, obrigada! - ela disse corando levemente. Fiquei com medo de ter exagerado um pouco.
Juliana: De jeito nenhum, ficou perfeito em você!
Marlee: eu queria conversar, mas você não aparecia. Será que a gente pode se falar amanhã? - perguntou em voz baixa.
Juliana: Claro! No jardim amanhã, pode ser? - respondi no mesmo tom e ela assentiu.
Amy que estava sentada na cadeira da frente, virou-se pra gente.
Amy: Acho que os enfeites no meu cabelo estão caindo, vocês podem ajeitar pra mim?
Sem responder, Marlee procurou os grampos e os ajeitou.
Marlee: Tá melhor agora?
Amy: Sim, obrigada! - suspirou aliviada.
Zoe: Juliana, tem batom nos meus dentes?
Virei para a esquerda e lá estava ela, expondo todos os dentes brancos como pérolas em um sorriso lunático.
Juliana: Não, tudo certo.
Zoe: Obrigada! Como ele pode ser tão calmo? - perguntou apontando pro Neymar , que falava com alguém da produção. Depois da pergunta ela enfiou a cabeça entre as pernas e começou a controlar a respiração.
Marlee e eu viramos uma para a outra de olhos arregalados e tentamos não rir.
Havia várias garotas de vermelho sedutor e verde vibrante, mas nenhuma estava de azul. Olívia foi ousada o bastante para usar laranja, eu não sabia muito de moda, mas Marlee e eu concordamos que alguém deveria ter ajudado a moça, porque aquela cor deixava sua pele esverdeada. Dois minutos antes de ligarem as câmeras, descobrimos que não era o vestido que deixava ela verde, Olívia vomitou na lata de lixo mais próxima e desmaiou. Silvia entrou em ação e pediu aos gritos que alguém limpasse o chão e fizesse a garota se sentar. Ela foi posta na última fileira com um balde próximo aos seus pés, por precaução.
Pensei que o Neymar teria visto ou escutado uma parte da confusão e quis conferir se ele demonstrava alguma reação. Olhei para ele, mas ele não olhava para a confusão, olhava para mim. Rapidamente - tão rapidamente que qualquer outra pessoa pensaria se tratar de uma coceirinha - ele mexeu na ponta da orelha. Fiz o mesmo gesto e desviamos o olhar. Fiquei empolgada ao saber que ele passaria no meu quarto depois do jantar. De repente, a musiquinha começou a tocar e só consegui me endireitar na cadeira. Pensei na minha família que estaria assistindo, então só quis deixá-los orgulhosos. Seu Neymar começou falando alguma coisa, que até tentei prestar atenção, mas era difícil. Estava ao vivo numa TV, era bizarro! Após alguns minutos, Gavril tomou a palavra.
Gavril: Boa noite a todos! Tenho um anúncio importante, faz uma semana que a Seleção começou e oito mulheres já voltaram pra casa. Restam agora vinte e sete belas jovens para Neymar fazer sua escolha.  semana que vem, haja o que houver, o programa inteiro será dedicado à elas.
Senti gotículas de suor se formar na minha testa. Sentar ali e e fazer boa figura... Até aí tudo bem. Mas, responder perguntas? Eu sabia que não ia ganhar aquele joguinho, mas não essa era questão. Eu só não queria fazer papel de idiota em rede nacional.
Gavril: Antes de chegarmos às senhoritas, falaremos com o homem do momento.  Como você está nessa noite, Neymar?
Ele foi pego de surpresa, não tinha microfone, nem uma resposta preparada. Imediatamente antes de o microfone de Gavril chegar até ele, nossos olhares se cruzaram e dei uma piscadinha. Aquele peno gesto foi suficiente para fazê-lo sorrir.
Neymar: Muito bem, Gavril, obrigado!
Gavril: Tem gostado das companhias até agora?
Neymar: Sim! Está sendo um prazer conhecê-las.
Gavril: São todas moças doces e gentis como aparentam?
Dei uma risadinha antes mesmo dele falar. Eu sabia que ele diria algo como "Bem, mais ou menos".
Neymar: Hmmm - Ele desviou o olhar de Gavril e me encarou. Quase!
Gavril pareceu surpreso!
Gavril: Alguém ali está sendo desobediente? - perguntou apontando pra nós. Por sorte todas as meninas soltaram uma risadinha e eu pude me unir à elas. Que traidor! - O que essas garotas fizeram que não foi exatamente meigo?
Neymar: Muito bem, deixa eu te contar.
Ele cruzou as pernas e ficou bem confortável na cadeira. Estava bem relaxado, curtindo com minha cara. Gostei desse seu lado, queria o ver mais vezes.
Neymar: Uma delas teve a coragem de gritar comigo de um modo bem agressivo em nosso primeiro encontro. Levei uma baita de uma bronca!
Atrás dele, Nadine e Neymar se entreolharam. Parecia estar ouvindo a história pela primeira vez também. Ao meu redor, as meninas trocavam olhares confusos, só fui perceber quando Marlee disse.
Marlee: Não me lembro de ninguém ter gritado com ele na sala, você se lembra?
Neymar devia ter se esquecido que nosso primeiro encontro era um segredo.
Juliana: Acho que ele está exagerando, para ser engraçado. Cheguei a dizer para ele umas coisas bem sérias, talvez esteja falando de mim.
Gavril: Uma bronca? Por quê?
Neymar: Honestamente, não sei. Saudades de casa, talvez. E foi por isso que a perdoei, claro.
Neymar estava solto e tranquilo, conversava com Gavril como se não houvesse ninguém no estúdio além dos dois.
Gavril: Então ela ainda está conosco?
Neymar: Ah, sim. Ainda está - afirmou sem tirar os olhos de Gavril. - E planejo mantê-la aqui por um bom tempo.

O jantar foi uma decepção. Na semana seguinte teria que pedir pra Lucy que deixasse uma folga no vestido para eu poder comer mais. Ela até queria me ajudar a tirar quando cheguei no quarto, mas expliquei que precisava ficar com ele mais um pouco. A mesma deduziu que o Neymar viria me ver, então logo deixou o quarto. Não sabia quanto tempo ele demoraria e não queria começar um livro e ter que parar. Acabei me deitando na cama, e enquanto ele não aparecia, deixei minha mente viajar. Pensei em Marlee e sua gentileza, então me dei conta de que, fora alguns detalhes bem pequenos, eu sabia pouco sobre ela. Depois pensei nas garotas falsas e fiquei imaginando se o Neymar conseguia diferenciá-las. A experiência dele com mulheres parecia ser muito grande, mas ao mesmo tempo, muito pequena. Conhece e tem várias à disposição, mas é sempre o mesmo tipo, a mesma classe. Fiquei imaginando se um dia ele já conheceu alguém que realmente gostasse. Não tive tempo para pensar mais, as firmes batidas dele me despertaram. Quando dei por mim, já estava correndo até a porta.
Abri-a de uma vez e o Neymar pareceu surpreso ao me ver.
Neymar: Onde está lucy?
Juliana: Foi embora. Eu a dispenso sempre depois do jantar.
Neymar: Todos os dias?
Juliana: Sim, claro! Posso muito bem tirar a roupa sozinha, obrigada! - Ele levantou as sobrancelhas e sorriu, então eu corei. Não era aquelas palavras que eu queria usar.
Neymar: Pega um casaco, tá frio lá fora.
Peguei e avançamos pelo corredor. Eu ainda estava um pouco distraída com meus pensamentos e sabia que ele não era invasivo na hora de puxar assunto, porém enlacei meu braço no dele quase que imediatamente. Gostava do fato de já termos certa intimidade.
Neymar: Se continuar dispensando Lucy, vou ter que mandar outra pessoa toda noite pra ver se está precisando de algo.
Juliana: Não! Não quero saber de babás - ele riu.
Neymar: seria rápido, você nem saberia que ela veio.
Juliana: Saberia sim - reclamei. 
Estava tão envolvida na nossa falsa discussão que não escutei os cochichos até que as três garotas estivessem na nossa frente. Celeste, Alice e Tina passavam por nós em direção a seus quartos.
Neymar: Meninas - acenou levemente com a cabeça.
Seria tolice imaginar que ninguém nos veria juntos. Meu rosto fiou vermelho, e eu não sabia bem porquê.
As meninas também acenaram e seguiram seu caminho. Virei a cabeça para observá-las subir a escada. Alice e Tina pareciam curiosas , em questão de segundos contariam o episódio para as outras, e no dia seguinte seria alvo de milhares de perguntas, sem dúvida. Já os olhos de Celeste se cravaram em mim como duas adagas. Eu tinha certeza de que ela levava aquilo com uma ofensa pessoal.
Juliana: Os boatos das garotas que queriam ir embora, eram mentira né?
Neymar: sim, você não imagina o alívio que deu.
Juliana: Achei que isso ia acabar ajudando. Quer dizer, é complicado ter que escolher uma entre várias meninas. Não ficaria mais fácil se as circunstâncias eliminassem algumas pra você?
O Neymar sacudiu os ombros.
Neymar: suponho que sim, mas não seria fácil de qualquer forma.
Juliana: Não entendi.
Chegamos no jardim e nos sentamos em um banco, ficando de frente um pro outro. 
Neymar: Talvez estivesse sendo um pouco vaidoso, pensando que eu valeria algum esforço. Não que obrigue isso de ninguém. - esclareceu. Não é isso que quero dizer... Não sei. você vê tudo que estou arriscando?
Juliana: hã... Não! Você está aqui com sua família dando conselhos, e todas giramos em torno do seu horário. Sua vida continua a mesma, e a nossa mudou da noite pro dia. O que você estaria arriscando?
Ele parecia chocado.
Neymar: Juliana, posso ter minha família, mas imagine como é vergonhoso ter seus pais, amigos e o país todo observando você nos seus encontros com uma garota. E pra piorar, não é um tipo normal de encontro. E quanto ao meu horário: quando não estou com vocês, estou treinando, disputando campeonatos, fazendo fotos, assinando contratos, arranjando tempo pro meu filho que é mais importante pra mim do que qualquer uma dessas coisas, e tudo isso sozinho porque ninguém pode fazer por mim. Enquanto tenho que cumprir todas essas tarefas, vocês garotas, não saem da minha cabeça, fico agitado demais com a presença de vocês aqui! - Nunca o vi gesticular tanto, ele sacudia para todos os lados e passava as mãos no cabelo. E você acha que minha vida não vai mudar? Quais as chances de eu encontrar o amor da minha vida entre vocês? Terei sorte se encontrar alguém, e se já mandei a mulher certa pra casa por não sentir nenhuma química? e se a minha escolha me abandonar na primeira pressão com meu trabalho e vida pública? E se eu não encontrar ninguém, de que serviu tudo isso Juliana? - Seu discurso tinha começado cheio de fúria e paixão, mas no final as perguntas não eram mais retóricas. Ele realmente queria saber: o que faria se ninguém ali passasse perto de ser uma pessoa que ele pudesse amar? Embora esse não parecesse ser seu maior problema, Neymar estava mais preocupado em não ser amado.
Juliana: Vou ser sincera! Você vai encontrar alguém aqui, de verdade!
Neymar: Certeza?
Juliana: Absoluta. - Pus a mão no seu ombro, e ele pareceu reconfortado só com aquele toque. Espero que você e Marlee deem certo, ela é uma fofa! - ele fez uma cara estranha e eu ri.
Neymar: É, parece que sim.
Juliana: O que foi? Tem alguma coisa errada em ser fofa?
Neymar: Não, não. Isso é bom também.  O que você tanto procura?  - perguntou de repente.
Juliana: o quê?
Neymar: você não consegue manter os olhos parados, sei que está procurando alguma coisa. - Percebi que ele estava certo, ao longo de todo o seu pequeno discurso, eu não parava de olhar ao redor. 
Juliana: Garotas, câmeras... - disse balançando a cabeça e olhando pro céu escuro da noite.
Neymar: Estamos sozinhos aqui. Você não gosta de ser observada, né?
Juliana: Na verdade, não. Prefiro ficar fora do radar, estou acostumada à isso. - respondi sem olhar pra ele.
Neymar: você precisa se adaptar, quando for embora, os olhos do mundo ainda continuarão sob você.
Juliana: Perfeito! - resmunguei. Mas um motivo pra eu não ver a hora de chegar em casa.
Ele fez uma expressão de quem pede desculpas, mas tive que desviar o olhar. Acabara de lembrar tudo que aquela competição idiota estava custando pra mim, como minha ideia de "normal" nunca seria a mesma e aquilo não parecia justo...
Me contive, não podia culpá-lo. Ele parecia ser tão vítima, como todas as outras garotas, embora de um jeito muito diferente. Dei um suspiro e olhei pra ele de novo. Encontrei uma expressão decidida em seu rosto.
Neymar: posso te perguntar algo pessoal?
Juliana: Talvez... - ele sorriu
Neymar: é que... Bem, noto que não gosta mesmo daqui. Você odeia as regras, a competição, a fama, as roupas e.. a não, da comida você gosta - ele sorriu e eu também. - Você sente saudades de casa, da família e queria saber... se sente saudades de mais alguém.
Juliana: Não! - respondi de imediato. Não tenho ninguém, se é isso que quer saber. Mas preciso ficar aqui.

Neymar: Eu sei e sei que  nos conhecemos há pouco tempo, mas acho você maravilhosa. Não gostaria de vê-la magoada por causa de alguém. - Ele me abraçou e acalentou minha cabeça sobre seu ombro largo. 
Sabia que manteria suas promessas, assim deixe-me estar naquele momento que talvez fosse o último lugar onde poderia encontrar consolo sincero.






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